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Em Portugal: nível de bem-estar piora, desigualdade económica regional melhora

Decisões que marcam

Em Portugal: nível de bem-estar piora,  desigualdade económica regional melhora

Ideias

2021-04-24 às 06h00

António Ferraz António Ferraz

Uma das preocupações da ciência económica prende-se com a determinação de um indicador que retrate o nível de bem-estar de um país, possibilitando, assim, a comparação com outros países. Será que a riqueza produzida ou Produto Interno Bruto (PIB, em volume) é um bom indicador de bem-estar de um país? A resposta é negativa, pois trata-se de um indicador muito simplista que enviesa as conclusões a tirar, mormente na comparação com outros países. Por exemplo, a China é o atual país líder em termos de valor absoluto do PIB estando acima do valor absoluto do PIB americano (EUA). Porém, com uma população muito maior que a dos EUA, o chamado PIB ‘per capita’ (por habitante) chinês é bem inferior ao dos EUA. Desta forma, o indicador PIB “per capita” foi um avanço ao permitir expressar mais fielmente o nível de bem-estar de um país. Assim, o PIB “per capita” é um indicador mais adequado para se efetuar comparações internacionais ao nível da atividade económica e do nível de bem-estar de países com diferentes dimensões territoriais (e económicas).
Um outro indicador do nível de bem-estar de um país muito utilizado por possivelmente ser ainda mais adequado é o designado PIB “per capita” em paridades de poder de compra (em PPC), ou seja, o PIB “per capita” ajustado ou corrigido pelos diferenciais de inflação entre os países. Por exemplo, para dois países com igual valor absoluto do PIB “per capita”, o país que tiver maior inflação terá um poder de compra (aquisição de bens e serviços) menor e vice-versa. De seguida, passa-se a centralizar a nossa atenção em dois pontos principais: (1) a evolução do PIB ‘per capita’ em Portugal; (2) o grau da disparidade económica regional em Portugal. Temos, então:
(1) Um recente documento do Instituto Nacional de Estatística (INE) informa “desfavoravelmente” que o indicador do nível de bem-estar em Portugal, expresso pelo PIB ‘per capita’ após seis anos de sucessivas subidas, regrediu uns inesperados 7,8% em 2020, devido a presente crise pandémica, económica e social. Por sua vez, tendo Portugal registado uma taxa de crescimento do PIB negativa de 7,6% em 2020, pode-se daí concluir que da baixa do PIB “per capita” resultou que a população residente em Portugal subiu e não diminuiu. Quer dizer, em 2020, o PIB ‘per capita’ português foi de 18 200 euros em comparação com o PIB ‘per capita’ em 2019 de 19 780 euros, uma redução do PIB “per capita” de 1 580 euros em 2020 face ao ano anterior!
(2) Outra informação atual do Eurostat aponta “favoravelmente” que Portugal em 2019, foi o país da União Europeia (UE-27) com menos disparidade regional em termos de PIB ‘per capita’ em paridades de poder de compra (em PPC). Na UE-27, no grupo de Portugal encontram-se a Finlândia e Islândia (ambos com um rácio de 1,5 pontos), seguidos pela Suécia e Áustria (ambos com 1,7 pontos) e ainda a Dinamarca, Espanha e Países Baixos (todos com 1,9 pontos). Pelo contrário, os países que apresentam maiores disparidades regionais foram a Roménia (3,6 pontos), a Polónia e Eslováquia (3,3 pontos), a Hungria (3,2 pontos), a Irlanda (3,1 pontos) e a República Checa (3,0 pontos). Note-se que quanto maior for este rácio, maior é a disparidade regional no PIB ‘per capita’ em PPC. Por sua vez, de acordo ainda com o Eurostat, a nível nacional o PIB ‘per capita’ (em PPC) português foi, em 2019, de 79,2% da média da UE-27 (UE-27 = 100%), mais 0,9 pontos percentuais do que o registado em 2018, ocupando agora a vigésima posição na UE-27.
Concluindo, o poder político em Portugal deve, por um lado, prosseguir medidas de política económica visando inverter a evolução negativa do PIB “per capita” registado em 2020, o que passa pela criação de estímulos aos setores público e privado, com particular relevância ao investimento público a fim de se de alcançar um desejável crescimento económico sustentado (dado que a população, espera-se, não irá variar muito a curto prazo). Por outro lado, deve reforçar a tendência positiva a que se tem assistido em termos de melhoria da disparidade regional do PIB “per capita” (em PPC). Na verdade, a melhor situação da disparidade regional do PIB “per capita” (em PPC) em Portugal tem significado uma variação de amplitude (restrita) do indicador de disparidade regional que vai dos 65% da região Norte aos 100% da Área Metropolitana de Lisboa.
Por fim, quer num caso quer no outro, a governação portuguesa deve aproveitar e canalizar os recursos provenientes do Fundo de Recuperação e Resiliência (PRR) da UE-27, para promover o aumento da produção, rendimento e emprego a nível nacional e regional, assim como combater a desertificação do interior do País.

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