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Emigração - a nossa e a dos outros

O tasco e a tasca

Emigração - a nossa e a dos outros

Ideias

2021-05-07 às 06h00

Margarida Proença Margarida Proença

Repetidamente, por variadas razões, pelos políticos ou pelas questões sociais, vamos sendo interpolados pela emigração; e pelas nossas lusas terras, ditas brandas e inclusivas, vamos dando guarida à estranheza e à rejeição. A crise dos migrantes em Odemira e a exploração a que estão sujeitos, trazida à luz do dia pelo impacto do Covid 19, levantou um coro de protestos: resolvam o problema, mas não “no meu quintal”: de preferência o mais longe possível. Aparentemente, um grupo de cerca de 28 imigrantes, incluindo crianças, todos testados e com resultados negativos ao vírus, terão sido realojados num parque de campismo insolvente e com uma forte dívida ao Estado, em alojamentos não particulares.
Face aos sucessivos obstáculos colocados, a GNR terá assegurado o realojamento em condições de segurança, procedendo ao mesmo em horas tardias, tratando-os quase como se foram criminosos. Tudo isto terá, aparentemente, sido lido como uma “ocupação desproporcional e insensata que nos deixa num estado de terror” por parte de utentes do complexo, assustados com o alojamento dos imigrantes “a poucos metros de distância das suas casas”. Serão criminosos mesmo? Serão leprosos? Será que o vírus ataca apenas imigrantes pobres ?
Toda a história choca: desde o início, o reconhecimento forçado de uma realidade de exploração já antiga, o envolvimento de redes internacionais com a cobertura passiva das empresas empregadoras, a necessidade de mão de obra indiferenciada e de baixo custo na interseção do tráfico humano subjacente.
Mas a reação á flor da pele dos utilizadores privados de um complexo turístico insolvente, exagerada e classista, defendendo o seu património contra ventos, incapazes de solidariedade humana, choca de uma forma especial. É certo que a reação encontra eco noutras realidades, noutras culturas, noutros países - mas certamente muitos dos nossos conterrâneos têm histórias de rejeição e discriminação deste tipo para contar, que sofreram na pele por entre os bidonville dessa Europa fora. Talvez, quem sabe, familiares ou amigos.
Porque na verdade, Portugal é ainda o país europeu com maior peso relativo dos emigrantes. De acordo com informação do Alto Comissariado para as Migrações, cerca de 20% da população portuguesa vive fora do país.
E o fenómeno não é novo; ainda que não haja dados estatísticos consistentes, a emigração faz parte, historicamente, da cultura portuguesa, seja por necessidade económica, por localização geográfica, por espírito de aventura ou pela procura do ouro. A emigração portuguesa poderá ter andado por 280 000 pessoas entre 1500 e 1580; 300 000 entre 1580 e 1640; 120 000 entre 1640 e 1700; e 600 000 entre 1700 e 1760, de acordo com Magalhães Godinho. Em 1655, ainda antes do fluxo migratório rural para o Brasil, Manuel Severim de Faria publicava um livro intitulado “Remédios para a Falta de Gente” onde comentava, ao tempo, o êxodo maciço para Espanha. O erudito argumentava que a “falta de gente” no país resultava das “conquistas” e dos “que se passam a Reinos estrangeiros”, “por não terem, neste Reino, terras que cultivem e donde possam tirar a sua sustentação”. O geógrafo Orlando Ribeiro fala de uma “vocação demográfica” de Portugal.
Desde meados do século XIX até finais da década de 50, o ciclo migratório tinha sido intercontinental. Mas o boom económico na Europa, no pós-II Guerra Mundial, nomeadamente na construção, traduzia-se por uma enorme procura de trabalho; em Portugal, a baixa rendibilidade agrícola, a manutenção de salários baixos e as más condições de vida, e depois a guerra colonial, contribuíram para uma forte emigração ao longo da década de 60.
A saída era autorizada com base em “cartas de chamada”, mas uma maioria crescente optava por ir “a salto”, através de vias clandestinas, sem passaporte, com as ”malas de cartão”, acumulando-se em bairros de lata periféricos das grandes cidades, trabalhando na construção civil, emprego doméstico, portarias urbanas, etc. A emigração clandestina era muito significativa, e por isso os dados estatísticos da nossa emigração traduzem sempre mal uma realidade, mas de qualquer forma, por finais da década de 90, mais de 4,6 milhões de pessoas de origem portuguesa residiam um pouco por todo o mundo. Extraordinário!
O retorno a Portugal mantinha-se no imaginário da maioria dos emigrantes, mas a socialização e a aculturação, embora mantendo um duplo sentido de pertença/identificação, foi-se tornando dominante, naturalmente reforçado pela reconstituição e reagrupamento das famílias e por via geracional.
Mas uma emigração, marcada pelas baixas qualificações, enquanto movimento económico e social, marca de forma profunda o nosso ADN enquanto portugueses.
Até porque o impacto da emigração foi significativo, em diversas dimensões. Portugal poderá ter perdido, ao longo da década de 60, cerca de 1 milhão de pessoas, contribuindo para uma perda na taxa de natalidade e para um envelhecimento progressivo da força de trabalho. Contribuiu também para a alteração do papel da mulher no mercado de trabalho, com repercussões na vida familiar e no ambiente cultural. Tornou possível a melhoria da balança de pagamentos, dados as vultosas remessas de emigrantes; em 2020, foram 3.612,9 milhões de euros, cerca de 1,5% do PIB. Tornando possível acréscimos patrimoniais familiares, e um investimento claro no capital humano.
O fenómeno da imigração é relativamente recente em Portugal, e tal justifica, em parte, alguma estranheza. Mas na verdade, a sua contribuição para a economia portuguesa é positiva e real; e ao aumento do peso relativo de trabalhadores menos qualificados e indiferenciados reflete-se numa quebra da oferta dos mais qualificados face aos menos qualificados, com o resultado previsto de aumento dos salários.

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