Correio do Minho

Braga, quinta-feira

'Encontro', por Ângelo Russel

O Estado da União

Conta o Leitor

2010-07-03 às 06h00

Escritor

Esta é a história de duas pessoas muito especiais, José e Maria.
Eles não se conhecem, embora vivam na mesma cidade. Pouco têm em comum, senão o facto de estarem a sofrer terrivelmente, por diferentes motivos, durante os finais do gélido mês de Dezembro. Ao contrário do que se poderia esperar, o espírito típico da festividade não os conforta. Isolados, não há qualquer motivo para o cintilar da esperança.

Porém, como “é em nós que é tudo”, a magia do encontro, desses encontros inesperados da vida, seria mesmo capaz de operar um milagre, fosse por intermédio de forças superiores (no entender dos mais crentes) ou através do inexplicável fortuito do acaso (conforme justificarão os que negam o metafísico).

Bastaria um insignificante detalhe, um improvável engano, um par de palavras trocadas em breve momentos, para que tudo mudasse completamente, envolvendo-os num revigorado ânimo e desejo de viver.

***

José não é ninguém, senão mais um dos afectados pela recente crise económica, cujos tentáculos abraçam o mundo, virando-o ao avesso por conta da insanidade dos mercados. Religioso, como a sua desfavorecida condição o exige na expectativa de dias me-lhores, nutre um grande apreço pela Sagrada Família, especialmente pelo seu homónimo, figura que o alenta e o conforta na ausência de um pai terreno.

O humilde apartamento, partilhado com outros companheiros que haviam buscado trabalho na cidade grande, está vazio. O êxo-do das festas os havia levado às suas terras de origem, com excepção de José, que, por vergonha e necessidade, optou por ficar. Faltou-lhe a coragem para comunicar à família que havia perdido o emprego e teceu antes uma desculpa de uma oferta irrecusável para trabalhar na última semana do ano. Por um momento chegou a temer que a intuição de mãe lhe desmascarasse a farsa na voz. Afinal de contas, o Natal era um momento sagrado para José, acostumado a passar meses a fio longe de casa e dos seus. Contudo, o orgulho pelo filho que de longe ajudava a família cegou os instintos maternais entre os lamentos de saudades.

Foi o dia mais triste da odisseia de José, por se ver forçado a mentir.
Deixara tudo para trás quando completou os estudos secundários. Amadurecera prematuramente pelas circunstâncias. Agora, homem feito, prosseguia em busca de um melhor lugar ao sol, embora não conseguisse se ver livre da rotina de trabalhos precários, mesmo depois de ter ingressado, com muitos sacrifícios e dificuldades, numa escola profissional nocturna, galgando os mistérios da electrónica moderna. Tinha, porém, a consciência de que até os mais refinados talentos e saberes já não são o garante de ninguém. Na espiral louca dos tempos, numa regressão sem precedentes, nada parece ter valor, nem o conhecimento, nem o humano.

Entre a parca mobília da sala, sobressai uma pequenina árvore de natal. Aos seus pés, uma escultura barata, de cores esmaecidas e cantos lanhados: o menino Jesus na manjedoura, cercado pelos seus pais. Inclinada no berço improvisado de palha, a criança divina parece espreitar em direcção ao sofá de molas soltas e tecido roto, onde, enrolado num cobertor, José tenta ignorar o frio, enquanto navega nervosamente por entre os canais da televisão. A fraca recepção da antena inunda o cubículo de um irritante som fanhoso. A monotonia dos programas matutinos não entedia ao rapaz, pois o seu pensamento está muito longe. É manhã de véspera de Natal e ele ainda não pode crer que à noite estará privado do caloroso abraço da sua velha mãe, acto indefinidamente adiado até que os grandiosos decisores mundanos resolvessem enxotar a crise a partir dos seus faustosos e herméticos gabinetes.

