Correio do Minho

Braga, terça-feira

Empresários de primeira e de segunda?

O que nos distingue

Ideias

2018-06-05 às 06h00

Jorge Cruz

Aquele que não prevê as coisas longínquas expõe-se a desgraças próximas.
(Confúcio)

A ausência de planeamento dos responsáveis da Câmara Municipal de Braga ficou bem patente, uma vez mais, na questão da localização da Feira Semanal. Desta feita, contudo, o problema assume contornos assaz perigosos, agravados pelo facto de o presidente da autarquia ter assumido uma conduta francamente incorrecta com os pequenos comerciantes que desenvolvem o seu labor naquele evento semanal.
Mas vamos a factos: há cerca de um ano, o executivo camarário lançou aquela que, até ao momento, pode ser considerada a obra do regime - e a pomposa designação não tem apenas a ver com a dimensão e/ou volume da empreitada. De facto, e não obstante o extenso rol de promessas com que a coligação de direita brindou os eleitores bracarenses, a realidade demonstra-nos que a única obra de vulto, aquela que enche de orgulho quer os seus promotores quer a população de Braga e da região Norte, é a requalificação do antigo Parque de Exposições.

Seria estultícia da minha parte desvalorizar a visão de Ricardo Rio quando decidiu avançar com o projecto, que tem tanto de ambicioso e ousado como de premente e de relevante. Mas mesmo correndo o risco de me tornar repetitivo, quero deixar perfeitamente claro que a obra só pecou por tardia. Há muito que Braga carecia de uma infraestrutura com as características daquela que agora renasceu na antiga quinta do Sardoal, precisamente no terreno onde há algumas décadas um outro autarca visionário construiu aquelas que, à época, eram instalações inovadoras e modelares.
O problema hoje, sendo embora de instalações, nada tem a ver com ausência de condições que condicionem o exercício das funções que estatutariamente estão cometidas à empresa municipal que as gere - a InvestBraga. Pelo contrário, Carlos Oliveira e a sua equipa dispõem agora das mais modernas e funcionais infraestruturas para o desenvolvimento da sua missão, uma missão que, não tenho dúvidas em o afirmar, é absolutamente fulcral não apenas para a economia regional, o que já não seria pouco, mas também para o desenvolvimento sócio-cultural da vasta região que tem Braga como polo aglutinador.

Desse ponto de vista, até posso perceber a inconveniência que seria para a Invest-Braga ter de albergar semanalmente a Feira Semanal. Entendo a argumentação opositora ao seu regresso porque tenho perfeita consciência dos condicionalismos que isso pode causar nas actividades estatutárias da empresa municipal. Sei que pode por em causa, afastando mesmo, um ou outro evento de cariz nacional e/ou internacional. Compreendo e sou sensível a tudo isso. O que me parece incompreensível e absolutamente inaceitável, é verificar que a Câmara de Braga só agora tenha acordado para o problema.
De facto, chegados ao momento da verdade, somos todos surpreendidos com a constatação de que a autarquia não se debruçou atempadamente sobre o assunto, ou seja, não equacionou o problema em busca de uma solução a contento de todos os interessados. E isto, sim, é de uma gravidade tal que não merece desculpa, tanto mais que estamos a falar de um executivo que enche a boca com um discurso em defesa dos empresários, do empreendedorismo, enfim, da economia.

Mas a questão não se esgota neste alheamento, nesta incapacidade de encontrar soluções para os problemas concretos, enfim, nesta inaptidão para evitar situações conflituosas.
E não se esgota porque Ricardo Rio, além de não ter manifestado qualquer preocupação em encontrar uma solução alternativa para instalar a Feira Semanal, o que seria o mais expectável de um autarca responsável, ainda prometeu aos feirantes o regresso à antiga localização da Feira. Ou seja, a questão já não se situa apenas no campo da irresponsabilidade, estende-se ainda a questões comportamentais de sociabilidade, com a verdade e a sua ausência a terem papel preponderante.

Ricardo Rio mostrou as fragilidades de um discurso político dominado pelo crescimento económico, pela criação de condições para os empresários e para as empresas, mas que afinal só cuida dos "grandes", daqueles que mais facilmente podem mediatizar a presença do presidente da câmara nos actos em que participa, esquecendo ou votando ao ostracismo os mais frágeis, aqueles que pouca voz têm.
Esta atitude de Rio pode até parecer uma questão de somenos importância mas, de facto, não é. E não é porque revela um carácter, uma forma de estar na política, inadmissível nos dias de hoje. Sim, porque o expectável seria um autarca preocupado com a totalidade e não apenas com uma parte; seria os autarcas executarem com rigor a missão de que estão incumbidos, o que passa por planear e buscar as soluções mais adequadas a cada situação; seria, finalmente, a rejeição definitiva de falsas promessas, a repulsa ao incumprimento, enfim, a assumpção de um discurso de verdade.

Não é este, infelizmente, o panorama que nos é oferecido pela actual gestão municipal. Quem se der ao trabalho de conferir promessas com realizações concluirá que as primeiras são em número infinitamente superior relativamente às segundas, num défice de correspondência que deixa muito a desejar. E a tarefa de fiscalização até estará bastante simplificada pelo facto de a coligação de direita sempre ter apostado forte na mediatização das suas comunicações.

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