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Em divagação pela cidade…

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Em divagação pela cidade…

Ideias

2020-05-18 às 06h00

Filipe Fontes Filipe Fontes

A circunstância actual que vivemos é, dia após dia, circunstância única e singular, imprevisível e não programada, retirando-nos estabilidade e suporte quotidiano. Todavia, e por contraditório que pareça, é momento gerador de um pensamento fervilhado de ideias, de reacção e de constatação, num processo que nos surpreende tanto pela capacidade de invenção e criatividade revelada, como pela descoberta de realidades tão bem próximas de nós e tão mal percepcionadas, atendidas e entendidas.
Alguns dizem que este é um momento de confronto com o nosso ser e nossa afirmação de caminhar para um bem maior. Outros defendem que este é um momento de consequência do nosso ego e nosso egoísmo de tudo abarcar e satisfazer em nome da nossa exclusiva vontade e necessidade.
Acredito que este é mais um momento em que temos de revelar o que somos e porque somos, como somos e para que somos. No fundo, é um momento de conhecimento e reconhecimento, de avaliação e projecção para que o amanhã seja melhor… sem esconder o passado, sem negação do presente, com esperança no futuro.
E assim, neste pensamento atolado e atónito, mais atento e desperto, dou por mim a divagar pela cidade deserta de alegria e movimento, pela cidade seca de conversas e festa, pela cidade faminta de pessoas, sejam elas os seus usuários quotidianos, os seus habitantes temporários e permanentes, os seus trabalhadores e zeladores, ou mesmo, aqueles que fazem da cidade física, do seu espaço urbano, ruas e praças, becos e recantos, e outros mais, locais de abrigo, dormida, trabalho, comer ou, simplesmente, estar e respirar.
E neste divagar pela cidade, pergunto onde e como estará o carteirista que depende da concentração de pessoas, da distracção e alegria geradas pela interacção comunitária para se exercer em prejuízo alheio. Pergunto pelo ardina que conhece, talvez, a “estocada final” na sua existência, o seu prejuízo último e irremediável, sem retorno ou esperança e que já não encontra razão para gritar e anunciar… afinal, se há matéria para vender, não há possibilidade de comprar!
Pergunto pelas prostitutas que se afastam da esquina por falta de protagonismo visual (a contrário do que é pensamento generalizado, o protagonismo não depende tanto do que somos e fazemos mas sim, e muito, de quem vê e como vê…). Pergunto pelo dito “arrumador de carros” que, também ele, entrou em lay-off forçado e autodecretado. Pergunto pelo engraxador que, de tão raro, já ninguém o persegue e procura e que encontra destino coincidente ao ardina. Pergunto pelo comerciante especializado em tudo o que possa ser exposto no chão do espaço público, sobre uma protecção que se transforma em saco de transporte quando necessário, e que tudo negoceia em nome de um qualquer retorno financeiro. Pergunto pelo sem-abrigo que, talvez, experimente uma paz e calma, antes reclamada, agora desfasada e irreal. Pergunto por todos estes que (também) são parte integrante da cidade, daquilo a que se poderá chamar o seu esqueleto humano e que, imagino (porque não os encontro), se confinam para se protegerem, protegendo a comunidade.
Nesta divagação, descobrimos que, afinal, a cidade é muito mais do que pensamento. E muito mais exigente. Por nós e para nós! Talvez por isso, nesta circunstância tão específica e especial, neste momento histórico que desperta tanta emoção e sensações, que exige tanto conhecimento e informação, que questiona a nossa certeza de que “tudo sabemos e podemos”, seja momento verdadeiro de um olhar holístico sobre a cidade e, assim, um abraço sincero que a todos inclui.
Há uma frase lida algures no tempo e no espaço, com autor definido mas de nome não lembrado, que guardo como ensinamento e que, no presente, me acompanha tantas vezes na divagação pela cidade e na descoberta do quanto (ainda) urge fazer: “medo de ter medo não tenho. Tenho sim medo de perder a vontade de ter coragem.”
Coragem vai ser preciso. Para não repetir erros passados, para inovar e caminhar juntos no crescimento colectivo que a todos apela, todos convoca: aos gestores da cidade exige-se que saiam do conforto das decisões confinadas à técnica e a lei, à evidência ou cálculo; aos “fazedores da cidade” exige-se que saiam “fora da caixa” das soluções testadas e repetidas; aos actores da cidade exige-se que aceitem o risco e a partilha. A todos exige-se (no bom sentido da palavra) que não deixem de ter vontade de ter coragem. Para que “ser feliz” seja, outra vez, a prioridade!

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