Correio do Minho

Braga, quarta-feira

Emigração: Drama ou mais-valia?

O CODIS fala

Ideias

2012-10-26 às 06h00

Margarida Proença

A condenação de cientistas a uma pena de prisão em Itália por não terem corretamente avaliado o perigo de sismo e divulgado previamente medidas de prevenção à população local levanta uma série de questões interessantes que têm estado por estes dias na imprensa um pouco por toda a Europa. Na verdade, ninguém tem dúvidas que a ciência não permite ainda prever com rigor se vai, ou não ocorrer um cataclismo desse tipo; e ainda assim olha-se para a ciência e para a tecnologia como tendo a capacidade de eliminar os riscos que corremos, no fundo quase como antigamente se procuravam a respostas nos oráculos e se programava toda a vida em função do que eles diziam.

Se é verdade que as ciências ditas exatas ainda se confrontam com muitas questões por responder, as ciências sociais levantam dificuldades adicionais. É fácil culpar os autores de previsões incorretas, dizer que foram os economistas, ou os cientistas políticos, ou os financeiros etc., os culpados pela profunda crise em que vivemos; é até atraente na medida em que a responsabilização individual, de cada pessoa ou mesmo de cada organização, fica esquecida. No entanto, o que se passa numa dada fase é o resultado de muitas decisões que foram tomadas no passado; fazemos a história, e transformamos o futuro no processo.

A emigração tem sido sistematicamente um fenómeno mal analisado. As explicações para a emigração são de alguma forma diferentes consoante são formuladas por economistas, sociólogos, cientistas políticos, ou outros. Emigra-se porque se procuram salários mais altos, porque se procuram maximizar as oportunidades de acesso a uma nova formação educativa, a novos conhecimentos e oportunidades de carreira ponderadas por uma lógica de custo/benefício, ou porque existem redes nos potenciais destinos que atraem e servem de suporte, ou ainda porque naturalmente se passou a um mundo muito mais globalizado em que o espaço e a distância perderam o sentido que tinham.

Portugal foi sempre um país de emigração; em 1976, dois autores (Anido e Freire) demonstravam a existência de ciclos, associados a causas permanentes, endógenas na nossa economia. Claro que os ciclos não eram absolutamente iguais, mas duravam em média entre 6 a 8 anos.

Aumentava a emigração, atingia um valor máximo, depois abrandava e diminuía, até que finalmente se entrava de novo num ciclo crescente, porque para além de razões particulares, específicas a cada momento, muitas das causas permaneciam.

Na década de 60, os salários eram baixos e a estrutura industrial estava adequada a um nível muito baixo de formação educacional e profissional; com a exceção de Lisboa, Porto e Setúbal, o peso médio de engenheiros andava pelos 1%, enquanto que apenas cerca de 5,5% dos trabalhadores tinham o curso industrial.

A emigração - ao tempo das “malas de cartão” - contribuiu para diminuir a oferta de trabalho muito abundante e acabou por tornar possível a subida tendencial dos salários; a explosão do sistema educativo foi relativamente lenta, mas principalmente no pós-adesão á União Europeia permitiu sustentar uma lenta alteração da nossa estrutura produtiva, cada vez mais tecnológica, com salários cada vez mais elevados. No entanto, os níveis de produtividade mantinham-se ainda desfasados , inferiores aos atingidos nos países mais ricos da União Europeia.

A taxa de emigração foi baixando, tambem ela lentamente, mas foi principalmente deixando de ter um carater permanente, para se tornar cada vez mais temporária. Beneficiando de espaço europeu cada vez mais aberto,o peso da emigração sazonal ou a prazo aumentou de forma significativa, e a clandestinidade diminuiu. E a questão da emigração passou para “debaixo do tapete”, deixou de se falar nela, deixou de ser analisada e estudada. Não havia, pronto.
Mas havia.

Por meados da década de 2000, ainda antes da crise, já era visivel o seu reforço, digamos que a entrada num novo ciclo, de acordo com dados do Observatório da Emigração. Básicamente para destinos na U.Europeia, a par da emergência de Angola, ainda principalmente para segmentos de mercados de níveis qualificacionais baixos ou intermédios Em 2000, Portugal já era o 3º país da União Europeia com a taxa de emigração mais elevada entre licenciados, de acordo com dados do Atlas das Migrações Internacionais, o que indiciava uma inadequada alteração da estrutura produtiva.

A crise veio reforçar um movimento já crescente, a par de uma dualidade de perfis qualificacionais e mantendo o caracter temporário. De qualquer forma, num mundo cada vez mais globalizado, onde se chega de avião mais rapidamente a Londres do que de comboio do norte do país a Lisboa, numa Europa que se quer cada vez mais integrada e num espaço de livre circulação, é quase inevitável o aumento da emigração em busca de melhores oportunidades, carreiras, conhecimentos, salários, redes de contactos. A questão é aproveitar a oportunidade para mudar o futuro.

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