O apartamento é exíguo, o que causa em José, tão emocionalmente fragilizado, uma sensação de claustrofobia. Na sua ansiedade e angústia, ele enxerga as paredes como uma prensa, pronta a esmagá-lo. Escorropichando o último gole da chávena de leite quente, o seu pequeno-almoço, decide que o ar fresco poderia ser o seu melhor remédio.

Caminhar pelas ruas enfeitadas do centro, ouvir as canções populares típicas da quadra nos altifalantes das ruas, invejar os que fazem compras de última hora para a noite de festa.

***
A poucos quarteirões dali, numa zona mais nobre, estava Maria. Com a fronte encostada nas vidraças, contempla o movimento dos transeuntes apressados a carregar sacolas e embrulhos. No chão da sala, por entre gritinhos de contentamento, o seu bebé diverte-se alegremente, remexendo nos inúmeros brinquedos espalhados, incapaz de compreender o que se passa com a mãe.

Perto de conquistar uma precoce cátedra universitária, a Maria nada faltava, senão o essencial. Divorciada e sem familiares próximos, tinha a criança como única companhia e suporte emocional. Para ela, o filho fora tão desejado quanto a chegada do Messias para a humanidade. A criança é o alento e o fio que a prende à vida, que, apesar de repleta de tantos sucessos profissionais, lhe é tormentosamente solitária e desprovida de sentido. Nenhuma fé a escora: no seu entender, qualquer juízo transcendental seria absolutamente incompatível com a reputação científica que alcançara.

Maria tem o rosto inchado e vermelho do choro. Era o primeiro Natal que passaria a sós com a criança. Os poucos amigos com quem poderia contar haviam viajado ou estavam ocupados com a preparação dos festejos, que calhavam bem ao meio da semana.

O bebé prosseguia com a sua comunicação incompreensível, entusiasmado pelos desenhos animados da televisão até que o som da chegada de mensagem do telemóvel fez duo com os berros infantis. Desperta do torpor, Maria procura o aparelho na sua bolsa, curiosa pelo improvável facto de alguém se ter lembrado:

Desejo-lhe um Feliz Natal e um 2009 em que falemos mais do que em 2008,
porque o amor dos amigos é o nosso maior tesouro!

O número emissor não constava da sua lista. Como a agenda continha todos os contactos importantes, restava somente a triste possibilidade de um engano. O evento despertou-lhe uma comiseração insuportável por si própria, agastada pela sua solitária dor pessoal.

Diante do frio que vergasta do lado de fora e do aconchego luxuriante do ambiente, nada poderia fazer prever que Maria decidisse sair. Contudo, recompôs-se e tratou de vestir adequadamente a si e à criança, decidida a encontrar a mais fiel e constante companhia que tinha nos últimos tempos: o simpático velhote do quiosque onde costumava comprar os jornais.

***

José vagueou sem rumo até pairar diante da imponente catedral da cidade.
Apesar de magoado pelas suas preces não terem sido ouvidas, resolve entrar e prostrar-se humildemente nas primeiras fileiras de bancos, quase aos pés do altar da Virgem, representada em tamanho natural, como se estivesse mesmo ali encarnada a mãe de Deus. Ninguém está presente no recinto, o que deixa o rapaz mais à vontade para dirigir os seus lamentos. Por entre o cheiro santo da nave e o frio cortante das sólidas paredes de pedra, José não consegue conter as emoções e cai num pranto que tenta desesperadamente abafar. Intranquilo, observando em volta, constata que continua sozinho. Só a Virgem à sua frente, toda coberta de branco, o contempla com um olhar molhado, aparentemente desejosa de poder amenizar-lhe o sofrimento, se não fosse pela sua inviabilidade de peça de cerâmica. A perfeição da imagem, quase viva, misturada à sensação de impotência para com o seu destino, das amarguras e saudades, emociona-o.

José deixa cair todos os muros e irrompe sem barreiras o seu choro, invocando, entre lágrimas e estertor, a piedade e a misericórdia etéreas. Por um momento, baixa a cabeça entre as mãos, vexado por um homem da sua idade chorar como uma criança.

