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Em Dia Mundial da voz, quem tem um pássaro azul no coração?

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Em Dia Mundial da voz, quem tem um pássaro azul no coração?

Voz aos Escritores

2021-04-16 às 06h00

Fernanda Santos Fernanda Santos

Há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica aí dentro,
não vou deixar
ninguém ver-te.[…]

Charles Bukowski

Começo a escrever evocando Charles Bukowski, o poeta que se sentava na máquina de escrever e deixava fluir os seus pensamentos sem um pingo de censura. Ironicamente, “Pássaro azul” é um poema que nos faz refletir sobre sentimentos ocultos que não queremos libertar. São gritos guardados, engolidos, presos dentro de nós. Gritos mudos que precisam de liberdade e de quem lhes dê voz. Não é por acaso que BuKowski está presente em álbuns, músicas e letras de bandas famosas, como Guns N' Roses,U2, Red Hot Chili Peppers, Tom Waits Wild Years e tantas outras.
Sem o filtro criminoso da censura, entre nós, também abril é o mês do livro e da liberdade. Liberdade essa que é determinante na hora de unir forças para cantar bem alto a diversidade, a igualdade e a democracia, contra a injustiça, a escravidão, o racismo e todas as manifestações de desumanização de uma sociedade. É aqui que a poesia encontra a sua expressão mais fulgurante, mesmo quando nos parece mais sombria, tal qual nos diz Eugénio de Andrade:

Toda a poesia é luminosa,
até a mais obscura.
O leitor é que tem, às vezes,
em lugar de sol,
nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.

Daí a importância das palavras lidas, não só com a voz, mas também com o silêncio e com o coração. Chamo até a esta prosa Padre António Vieira para quem o livro é um mudo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive.
A este propósito chamo à conversa Hélder Júlio Sambo e o seu poema Mudo eu sou na poesia quem diria/que um dia eu escreveria. /É pena que sou mudo que não tenho voz/pra me expressar uso apenas a escrita e/inspiração[…]E sou mudo mais não sou surdo estou de ouvidos bem abertos ao mundo.
Vozes famosas como Morgan Freeman, Elvis Presley, Aretha Franklin, Nat King Cole, Freddy Mercury e Frank Sinatra são inconfundíveis. O mesmo podemos dizer das vozes portuguesas que fazem parte da nossa memória coletiva, nomeadamente aquelas que cantaram grandes poetas. Seria imperdoável não começar pela grande Amália Rodrigues. E para lá da figura histórica que os portugueses amam, o que mais me fascina nela é a sua voz, a sua entrega. É a todo um povo, as amarguras, as paixões a que estamos agarrados, principalmente ao final da sua vida em que a voz refletia o peso de uma vida, tal como podemos ouvir em o Grito “Do silêncio faço um grito/ O corpo todo me dói” […]. E como Amália influenciou outras vozes marcantes como Mariza, Camané ou Dulce Pontes, a que muitos chamaram de “sucessora de Amália” pelos temas Lágrima e Estranha Forma de Vida. Contudo, fora a Canção do Mar, provavelmente a canção portuguesa mais conhecida fora de Portugal, interpretada até hoje pelo mundo fora por vários artistas no mundo musical e até do cinema.
Também Carlos do Carmo cantou grandes poetas com uma voz arrepiante e distinta, tanto dentro como fora de portas.
Outra voz, sem filtro, que me marcou foi a de António Variações, pois escrevia as suas próprias músicas com a verdade do poeta. A mesma autenticidade e verdade com que José Afonso (Zeca Afonso) contava as suas histórias e que fazem parte da nossa juventude, tal como as vozes de Paulo de Carvalho e Sérgio Godinho, entre outras. Com uma beleza quase celestial na voz, eis que surge Teresa Salgueiro do grupo Madredeus no top das grandes vozes portuguesas. É uma voz onde ressalta a singular dicção, tão determinante para se perceberem as palavras e a sua coerência semântica.
Apetece-me, agora, soltar a “Voz” de Alexandre Herculano: É tão suave ess'hora,/Em que nos foge o dia,/E em que suscita a Lua/Das ondas a ardentia,[…] É a “ Voz do Amor” que nos canta tão bem Olavo Bilac” Nessa pupila rútila e molhada,/Refúgio arcano e sacro da Ternura,/A ampla noite do gozo e da loucura/Se desenrola, quente e embalsamada.”,
o amor que os poetas cantaram e ao qual os músicos deram voz. E são tantos os que o fizeram de uma forma ímpar e continuam a não aprisionar “o pássaro azul” que têm no coração, como Luís Filipe Castro Mendes em “O último amor”:

Era o último amor. A casa fria,
os pés molhados no escuro chão.
Era o último amor e não sabia
esconder o rosto em tanta solidão. […]
Era o último amor e não sabia
que os pés à terra nua oferecia.

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