Correio do Minho

Braga, sexta-feira

- +

Em tempo de reconciliação, reconciliemo-nos também com a Natureza

O Acampamento do Centenário do CNE

Em tempo de reconciliação, reconciliemo-nos também com a Natureza

Ideias

2021-04-03 às 06h00

Isabel Estrada Carvalhais Isabel Estrada Carvalhais

Em véspera de mais uma Páscoa vivida de modo tão diferente daquele a que nos habituamos, saudosos que estamos da nossa Semana Maior e da alegria das visitas pascais, talvez não pareça muito a propósito escrever sobre Natureza, poluição e plásticos. Mas, e se eu disser que este texto também é sobre reconciliação e esperança? Reconciliação com a Natureza e esperança na capacidade de nos redimirmos de tanto erro já cometido.
A reconciliação a que me refiro nada tem a ver com propaladas ideias de que a pandemia que atravessamos e os confinamentos a que nos tem obrigado, nos colocaram supostamente numa rota de harmonia súbita e forçada com a Natureza. Nada de mais errado e até perigoso, porquanto tais ideias têm frequentemente na sua sustentação ideológica, uma visão nativista-naturalista próxima do eco-fascismo, e sobre a qual não cabe hoje aqui explanar.
A reconciliação a que me refiro é outra e ainda está a ser projetada, embora seja urgentíssima. Trata-se da aposta na transição para uma economia circular que nos desvie em definitivo do império do descartável sobre o qual temos vivido de modo cada vez mais intenso desde o início da primeira era industrial há quase dois séculos.

Pensemos nos plásticos descartáveis e de uso único, que se encontram em todas as praias do mundo: palhinhas, cotonetes, beatas de cigarro, copos de café, sacos plásticos que se usam apenas uma vez, pratos e talheres de plástico, cuvetes de esferovite e películas aderentes que serviram apenas para levar de uma superfície comercial até à nossa casa, meia dúzia de peças de fruta que nem precisariam de estar embaladas... São objetos que passam entre escassos segundos a alguns minutos nas nossas mãos e que logo acabam fazendo parte dos cerca de 80% de detritos de origem terrestre que jazem nas praias, nas zonas costeiras, e, ainda mais grave, no fundo dos mares. De facto, a maior parte do lixo marinho nem chega a ser visível. As massas de lixo que flutuam à superfície das águas e cujas imagens têm corrido mundo através das redes sociais e das televisões, correspondem afinal apenas a 1 % dos detritos de plástico que jazem nos mares.

Em paralelo, sabemos que os oceanos são cruciais à nossa própria vida e que a sua saúde é essencial para assegurar a sua capacidade de absorção de CO2 e de produção de oxigénio. Logo, não é difícil imaginar o que acontecerá se continuarmos a encarrar os oceanos não como fonte de vida (e fonte de parte do nosso sustento, não nos esqueçamos!), mas como o gigantesco quintal dos despojos do nosso consumo.
É com a consciência de que precisamos de ações concretas na organização da nossa sociedade e da nossa economia, que nos façam diminuir este brutal impacto sobre os oceanos, que a União Europeia tem procurado orientar o seu quadro normativo, o qual conta desde junho de 2019 com uma nova Diretiva, sobre os plásticos de uso único (Diretiva (UE) 2019/904 do Parlamento Europeu e do Conselho) a ser transposta para as legislações nacionais até julho deste ano. A pandemia, mais uma vez, obrigou contudo a um desacelerar de algumas medidas que já estavam a ser equacionadas no âmbito da diretiva, como no caso da proibição do uso e disponibilização de louça de plástico de utilização única na restauração em Portugal, prevista iniciar-se em 31 de março deste ano, mas que foi adiada em virtude do impacto negativo da pandemia. De qualquer forma, neste momento, apenas Chipre, Polónia e Bulgária, no conjunto dos 27 Estados-Membros não desenvolveram ainda qualquer ação que se conheça no sentido de preparar as suas economias para a aplicação efetiva desta diretiva tão aguardada.

A Diretiva dos Plásticos, entretanto reforçada na sua mensagem pela mais recente Resolução do Parlamento Europeu sobre o impacto do lixo marinha nas Pescas (P9_TA(2021)0096), e que aprovamos no plenário do passado dia 25 de março, não será certamente uma panaceia para os males já causados. Mas é um importante instrumento na transição para um modelo de economia circular que retire a ribalta do descartável e inaugure novos comportamentos de produção, de distribuição e de consumo, mais sustentáveis e amigos da Natureza.
E assim, aos poucos, vão-se criando instrumentos de reconciliação com a Natureza e vai-se restaurando a esperança. Mas o caminho é muito longo e o tempo para o percorrer cada vez mais escasso. Daí a importância de todos os pequenos gestos, de todas as pequenas mudanças que possamos introduzir no nosso quotidiano. A ninguém se não a nós, cabe o dever da reconciliação com a Natureza, pois não foi ela que se tornou desavinda connosco. Fomos nós que nos fomos afastando do sentido sobre quem realmente somos: peregrinos que passam.
Uma santa Páscoa para todos.?

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.

Bem-vindo ao Correio do Minho
Permita anúncios no nosso website

Parece que está a utilizar um bloqueador de anúncios.
Utilizamos a publicidade para ajudar a financiar o nosso website.

Permitir anúncios na Antena Minho