Correio do Minho

Braga, terça-feira

Eram assim…os nossos ricos

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Conta o Leitor

2016-08-07 às 06h00

Escritor

Félix Dias Soares


Depois de um dia duro de trabalho e alguns quilómetros percorridos, cheguei ao hotel onde estava hospedado com a equipa de trabalho habitual. Era o momento de conversar sobre o trabalho do dia, mas também, planear as tarefas que cada um devia desempenhar no dia seguinte. À noite os clientes eram poucos, podia-mos desfrutar do silêncio da sala e da simpatia da empregada só para nós. Eramos uma equipa de Portugueses e alguns Árabes, que durante muitos anos trabalhamos em toda a França.
Este hotel de luxo aceitou a nossa pensão completa por um valor concorrencial, sabendo que eramos trabalhadores estrangeiros, o que não era habitual. A patroa era uma Senhora muito educada, que só víamos ao meio dia. Eramos servidos pelas empregadas ao meio-dia e à noite. O marido chegava tarde, com uma pasta que indicava ser um quadro na vida profissional. Eu era o primeiro a descer de manhã, por volta das sete horas, como eramos nós os únicos a tomar o pequeno-almoço a essa hora, a patroa deixava tudo preparado, era só ligar a cafeteira do café e assim decorreram algumas semanas.
Certa manhã, desci do quarto e fiquei surpreendido ao ver a patroa na pequena sala, do pequeno-almoço. Ao entrar saudei a Senhora, que retribuiu com um bom-dia em Português, que me surpreendeu pela sua prenuncia bem Portuguesa. Eu terei ficado corado ao saber que a Senhora compreendia tudo que dizíamos, pois havia na equipa quem fala-se só Português e nós Portugueses, por vezes excedemo-nos um pouco na linguagem. Com um sorriso perguntei se era Portuguesa, ela respondeu que era Francesa, num Português perfeito. Os meus colegas começaram a descer, a Senhora apontou para a mesa, estava tudo preparado, com a mão fiz um gesto de até logo e saiu. Os meus colegas estavam curiosos para saberem o motivo da nossa conversa, mas nada desvendei, só à noite no trajeto para o hotel, recomendei que fossem moderados nas conversas, porque a Senhora falava Português como nós. Todos se olharam, mesmo os Marroquinos, prontos a culparem-se por palavras menos informais. Eu disse para nunca subestimarem as pessoas que nos rodeiam.
A partir daquele dia, todos nós eramos mais contidos nas conversas, a senhora mantinha a sua postura altiva, enquanto eu me perguntava! Como e onde teria ela aprendido a falar tão bem o Português? Dias depois na refeição da noite, fomos brindados com uma sobremesa de pudim Português. Momentos depois, a patroa aproximou-se e perguntou se gostamos… O nosso sorriso foi a prova da nossa gratidão, para com a gentileza da Senhora. Eu perguntei se foi ela que fiz o pudim, ela respondeu que sim, que aprendeu com uma inclina sua, que é Portuguesa, então eu perguntei… Foi com ela que aprendeu o Português! Ela olhou o relógio e disse, hoje não tenho tempo, mas depois conto como aprendi e afastou-se com um sorriso como era habitual. Todos nós estávamos curiosos, por conhecer a história daquela Senhora, pelo bom português, mas também pelo patamar social tão elevado.
Era à noite que ficava-mos mais tempo à mesa, falando um pouco de tudo, outros viam a televisão e foi numa dessas noites que a Senhora nos contou parte da sua história de vida. Disse chamar-se Florance, que seu pai foi imigrante em Portugal e que fez a escola primária em Lisboa no fim dos anos cinquenta. Seu pai era um conceituado engenheiro destacado por uma Companhia Francesa em Portugal, na manutenção dos comboios. Mas alguma coisa marcou a Florance para sempre… Foi a hostilidade dos ricos moradores do prédio onde viviam, para com seu pai. O engenheiro apesar de ter as refeições pagas, havia dias que ia a casa almoçar com a sua família fazendo-o em fato-macaco, o que não era do agrado dos outros muradores. Mas a situação iria-se agravar para o engenheiro, por permitir que o caixeiro que levava a mercearia aos residentes fizesse uso do elevador, sempre que encontrava no átrio da entrada o empregado da florista ou da Mercearia, fazia questão que subissem com ele no elevador.
Os moradores mostrando-se ofendidos, fizeram um baixo assinado acompanhado de um Oficio, acusavam o engenheiro Francês de indisciplinado e irreverente. A grande Companhia Francesa, que alugara o alojamento naquele prédio de luxo, não aceitou tais acusações ao seu engenheiro. Foi necessário o empenho do Embaixador de França, junto do governo de Salazar para impedir a expulsão do engenheiro, tal era o poder daqueles ricos. Dias depois, havia duas Circulares do Governo à entrada do prédio a informar os moradores, que todos os espaços e equipamentos estavam ao serviço de todos, sem qualquer descriminação, de cor ou raça. A partir desta data, os caixeiros que transportavam ao ombro ou à cabeça todas as encomendas dos ricos pelas escadas, começaram a usar o elevador, estendendo-se o mesmo direito a toda a cidade.
E por muitos anos, o engenheiro do fato-macaco foi lembrado, como um homem simples e amigo dos pobres. A Florance estava orgulhosa de seu pai, por ter mudado a vida daquelas pessoas, dizendo com um brilho nos olhos… O meu pai não impediu que fossem pobres, mas contribuiu para a sua dignidade. Eram assim… Os nossos ricos.

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