Correio do Minho

Braga, quarta-feira

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Emoções e racionalidade

Mitos na doença mental

Ideias

2011-12-16 às 06h00

Margarida Proença Margarida Proença

As razões que determinam o comportamento dos indivíduos, e a forma como fazem escolhas, sempre interessou os cientistas e os filósofos, nas diversas áreas do conhecimento. Desde finais do século XIX, o desenvolvimento da ciência económica baseou-se na consideração de que o comportamento dos indivíduos é racional; quer isto dizer que as pessoas procuram sempre maximizar o seu próprio interesse individual, embora para isso estejam dependentes da informação de que dispõem no momento.

Por isso as decisões de consumir hoje, ou poupar para poder consumir mais amanhã são tomadas de forma diferente, e também por isso tendemos sempre a avaliar de forma diferente os bens privados dos bens públicos. Queremos que sejam construídas a autoestradas, e os hospitais e as escolas de forma a que tenhamos acesso mais rápido, obtendo portanto vantagens individuais, mas já agora que não tenhamos de pagar nada.

O desenvolvimento da tecnologia médica tem permitido a interface da medicina, com a psicologia e a economia, levantando questões e como seria de esperar, discussões e desafios. É hoje possível “ler” através de TACs e ressonâncias magnéticas a forma como o cérebro responde a estímulos e como funcionamos quando temos de tomar decisões.

Claro que tudo isto está ainda muito no princípio, que se levantam inúmeras questões até porque ainda se estão a testar processos de decisão e escolas muito simples, mas ainda assim é interessante. Alguns estudos recentes descritos num artigo que acaba de ser publicado por Feher e Rangel, apontam por exemplo no sentido de que os indivíduos que actuam de forma mais altruísta activam zonas diferentes do córtex. As diferenças individuais no altruísmo, ou num sentido mais geral, compreender pior as necessidades dos outros, pode ser devido a limitações cognitivas.

Experiências com crianças para saber até que ponto adiavam o consumo de doces mostraram que dependia de o doce estar ou não presente e visível; se não estivesse, não havia problema algum com o adiamento. Alguns testes neurobiológicos parecem confirmar que somos mais vulneráveis a factores mais emocionais , do tipo “prove já esta iguaria” do que a outros menos emocionais , do tipo “tenha em conta a sua saúde no futuro”. E para complicar, toma-mos compromissos e estabelecemos objectivos que depois nem sempre cumprimos...

A utilidade depende de toda uma multiplicidade de escolhas, daquelas que fizemos no passado, do funcionamento enfim de uma maquina muito complicada onde as normas sociais e as capacidades cognitivas se interelacionam curiosamente com a decisão de adiar escolhas das quais resultaria uma gratificação imediata, conforme alguns estudos ao nível do cortex prefrontal dorso-lateral parecem apontar.

Uma menor regulação da actividade ou do funcionamento do cortex esse nível pode ainda explicar porque é alguns indivíduos preferem os ganhos obtidos num dado momento porque enganam um parceiro, mesmo que saibam que tal diminuirá os ganhos a longo prazo de manterem uma relação de confiança.

É Natal, e vai começar um ano novo. É tempo de emoções e compromissos. Os ventos que sopram não são bons. Mas sabemos hoje mais, e saberemos tomar decisões de forma mais, apesar de tudo, racional.
Que 2012 seja melhor do que o antevisto - para todos.

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