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Era uma vez um país...

A lampreia na Escola, uma aluna especial!

Ideias

2013-04-24 às 06h00

Isabel Estrada Carvalhais Isabel Estrada Carvalhais

Era uma vez um país com pouco mais de dez milhões de habitantes, que tinha quase um milhão de desempregados - se bem que era quase certo o número ser superior, escapando aos registos oficiais e às estatísticas que aqueles possibilitavam. Enquanto os acertos e actualizações estatísticas apontavam para uma chegada em breve ao número redondo de um milhão, sabia-se que dos identificados, mais de duzentos mil desempregados eram na verdade homens e mulheres que já haviam desistido de procurar um lugar no mercado laboral.

O país definhava e perdia gente como se sofresse de uma qualquer anemia de causa sistémica. Não era a perda hemorrágica de outrora, mas não deixava de ser uma perda, contínua, persistente. O país perdia também os que ficavam por nascer. Restavam-lhe para parco consolo muitos velhos, e muitos que em breve velhos seriam. Entretanto, o país nunca conhecera tanta literacia, tanta gente diplomada!

Numa década, o número de habitantes com 23 ou mais anos, detentor de um diploma de ensino superior, passara de 9 para 15%! Mas pouco mais restava ao país do que assistir, impotente, à cobiça dos sistemas hiperselectivos da alta recompensa dos mais qualificados. Era para lá que os seus jovens ambicionavam ir. O país disfarçava a clara derrota, apregoando nos discursos oficiais que exportar mão-de-obra altamente qualificada era fonte de prestígio e de receitas. Mas melhor seria se se calasse, porque poucos eram os que ainda acreditavam no embuste. Remessas!

Insistiam os discursos. Como se os jovens que fossem construir o futuro em países de futuro, quisessem investir num país de impasses, apenas por apego a uma nostálgica pertença colectiva. No país, a taxa de desemprego entre os jovens era também elevadíssima. E mais uma vez, para disfarçar a mágoa, havia quem sublinhasse que o país não estava sozinho na desgraça, pois outros países havia que apresentavam taxas ainda mais elevadas.

Nesse país, eram já muitos os sem-abrigo, os que buscavam a caridade na noite, os velhos desprezados sem reforma que aguentasse o martírio das maleitas crónicas, as crianças que rapavam o almoço da cantina escolar, forrando assim o estômago para o resto do dia.

Mas havia ainda quem não acreditasse que tais realidades existissem. Havia ainda quem pensasse que tudo não passava de exageros propagandísticos devidamente mediatizados, com propósitos partidários ou ideológicos mais ou menos assumidos, que se limitavam a criar uma falsa tradução de misérias que, afinal, mais não eram do que o reflexo de más opções de vida.

Para esses que ainda não acreditavam que aquelas realidades existissem, tudo se explicava pois por uma espécie de equilí-brio cósmico resultante do jogo entre boas e más opções de vida que cada um tomava em plena liberdade: uns aprendiam mandarim e estudavam o que realmente importava estudar; outros viviam à sobra do Estado, da sociedade e de uma qualquer idiotice sobre o ‘ser-se feliz’ como premissa de vida na hora de escolher uma profissão.

Na sua leitura tudo estava pois muito claro: para os primeiros haveria sempre prosperidade, mesmo no seio da maior adversidade; para os segundos, apenas estéreis manifestações de rua contra o inevitável mal causado pela sua própria mediocridade, nunca pela mediocridade dos seus governantes nem das suas avisadas e doutas elites económicas e políticas.
Nesse país, onde ninguém conhecia os militares que viviam a sua silenciosa infelicidade dentro de quarteis que já ninguém sabia muito bem onde ficavam, se ainda neste mundo ou em periferias de cidades imaginárias - havia de vez em quando convites para que o povo saísse à rua.

Até que chegou Abril, no seu vigésimo quinto dia e como aquele era um dia de muitas histórias e memórias (boas e menos boas e algumas francamente más), alguns acreditaram que as ruas se encheriam de gente, ordeira mas certeira na força do protesto, inspirados por uma data em que tinham sido capazes de revelar algum arrojo. Mas, como sempre acontecia, só alguns milhares saíram às ruas.

A esgrima sobre quantos milhares, se muitos, se poucos, depressa começou. Mas da grande massa de um milhão de desempregados, pouco afinal se viu. Teriam ficado em casa a ver políticos transfigurados em comentadores de bola e de Política (promiscuidade entretanto trivializada pela força da sua repetição e da aceitação passiva de quem a ela assistia)? Teriam preferido o resguardo da ciber-cidadania, ficando comodamente a gerir a simulação de protestos nas redes sociais como quem gere cidadezinhas virtuais? Ter-se-iam, enfim, já sem dinheiro para ter internet em casa ou televisão por cabo, simplesmente abandonado a um sono de pós-almoço em dia de (ainda) feria-do nacional? Teriam ido, ao menos, jogar à bola com os miúdos, ou estender uma manta à sobra de um pinheiro?

Em vésperas de mais um 25 de Abril que recorda lutas, sobressaltos, conquistas, excessos, e desilusões de um passado recente em que todavia ousámos ser qualquer coisa diferente deste estereotipo castrante sobre a brandura dos nossos costumes, que insistimos em confundir com decência cívica e humanismo, deixo um rascunho sobre uma história que eu gostaria não tivesse de ser a história de amanhã.

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