Correio do Minho

Braga, terça-feira

Em Vicentius...

Desprezar a Identidade, Comprometer o Futuro

Conta o Leitor

2014-07-27 às 06h00

Escritor

José Silva

Naquele tempo, em Vicentius, na Ibéria, corria o ano 13, a. C., quando o Imperador ordenou que se procedesse à eleição do Governador e dos seus dos assessores designados de Questores para a administrar política e civilmente aquela província.
Habitavam a localidade os descendentes dos Iberos e dos Celtas, outros que já tinham nascido em Vicentius, mais aqueles que tinham descido das montanhas e ainda outros que tinham vindo morar para as domus entretanto construídas na zona.

Para a eleição propuseram-se vários candidatos alinhados com os seus homens e mulheres no qual a lealdade de cidadania vicentina era declarada para conquistarem a Assembleia de Vicentius. Todos se achavam com capacidade para administrar a polis, incluindo os montanheses que eram quem chefiava a Assembleia. Todos desejavam representar o povo e para isso apresentaram as suas ideias em diversos programas e andaram pelas domus, insulas e villae a tentar convencer os vicentius que os seus projetos eram os que melhor defendiam e faziam progredir aquele território.

A luta pela implementação das ideias de cada legião proponente pressupôs campanhas e diligências junto dos vicentius com direito a voto. Cada legião, ao seu jeito, com respeito e elevação, tentou influenciar prometendo tempos de prosperidade e expansão para todos os habitantes. No Foro, praça pública, houve debates entre as pessoas de bem para prestarem esclarecimentos sobre as propostas a realizar.

Tudo decorria normalmente, com elevação e civismo, com a proteção da deusa Libertas, deusa da liberdade, quando chegados às vésperas do dia das eleições, eis que Vicentius é surpreendida com frases insultuosas escritas em diversas domus e no próprio templo-igreja a difamar um dos candidatos a Governador. Nunca tal tinha acontecido por aqueles lados da Ibéria, uma campanha e um ataque pessoal tão impiedoso, doentio e sem escrúpulos, em que pela calada da escuridão, gente ordinária, insignificante levou a efeito ataques pessoais reles e destruidores a um ‘Filho de Vicentius’ que queria contribuir para o bem comum da sua urbe.

Mas os ‘morcegos da noite’, não satisfeitos com os insultos das vésperas saíram à rua no próprio dia escolhido pelo Imperador para as eleições e voltaram a espalhar nas paredes das domus ataques soezes e a apelar aos vicentius para que não votassem naquele candidato pois o mesmo era portador dos piores vícios que um homem poderia ter. O ataque e a perseguição atingiram níveis indecorosos. A execração ultrapassou tudo o que seria previsível, imaginável!

O deus Baco não tinha culpa, estava inocente, dado que os impropérios, as blasfémias, as afrontas e ultrajes, foram caligrafados por “fracos guerreiros” que sabiam ao que iam e quais os objetivos a atingir. Por sua vez, a deusa Minerva, da inteligência e sabedoria, não tinha privilegiado tais escribas à nascença, daí eles terem-se prestado a levar a efeito tais considerandos insultuosos.

Em Vicentius, tudo valeu, incluindo ‘golpes baixos e sujos’, como: enviar sinais de fumo e sons de tambor para tra-zer ‘indefesos’, ‘enfermos’ e ‘escravos’ a votarem; de assustarem os cidadãos da urbe com a perda de direitos de cidadania; de lançarem pragas, ofensas e mentiras para denegrirem quem se propunha, tal como dizia o grande filósofo Aristóteles, a criar a amizade entre membros da polis e a fazer da política um serviço à comunidade de Vicentius.

Até a deusa Tácita, deusa da ordem, e, Muta, a deusa do silêncio, expressaram a sua admiração e indignação por tais factos terem acontecido, gritando aos ventos: - ‘Dementis convitia nihil facias’ (A palavras loucas, orelhas moucas).
Ainda, hoje, passado imenso tempo, são bem visíveis esses escabrosos insultos em pedras de alguns dos monumentos da urbe de Vicentius.

E diz a lenda que aquele povo jamais esqueceu o que naqueles dias se passou, pois a partir daquela data e enquanto os montanheses se mantiveram no poder, Vicentius sempre viveu com questiúnculas entre algumas instituições e mesmo entre pessoas, dado que a deusa Pax, deusa da paz e da ordem, deixou de pairar sobre aquela província, preferindo adormecer a lembrar-se do que tinha acontecido.

Os montanheses, alguns deles letrados e bem formados, continuaram à frente dos destinos do território, mas nunca foram reconhecidos pela maioria dos vicentius apesar de se esforçarem por estarem sempre bem presentes no circo e nos teatros que decorriam na província. O vicentius-injuriado, desencantado e desiludido com os enxovalhos indignos escritos, seguiu a sina que lhe estava destinada e viveu a vida que o seu Deus lhe reservou ao lado dos que lhe eram mais queridos.

Consta que os mentores e os escribas que difamaram nas paredes da urbe não tiveram a justiça dos homens, nem da deusa Justitia, mas não fugiram à justiça Divina e que jamais dormiram descansados pois os remorsos acabaram por lhes corroer os ossos e a mente. A deusa da saúde e da cura, de nome Salus, também nada fez para os prevenir e remediar da situação que criaram e abandonou-os ao seu infortúnio.

Nunca se arrependeram, jamais deram a cara e assumiram as abjeções e as infâmias escritas ou mandadas escrever, por isso, um a um, cada um a seu modo, foram alvo de Seth que era a encarnação do espírito do mal desde os tempos egípcios. Nem puderam contar com a ajuda da deusa Februa, deusa da purificação, pois também ela achou indecoroso o comportamento tido para com um dos vicentius.

O que se sabe também é que a deusa Poena, deusa da retaliação, optou e bem, por sossegar seus ímpetos e deixar viver aquele povo em paz e os montanheses envaidecerem-se com o poder. Segundo ela, deve-se seguir a máxima: “Injuriarum remedium est oblívio” (A maior vingança é o desprezo). Tal como a deusa da guerra Neria, esposa do deus Marte, que preferiu sossegar as hostes ofendidas e não entrar em ação.

As deusas Parcas, deusas do destino, por sua vez, optaram por dar tempo ao tempo na esperança que o tempo viesse a descobrir os ‘escribas-autores’ ou que o tempo acabasse por silenciar e esquecer o acontecido.
Acredita-se e diz-se por aquelas bandas, que, num dia de nevoeiro, serão os próprios ‘escribas’, carcomidos na alma e minados pelos remorsos, que acabarão por se confessarem, aparecerem, e pedirem clemência às deusas e deuses.

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