Correio do Minho

Braga, terça-feira

Ele...

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Conta o Leitor

2013-08-26 às 06h00

Escritor

Susana Miranda

O telemóvel tocou e ao atender a chamada senti, intuição feminina ou não, que a minha vida iria mudar de uma forma repentina, à mercê do destino. Fui convidada a comparecer para uma entrevista final de trabalho, numa altura em que já trabalhava numa outra empresa, porém nada entusiasmada com as funções que lá desempenhava.
Sempre fui ambiciosa e decidi arriscar. Na semana seguinte, numa tarde fria de Janeiro, lá estava eu ansiosa, nervosa, expectante sobre o que me esperaria naquela entrevista. De calças pretas, blusa branca e casaco cinzento entrei pela primeira vez naquela empresa que desconhecia. E foi a primeira vez que o vi...

Sentado no fundo daquela sala, deparei-me com aquele homem misterioso e desconhecido que me observava com um olhar penetrante, fazendo-me sentir ainda mais nervosa. Desviei o olhar e fiz de conta que não tinha reparado nele até que, finalmente, fui chamada para a tal conversa decisiva com o responsável deixando-me aliviada. Aceitei o emprego, apesar de ser temporário.
No primeiro dia de trabalho tudo era novidade, exceto aquele homem de quem ainda me lembrava pela forma como tinha olhado para mim. Pouco a pouco fomo-nos conhecendo, ficando sempre com a ideia de que era mais um mulherengo à procura da “presa fácil”. Talvez pré-concebida, mas fiquei!

Nas nossas conversas de café e almoços não programados, na forma como trabalhava e se relacionava com os outros, fui percebendo que afinal aquele homem era um ser sensível, simples, amigo e em quem podia confiar. A cada dia que passava, fomos ficando mais próximos, mais amigos, mais confidentes e, pela primeira vez fui capaz de me expor, de revelar segredos íntimos que jamais pensaria partilhar com outra pessoa que não fosse o homem com quem mantinha uma relação há anos.

Era uma sensação boa ter alguém que me ouvisse nas horas boas e más, que me desse conselhos e me apoiasse. De críticas estava eu cheia! Nunca me senti uma mulher valorizada, uma pessoa com qualidades e que marcasse a diferença na vida de alguém. Mas, de repente, ele começava a fazer-me encarar a vida numa perspetiva diferente, quer pela sua experiência quer pela sua simplicidade e na forma de ser feliz. Eu sentia que se preocupava cada vez mais comigo, que ansiava pela renovação do meu contrato na empresa só para não perder o meu rasto ou talvez a minha companhia e amizade...

No primeiro minuto do dia do meu aniversário, enviou-me uma mensagem de parabéns para o telemóvel e no dia propriamente dito, para minha surpresa, ofereceu-me uma prenda, a primeira que recebi das mãos dele. Talvez tenha sido nessa altura que percebi a ligação forte e profunda que nascia entre nós... A forma como nos relacionávamos, como sorríamos juntos, como debatíamos ideias, como queríamos ser felizes... E quando me escreveu um poema, eu percebi que queríamos ser felizes juntos, contra tudo e contra todos! Naquele papel branco, onde li e reli cada um daqueles versos, percebi que “Amor” não era apenas o título do poema...

Por obra do destino, ou talvez não, aquele homem de olhar meigo e misterioso tinha-se tornado no amigo que nunca tive, no meu porto seguro, no meu sorriso e nas minhas lágrimas. Ele sempre teve a liberdade que eu nunca consegui ter, na forma livre como dizia o que pensava, como exprimia os seus sentimentos. Não tinha medo de viver, nem de perder. Conseguíamos ser diferentes e, ao mesmo tempo, iguais e completos quando estávamos juntos.

Se por um lado estava cada vez mais próxima dele, por outro distanciava-me cada vez mais da relação que tinha há tantos anos. O meu melhor amigo e confidente passou a ser um só... Ele!
Foi precisamente num momento de despedida, de partida para uma viagem, que pela primeira vez nos beijámos apaixonadamente como se não houvesse mais amanhã. Tanto eu como ele queríamos dar aso a todos os sentimentos há muito reprimidos por medo, ou talvez por respeito às outras pessoas envolvidas nas nossas vidas. Contra tudo e contra todos, nesse final de tarde, no largo de uma igreja qualquer, fomos apenas um só... Ambos tínhamos receio do que poderia acontecer, de sermos vistos, de nos apaixonarmos! No entanto, sentíamos que nessa altura já era tarde demais... O amor acontece e não escolhe idades ou estados civis… Acontece, simplesmente.

Depois dessa tarde, já com as malas feitas e num momento de nostalgia e tristeza, ficámos horas ao telefone tentando suprimir a distância que nos separava e as saudades que sabíamos que iríamos sentir. Nessa altura eu pensava na rasteira que o destino me tinha pregado... uma simples proposta de emprego, mudou completamente a minha vida e a minha forma de ser...

Nessa noite, ao telefone, ambos assumimos por palavras e sem tabus, aquilo que sentíamos um pelo outro. Eu sentia a falta daquele homem sempre que não estava com ele. Tudo me preocupava nele. Se estava bem, triste ou feliz, a verdade é que passava todos os minutos do meu dia a pensar nele. Se não era amor, o que seria então?
Hoje sei que a vida é feita de surpresas, e apaixonar-me por ele foi uma enorme surpresa. Aprendi que não há nada melhor do que ser livre, amar e ser amada...
Foi ele que me ensinou!

Deixa o teu comentário

Últimas Conta o Leitor

31 Agosto 2018

Ingratidão

30 Agosto 2018

Humanum Amare Est

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.