O bater das asas de um pombo que teria penetrado pelas torres altaneiras fê-lo alçar o rosto, altura em que leva um grande susto: a imagem da Senhora agora vestia-se de azul e carregava o menino Jesus ao colo, um motivo pouco comum para as esculturas.

Teria visto mal? Confuso, indignou-se por achar que alguém lhe pregava uma peça, mas não tem tempo de pensar muito, pois, de súbito, ouviu-se a porta de entrada bater vigorosamente e passos a dirigirem-se para si. Voltando a refugiar a face entre as mãos, finge rezar, e, por entre as frestas dos dedos, nota que se trata de uma mulher que veio a sentar-se na fileira de bancos à sua frente. Passam-se alguns instantes nos quais José deseja ardentemente que o deixassem sozinho novamente, ainda a fungar, sem conseguir esconder que chorara.

Notando o sofrimento do desconhecido, a mulher sente-se, entretanto, compelida a intervir: levanta-se, virando-se para José: era Maria, que adentrara na igreja, sem saber bem porquê, perdida, em busca de consolo. Está toda vestida de azul, a carregar o seu precioso filho, preso ao colo num marsúpio, dando a impressão de que este flutua como por magia. A criança parece muito satisfeita em ver o rapaz, esticando-lhe com júbilo os bracinhos de gente miúda.

Instintivamente, Maria aproxima-se de José, tocando-lhe no ombro, confortando-o com palavras muito decididas:
— Não chore, por favor. Seja pelo que for, há-de melhorar, vai ver. Tenha fé.
José, nitidamente comovido, balbucia-lhe um agrade-cimento, dividindo-se entre a visão da Virgem e de Maria, que se confundem numa só, parecidas.

Ela decide então ir-se embora, igualmente muito confusa, porém inundada de uma satisfação sem paralelo de missão cumprida, recompensada por ter praticado o bem naquela data tão simbólica. O rapaz permanece ajoelhado e em pranto, convicto de que acabara de presenciar um milagre, seguro de que as palavras daquela desconhecida saíram da boca da sua mãe celestial. Quando retoma o controlo das emoções, achega-se da escultura, tocando-lhe em respeitosa adoração o seu manto azul, anteriormente branco, repleto de escrúpulos tementes. Ousando fitar-lhe o rosto, ganha a certeza deste ser semelhante ao da estranha mulher que lhe falara. Em êxtase, percorre o corredor da nave, depois de uma demorada vénia ao sacrário, sendo iluminado por uma réstia de sol que foge por entre as nuvens e esgueira-se em facho por um vitral, atingindo-o centralmente, como um novo toque divino.

***

Muito se pode especular sobre o que se passou. Terá José alucinado? Ou a estátua metamorfoseara-se paradoxalmente? O que levara Maria a buscar conforto numa
igreja diante do seu repúdio à religião? Tratara-se tudo de meras coincidências? Ou antes uma série de episódios meticulosamente planeados, até mesmo a mensagem acidental enviada à Maria? Se não fosse por ela, teria Maria saído de casa? Ou o encontro jamais decorreria? Terá sido a jovem instrumentalizada nas mãos de arquitectos superiores ou unicamente seguido os seus imperativos humanos de consciência?

Diferentes explicações podem ser dadas consoante os distintos pontos de vistas.
Só num aspecto todos concordarão: algo de muito especial e fantástico ocorreu de verdade.
O milagre do encontro, o milagre do amor, o milagre de importarmo-nos uns com os outros, de não virarmos o rosto, sentimento que vive dentro de cada um de nós, escondido até nos mais frios corações.

Foi o Natal mais feliz de José e Maria: ela, acompanhada do tesouro que lhe foi concedido; ele, certo de ter sido abençoado, cheio de fé pelo prometido, contente pela graça de poder falar com a família ao telefone na hora da ceia.
Ambos já tinham a resposta para dias melhores.
Afinal, a solução era mais simples do que se poderia imaginar.

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