Correio do Minho

Braga,

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Elas vivem mais. Eles têm mais poder.

Datas que não podem ser esquecidas durante todo o ano

Ideias

2011-12-11 às 06h00

Felisbela Lopes Felisbela Lopes

Em Portugal e no mundo nascem mais homens do que mulheres. Mas o número de mulheres é superior ao dos homens. Porque elas vivem mais anos, porque têm menos acidentes mortais, porque emigram menos.
Olhando para o espaço público mediático, constata-se facilmente que a opinião declina-se no masculino. Elas são mais. Eles têm mais poder. É esta a realidade, por muito que um discurso feminista insista em tentar ler o social em termos de um desequilíbrio que importa repor rapidamente.

Numa grande reportagem, a edição de ontem do “Diário de Notícias” sinalizava os concelhos portugueses mais masculinos: Porto Santo, Lajes das Flores, Corvo, Ri-beira Grande, Monchique, Odemira, Grândola e Azambuja. Como traço comum, em todos estes locais geograficamente afastados há uma percentagem reduzida de idosos, o que justifica o predomínio dos homens. Em todos eles, sente-se também alguma descrença, algum pessimismo, que crescentemente estão a tomar conta do nosso país.

No mesmo jornal, umas páginas mais à frente leio o seguinte título: “mulheres têm mais poder e lideram o mundo”. O texto fala de uma conferência de imprensa promovida pelas três laureadas com o Nobel da Paz 2011. É evidente que o discurso destas premiadas tem de enaltecer o já longo caminho de conquista de direitos trilhado pelas mulheres, mas falar em liderança parece ser exagero… Nem de propósito, na edição de ontem do caderno de economia do “Expresso”, lia-se uma peça intitulada assim: “os homens que põem Portugal no mapa”.

O texto era ilustrado como 14 fotografias, entre as quais uma pertencia a uma mulher. Se exceptuarmos o caso de António Horta Osório, presidente do Banco Loyds, todos os outros serão algo desconhecidos para grande parte da opinião pública. Irónico, porque falamos aqui de gestores internacionais de topo.

Por exemplo, do número dois da Xerox, um português de seu nome Armando Zagalo; do número dois da Nokia, Armando Almeida; do número dois da Renault, Carlos Tavares…, nomes que não ocupam os plateaux mediáticos, mas que interferem decisivamente na economia à escala mundial. Quase todos homens, pois claro, porque, quando falamos de cargos de topo, falamos essencialmente de homens. É aqui que sentimos o “glass ceiling”, o tal tecto de vidro que bloqueia o acesso das mulheres a lugares relevantes.

No sugestivo livro intitulado “El Siglo de las Mujeres”, Victoria Camps proclamava que o século XXI será das mulheres. Poderá sê-lo, mas isso não se sente por enquanto. Relativamente ao lugar que observo com mais atenção, os palcos informativos da TV, verifico que esses lugares continuam dominados pelos homens. É deles a palavra televisiva. As mulheres praticamente não são ouvidas. Também acontece o mesmo com os espaços de opinião da imprensa, tomados de assalto por homens.

Não sou muito partidária da escola feminista, nem tão pouco os estudos que desenvolvo reclamam contributos teóricos dessa linha, mas sou obrigada a constatar que uma mulher não tem, de facto, as mesmas oportunidades dadas a um homem. Em casa, há ainda tarefas que se pressupõem ser pertença daquelas a quem chamamos “donas de casa”, muitas vezes carregando neste conceito um elogio que só pode enervar quem o recebe. Ser uma “boa dona de casa” apenas poderia ser um louvor se encarássemos do mesmo modo a expressão ser um “bom dono de casa”. Acontece que todos sabemos que não é assim.

Tradicionalmente, há papéis femininos (saber cozinhar, fazer compras, ocupar-se da logística da roupa) e papéis masculinos (conduzir o carro da família, arranjar avarias eléctricas, ocupar-se do pagamento de contas) e qualquer permuta pode ser encarada como uma menorização do género. No que me diz respeito, nunca gostei muito disso e não aprecio de todo ouvir discursos que procuram integrar homens e mulheres em compartimentos estanque. Cada um deverá fazer aquilo que acha ser a sua função e cada um deve ter as mesmas oportunidades. Independentemente de ser homem ou mulher.

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