Correio do Minho

Braga, terça-feira

- +

Encomendação das almas

Regionalização e representação territorial

Encomendação das almas

Voz aos Escritores

2019-04-12 às 06h00

Fernanda Santos Fernanda Santos

Uma tradição centenária do período de Quaresma que leva as pessoas à rua, à noite, para fazerem orações pelos que morreram.
A Encomendação das Almas é um dos ritos quaresmais de maior preponderância nas comunidades cristãs, em especial nos meios rurais.
Assim, terminado o Entrudo, terminam as tréguas do pecado, e entra-se num período de recolhimento reflexivo que decorre até à Páscoa.
Esta tradição exorta os vivos para que se acautelem com os erros, sob pena de “caírem no inferno", mas visa especialmente as almas daqueles que não puderam na agonia preparar-se para o momento da passagem, isto é, afogados, assassinados e acidentados.

A encomendação das almas funciona assim como uma espécie de carta de recomendação que os cristãos conferem às almas em pena para que alcancem lugar confortável no além.
Por norma, segundo o que os mais velhos dizem, a tradição do "encomendar das almas" acontece nas sete noites de sexta-feira antes da Páscoa, e manifesta-se em cortejos lúgubres que representam cenários medievais, com homens encapotados, mulheres de xailes negros pela cabeça, lanternas de azeite nas mãos, e onde se entoam cânticos tristes e angustiosos em louvor e sufrágio dos mortos.

Na última quarta-feira, antes da Páscoa e depois de amassarem os folares, enquanto os mesmos ficavam a levedar, saíam à meia-noite do forno comunitário (que ainda existe, mas já não coze pão) e lá iam silenciosamente posicionar-se na primeira encruzilhada das demais onde fariam paragens obrigatórias e cantavam alto e rezavam, em silêncio. Ou seja, por cada quadra cantada, rezava-se um Pai-Nosso e uma Ave-Maria. Geralmente, cantavam-se três quadras em cada encruzilhada das ruas. As pessoas que acordavam, acendiam e voltavam a apagar uma luz para comunicar que também iriam rezar, mas não abriam portas nem janelas, porque a par da devoção, andava a superstição de que alguma alma penada podia entrar em casa e assombrar alguém.
Era uma piedosa tradição que se perdia na bruma dos tempos. Julgo não estar enganada ao julgá-la de raiz popular pois não tenho conhecimento de que tivesse sido algum poeta de renome que escrevesse as estrofes que se cantavam e das quais eu vou descrever algumas que ainda recordo na íntegra, pois escutei-as, vezes sem conta, da voz inconfundível, cristalina e bem timbrada da senhora minha mãe que, por sinal, tinha o nome de Deolinda:

Acordai, irmãos meus,
Desse sono em que estais,
As almas se estão queixando
Que delas vos não lembrais.

Acordai ó irmãos meus
Desse sono tão profundo
É bom que nós nos lembremos
Das Almas do outro mundo

Ó quantas Almas clamam
E dão gritos no inferno
Pelas nulas Confissões
Que neste mundo fizeram
Irmãos meus, cuidai na morte
E no dia de Juízo
O inferno é mui feio
Deus nos leve ao paraíso

Acordai ó irmãos meus
Não vos fiqueis a dormir
Que as almas do outro mundo
Orações, ‘stão a pedir

Isto é só uma pequena amostra do vasto reportório da senhora minha mãe que nos últimos anos de vida, já com os sintomas da terrível doença que a vitimou, ainda cantarolava estes e outros versos.
Fizesse frio, chuva, vento ou neve, nada a demovia de cumprir o ritual, sobretudo porque acreditava piamente que, encomendando as Almas as salvava, mesmo no silêncio da sua casa.
Foi com alegria, misturada com alguma nostalgia, que tomei conhecimento de que a última vez que se encomendaram as Almas na nossa aldeia foi precisamente na quaresma do ano passado.

Relataram-me duas das envolvidas na organização deste ritual que a aldeia se manteve em silêncio profundo. Adivinhava-se um momento de reflexão antes de adormecerem.
Sendo assim, acredito piamente que quem encomendou tantas almas escute em paz os que agora tomaram o seu lugar neste ritual, pois o verdadeiro “purgatório” das almas é o coração esquecido dos vivos.
E, ironia do destino, é que nas aldeias do interior até os próprios vivos são esquecidos, nomeadamente por quem nos governa, como podemos inferir no nosso poema “Alma”:

Do fundo do labirinto te evadiste
eufórica nesse teu altivo altar,
conselhos valiosos esqueceste,
ignorando que eram de cera
as asas que te elevavam
nesse passageiro voar.
E agora, criatura, onde pensas navegar
se as ondas são furtivas e as águas inganháveis?
Deverias conhecer os impostores
os oportunistas
os hipócritas
os covardes
os sacanas que nos tramam
quando menos esperamos […].

Parafraseando Miguel Esteves Cardoso, cada vez há menos comboios e menos correios, sobretudo no interior. A combinação comboios e correios é um sinal de civilização. Em Portugal, essa combinação está em descalabro.
Como se pode acreditar em quem nos governa, se a Constituição Portuguesa não é respeitada e as desigualdades e assimetrias são cada vez mais acentuadas?
Como filha de uma terra do interior deste país, com um vasto e rico património cultural, encomendo, em jeito de conclusão, a alma de todas as almas que, não sendo cegas, não veem para além do horizonte:

Acorda, alma, acorda
Dessa tua total cegueira
Olha que hás de pagar na terra
Os juros de tanta asneira!

Fernanda Santos, Encomendação

Deixa o teu comentário

Últimas Voz aos Escritores

08 Novembro 2019

Os olhos, convém abri-los

01 Novembro 2019

Dia de todos os santos

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.