Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Emília

Uma ideia de humano sem história e sem pensamento?

Conta o Leitor

2012-08-31 às 06h00

Escritor

Nuno Braumann


Emília com os cabelos despenteados e a testa suada, sentava-se com enorme esforço para se acomodar às convencionais cadeiras para crescidos quando, o seu pai comentou:
- Nunca te vi a correr tão rápido, parecias o teu avô a andar de moto

As palavras que inicialmente foram proferidas de maneira jocosa finalizaram-lhe com um amargo sabor, pois tinha mais viva as façanhas do sogro em cima da moto que o seu falecimento em cima dela. Emília não tendo conhecido o seu avô e as causas do seu desaparecimento, indiferente ao comentário repôs a típica jocosidade do pai, questionando-o sobre o documentário que ontem haviam visto:
- Ontem dizia que se fosse muito rápido numa direcção via o futuro e ao voltar quem ficava - Emília arregala os olhos e nota com surpreendente espanto que o seu pai tem um pequeno cabelo branco na fronte que até então nunca tinha visto e, finaliza com serena voz, como quem depara com algo que, embora, factualmente tenha acontecido ainda não a consegue compreender - fica mais velho…
-Ah! Então era por isso que corrias como uma gazela.

Um leve rubor invadiu o seu rosto mas com igual altivez respondeu
-Oh! Não - e prosseguiu a conversa no seu animado e curioso tom - mas é que dizia também que algumas das estrelas que estão no céu não existem, embora elas estejam a brilhar, mas a avó à noite aponta para o céu e diz que o avô é uma das estrelas, mas como elas são tantas eu não sei qual delas é o avô e agora queria saber se o avô é uma das que existe ou não, mas… - Sentindo o espanto do pai interrompeu o seu discurso, antes de responder à pequena Emília, duas ideias passaram-lhe pela cabeça, tão rápido que se sentiu mais jovem com a rapidez da ocorrência de tais pensamentos. Primeiramente deduziu que a sua ainda pequena filha transitou da idade dos Porquês para a idade dos Mas, seguidamente sentiu que a vida e as profundas questões ligadas a ela e ao seu universo, brotam sem nunca lhe termos pedido ou perguntado nada, e por mais teorias que hajam para a sua compreensão, nunca as iremos conseguir explicar na devida altura e, assim sendo modestamente respondeu:
-Sabes minha filha, na vida e no mundo, nem tudo o que parece…

- ZÉÉÉ
Na mesa ao lado, José Fagundes ouvia o seu amigo Adalberto Miranda a chamá-lo impetuosamente. Vindo da praça e dirigindo-se para a esplanada onde José Fagundes se encontrava, ao aproximar-se, e desta vez com voz mais calma mas em tom ainda alto, cumprimenta-o de modo efusivo, dizendo-lhe que tinha arranjado o bilhete para a partida de futebol que iria decorrer naquela noite e prontamente perguntou-lhe se não queria vir também. Com uma modorrenta voz,Fagundes, respondeu-lhe que veria o espectáculo ali mesmo no café.
Adalberto Miranda tendo sentido o incómodo que o convite suscitou, despediu-se do seu amigo com a desculpa que ainda tinha que ir às finanças.

José Fagundes não assistia há mais de três anos a uma partida no estádio, sendo um fervoroso adepto da equipa local, as excessivas ansiedades provocadas pelo espetáculo em si, enfraqueceram-lhe demasiadamente o coração.

Exactamente há três anos o seu clube tinha chegado a uma final que nunca tinha ganho, o resultado da partida só o soube depois de acordar no hospital e de ter sido fortemente recomendado pelo médico a nunca mais assistir a uma partida no estádio ou em casa.
Três anos depois o seu clube encontrava-se na mesma final e mais uma vez a jogar em casa.
A cidade era relativamente pequena e por isso mesmo todos os golos festejados vindo do estádio eram facilmente ouvidos por todos os habitantes.

José Fagundes tinha descoberto o seu próprio remédio, sabendo que as transmissões televisivas tinham sempre um breve atraso, saberia sempre de antemão se tinha sido golo ou não e, assim sendo as doses de ansiedade eram reduzidas ao mínimo essencial para que o seu coração suportasse a apoteose do espetáculo.

José Fagundes iria uma vez mais assistir à final mas desta vez sozinho no café, pois era dali que a distância entre a atrasada transmissão e a rápida propagação do som permitia manter o equilíbrio emocional e físico do debilitado mas fervoroso adepto.

Anjos da Maria desligara o som da televisão para evitar que a excessiva verborreia dos relatadores não provocassem estímulos no velho Fagundes.

Anjos da Maria alheia à partida ia ela também combatendo a sua ansiedade, embora esta não fosse tão grave (pelo menos para o coração), lendo numa revista ao balcão do café o que iria decorrer nas várias novelas nas ulteriores semanas.

Estando José Fagundes e a Televisão a sós, somente um deles ou talvez ambos, assistiram a um insólito acontecimento, numa complicada jogada a bola entrou nas redes da equipa adversária, mas o silêncio reinou, nem um festejo tinha sido ouvido ou propagado, embora ele visse toda a gente em grandes festejos pelo ecrã. Naquele insólito momento a transmissão tinha sido mais rápida que o próprio acontecimento, Fagundes de antemão através do que a televisão lhe transmitia via o que iria acontecer.

Mas contrariamente às ideias da Emília, ele permaneceu no mesmo local e embora visse o futuro, sentia-se, precisamente neste momento muito mais velho, como nunca tinha sentido antes. A redutora visão do futuro que a televisão lhe transmitiu não passava de um programado espectáculo de concepção duelística, em que um necessariamente tem de perder para que outro possa ganhar.

Ficou assim a matutar que se calhar já tinha morrido e ainda ninguém se tinha apercebido e se assim fosse, nem tudo o que parece…

-ZÉÉÉ, ZÉÉÉ, OH ZÉÉÉ - Gritava Adalberto Miranda que vinha festejar com o amigo - NUNCA A CIDADE GRITOU TÃO ALTO,VENCEMOS NÃO ESTÁS CONTENTE? ZÉÉ…ESTÁS A OUVIR?
José Fagundes pressentindo o amigo, moveu ligeiramente o olhar na sua direcção e apercebeu-se que a sua otite tinha piorado bastante.

Agora calmamente compreendia o que se tinha sucedido, apesar de se encontrar praticamente surdo, estava bastante consciente do que via - Emília a correr em diversas direcções rumo a infinitos futuros, sorrindo sentiu-se realmente feliz como não se sentia há muito tempo.

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