Correio do Minho

Braga, quarta-feira

'Encontro inesperado à distância de uma lenda', por Ana Silva Godinho

Um convite da Comissão Europeia para quem gosta de línguas

Conta o Leitor

2012-07-22 às 06h00

Escritor

O verão minhoto reencarnou na pele de um deus grego, posando esculturalmente com a indumentária fantasiosa de um véu de nuvens para encobrir a sua timidez íntima, mas logo se agigantou como um arauto tórrido a espalhar brasumes em tom de convite para uma fuga de fim-de-semana até aos arrabaldes serranos. Essa intimação foi aceite por Anita e Ricardo, um casal de jovens, enamorados pela aventura no seio da mãe-natureza, cujo secretismo apologista do romantismo na écloga serrana é o refúgio perfeito, fora da cidade conspurcada por um aleijão multicultural veraneante.

O sábado veio célere e apartou com eles rumo à Serra do Nó, situada entre Ponte de Lima e Viana do Castelo. O roteiro paisagístico foi passando em películas rápidas ou moderadas pelo ecrã da vidraça do carro, onde ficou impresso o verdejar-esmeralda da flora, o toque pétreo, austero e soturno das rochas, incluídas no perímetro circunscrito ao olhar.

A tarde, caída bisonha, marcou a sua chegada ao destino, perto do trilho, que ledamente se deixou desvendar pelos seus passos, comentários, expressões, risos, flashes, beijos e árias da natura que vão quebrando o silêncio monacal deste templo serrano. Após uma longa caminhada, alcançaram um topo com uma vista privilegiada de éden celestial, mas em plena terra. Aí quedaram numa idolatria mútua pelo esplendor que os fitava e pelo sentimento que os unia.

Como “Cronos” não parou a ampulheta que controla a passagem das horas neste resto de paraíso, quando se aperceberam, a noite já ia reclamando o seu reino. No caminho de regresso, depararam-se com um declive traiçoeiro encoberto por plantas selváticas e feras onde, a certa altura, Anita escorregou virando a nascitura metamorfose de uma atriz desaparecida em cena, decantada aos quatro cantos desta serra pelo chamariz angustiado de Ricardo.

Acordou no fusco-fusco da lua, padecendo de dores, e com o medo a pulsar da sua fragilidade gritou por Ricardo que, todavia, não se ouvia. Foi à mochila, retirou uma lanterna, e movimentou o foco bruxuleante que lhe despia o interior de uma gruta. Nesse interstício perscrutou o som de passos e outro ponto de luz oriundo das profundezas, na sua direção.

- Quem está aí? És tu Ricardo? Seja quem for, ajude-me, por favor? - Suplicou.
De repente, o seu ínfimo foco embateu num homem fora de época, forte e intimidador.
- Vinde comigo, bela princesa! - Pedinchou. Embora desconfiada, acedeu a essa ajuda, crente que do outro lado esta-ria a sua salvação. Os passos pesados desse figurante grotesco iam acendendo os archotes que alumiaram a garganta abismal da gruta até às entranhas de um portentoso castelo.
- Não compreendo… onde estou? - Exclamou confusa.
- Vinde, não temais! Esta é a minha casa - Disse aquando um subtil empurrão para o interior do covil.
- Agora, ide e tomai um banho, que eu vos espero para ceardes comigo. E no fim, prometo que vos deixarei ir embora! - Acrescentou.

Anita percorreu um longo corredor até à entrada de um salão adornado com uma banheira fúlvida, a contrastar com o rubi aveludado e o olor açucarado das pétalas de rosa que boiavam na água tépida. Entrementes, Anita já se banhava em pensamentos que lhe tentavam explicar que este episódio meramente onírico, daí a nada a devolveria ao mundo real.

Dirigiu-se de volta ao salão onde o tal homem, de novo a abordou:
- Como estais bela! - Exultou.
- Quem é você? - Perguntou.
- Sou o rei, Abakir! E ao contrário das historietas que rorejam sobre mim, fiquei refém de uma tantálica solidão, mas vós muito agradais ao meu velho coração, que vos vê como a encarnação daquela que renegou a minha paixão, como tal se aceitardes este anel e fores minha dar-vos-ei todos os meus tesoiros! - Assim propôs.

- Lamento, mas o meu coração já tem dono e está lá fora à minha espera. - Emitiu defensiva.
- Porque me magoais, acaso não vos tratei bem? - Inquiriu ultrajado.
- Agradeço a sua hospitalidade, contudo eu não lhe pertenço a si, nem a este lugar!
- Aí, é que vós vos enganais! Estais presa num limbo espiritual, entre a vida e a morte, a condição primordial para permanecerdes neste castelo. Ficareis comigo para sempre, assim que o vosso coração for instrumentista do último batimento! - Reafirmou a sua pretensa.

E prostrada de joelhos, Anita fechou os olhos numa tristura adstringida ao coração, soltando a sua rejeição, para com o tenebroso e açorado rei que satirizava a sua dor.

- Amar-te-ei para sempre Ricardo! - Assim professou. Sentiu, então, uns abanões cúmplices dessa voz.
- Acorda! Pregaste-me um valente susto… nunca mais largues a minha mão! - Advertiu-a depondo um beijo em seus lábios.

Já em casa, Anita ouviu um brado metalizado sobre o soalho e eis que viu o tal anel indesejado, mais um lembrete que por artes mágicas e sortilégios se veio refletir no eco da sua memória: “Tendes até à meia-noite para o colocardes em vosso dedo, caso contrário reclamarei o sangue do meu rival!”

Encolheu-se numa réstia de stress pós-traumático, porém às doze badaladas, o anel esfumou-se diante dos seus olhos e fustigada por um presságio asfixiante foi procurar Ricardo. Entrou de rompante na sala e viu-o no sofá dormindo no mais puro engano, pois ao tentar acordá-lo, ele não deu sinal de si. Então do seu mirante trágico eclodiram lágrimas, goteiras de pequenos cristais, jorrando como granizo inopinado em dias de estio. A necropsia revelou que o seu amor perecera de causas naturais e Anita refutou-a contando a sua versão lendária ao mundo.
Mas a veracidade defendida por esta alma desacreditada, trouxe-lhe o amargurante patíbulo dos seres despojados de razão. Mais tarde, no anuário da morte de Ricardo, no quarto da ala psiquiátrica, ao soar dos doze toques, o anel reapareceu, e ao pô-lo no dedo para findar com o vil tormento sumiu sem explicação.

E ainda hoje, pela Serra do Nó, se diz que um rei mouro vagueia com a sua rainha triste e fantasmagórica, cheia de prantos que se soltam ao eclodir a meia-noite e, em vez de riqueza e tesoiros, espalham infelicidade, azar e uma vida encurtada a todos os mortais que com eles se cruzam num encontro inesperado à distância de uma lenda.

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