Correio do Minho

Braga, segunda-feira

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Em jeito de balanço…

O espantalho

Voz às Escolas

2014-10-23 às 06h00

Luisa Rodrigues Luisa Rodrigues

Volvido mais de um mês sobre a abertura daquele que poderemos considerar como o mais sui generis arranque de um ano letivo dos últimos tempos, parece-me pertinente fazer um breve balanço sobre os constrangimentos sentidos pelas escolas e o estado de impotência a que chegaram os seus diretores, face à inexistência de respostas para assegurar o ensino de qualidade a que todos os alunos têm direito.
Gostaria de me penitenciar pela precipitação da crónica que escrevi em setembro, mas, pensando bem, fui até demasiado branda, tendo em conta o desenrolar dos acontecimentos.
Tenho conhecimento do estado de rutura atingido por várias escolas ao longo do país e da situação absolutamente calamitosa vivida por muitos alunos e professores, o que só veio corroborar a afirmação de que o barco está prestes a afundar-se e que, apesar das investidas, não há forma de o colocar em águas brandas, para que chegue a bom porto.
Atingimos um tal estado de desnorte que chego a questionar-me sobre o futuro de uma escola que, se ainda existe, temos que agradecê-lo à perseverança e ao inquestionável sentido de missão dos professores que, apesar de tão maltratados, deixam a revolta fora da sala de aula e, na esmagadora maioria das vezes, fora dos limites físicos das escolas onde trabalham, o que não significa que sejam indiferentes à forma como, recorrentemente, é denegrida a sua imagem e lhes são assacadas responsabilidades que não têm.
Ninguém consegue fazer omeletas sem ovos, até porque, mesmo sendo em pó, não deixam de ser ovos.
Ultimamente a escola nem em pó tem acesso aos ovos. Como podem os mais incautos responsabilizá-la pelas condições que oferece?!
É óbvio que a revolta sentida pelos pais é canalizada para o rosto mais próximo do sistema, ou seja, para os diretores das escolas, mesmo que estes sejam o último patamar numa cadeia imensa de hierarquias que tem o privilégio da distância física, o que, todos sabemos, é um grande privilégio.
Ainda gostava que me dissessem como é que se acalmam os ânimos quando temos que explicar as razões que estão subjacentes a determinadas anomalias, que não são questões de pormenor mas grandes questões, que limitam ou inviabilizam o tal sucesso para que está direcionada a escola.
Decorrente dos erros das colocações, professores foram retirados das escolas, turmas ficaram sem titular, alunos foram privados dos apoios a que tinham direito, para suprir os buracos abertos, e os diretores das escolas têm passado grande parte do tempo a explicar as razões que levaram a tamanha instabilidade.
Mas explicar o quê? Que está na moda que os alunos do primeiro ciclo conheçam vários rostos como forma de assegurar uma melhor transição para o ciclo subsequente? Não me tinha ocorrido, mas quem sabe a estratégia estivesse previamente definida, embora encapuçada?!
Não há apoio, mas para que precisam as crianças de apoio quando o número e a homogeneidade dos alunos de cada turma são condição sine que non para que todos sejam bem sucedidos no seu percurso escolar?!
Os recursos humanos para acompanhamento das crianças com Necessidades Educativas Especiais de caráter permanente foram reduzidos, sem critérios que garantissem a dotação das escolas de acordo com o número e as problemáticas dos alunos? Estamos a inflacionar o problema porque é suficiente explicar aos pais que as crianças já não precisam de tanto apoio, apesar das evidências provarem o contrário e, se acresce que impedem o normal desenrolar das aulas, a melhor estratégia será mesmo retirá-las e arranjar uma funcionária que os acompanhe, porque professores...
Bem, mas o número de funcionários também foi reduzido e, com tantas limitações, qualquer dia estamos a sugerir aos pais que com tanto constrangimento o melhor será ter estas crianças em casa.
Inclusão?! Terá, agora, outra leitura?
Justiça seja feita, na questão dos manuais escolares precipitei-me, porque nem são assim tão importantes. Gastam-se, anualmente, verbas avultadas na sua aquisição, mas isso é uma questão de pormenor. E o melhor mesmo é ficar calada porque um destes dias ainda se lembram de os abolir, mesmo que sejam o único recurso a que muitos alunos têm acesso fora da escola, e determinar que os professores, esses funcionários públicos que são bode expiatório para tudo, tenham que inventar outros recursos.
E se, entretanto, a autarquia decidir diminuir, drasticamente, o subsídio que, anualmente, atribui à escola para assegurar o funcionamento dos Centros Escolares?
Então? Não me digam que este mês não foi um “must”?!
E muito mais gostaria de partilhar convosco, mas voltaremos a encontrar-nos daqui a algum tempo.
Até lá, cabeça bem levantada e mãos à obra, porque não tarda nada estão a perguntar-nos o que temos andado a fazer.

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