Correio do Minho

Braga, sábado

Erros colossais

Mobilidade Sustentável

Ideias

2013-03-19 às 06h00

Jorge Cruz

Nas palavras do ministro das Finanças, a recessão em Portugal é séria, mesmo grave, e os elevados níveis de desemprego são alarmantes. Mesmo assim, apesar de reconhecer que as previsões feitas em Dezembro passado falharam clamorosamente, Vítor Gaspar manifestou-se muito satisfeito com aquilo que considera o “desempenho exemplar” de Portugal.
Estas declarações do ministro, autênticas peças de non sense e do absurdo político em que vivemos, foram produzidas no final da passada semana, na conferência de imprensa que serviu para apresentar o resultado da sétima avaliação do programa de ajustamento económico e financeiro pela troika.

Provindo do responsável político que detém o nada invejável palmarés de ainda não ter acertado qualquer das previsões que apresentou, estas afirmações conseguem chocar sobremaneira os portugueses, principalmente pela insensibilidade social que encerram. Os portugueses, o tal povo que Gaspar um dia classificou de melhor povo do mundo, não são números e começam a ficar cansados de serem tratados da forma que têm sido, principalmente porque ninguém lhes dá quaisquer garantias de que os colossais sacrifícios a que têm sido sujeitos não serão em vão.

Os portugueses estão cada dia mais fartos das penalizações que, por diversas vias, o Governo lhes impõe e que lhes tem tornado extremamente difícil sobreviver com um mínimo de dignidade. E a sua saturação também decorre do facto de constatarem que a sensibilidade social e a preocupação com os mais fracos não são apanágio dos actuais governantes. Decorre ainda de assistirem diariamente, e serem vítimas indefesas, de enormes injustiças. E, principalmente, por não lobrigarem que as políticas que estão a ser praticadas conduzam a um futuro melhor. Pelo contrário, vêem um país cada vez mais devastado.

“A criação de um consenso nacional é fundamental para o nosso futuro colectivo”, disse na mesma ocasião o ministro das Finanças. Creio que esta, sim, terá sido provavelmente a declaração mais relevante do homem que é apontado como aquele que de facto manda no Governo de Passos Coelho.

Curiosamente, este é um dos poucos momentos em que se gerou em Portugal um consenso bastante alargado, quiçá uma esmagadora maioria, não para exultar com as políticas do Governo de Passos Coelho mas para as reprovar. Mas a verdade é que Gaspar apenas falou de consenso nacional, não se referindo, em concreto, ao sentido de tal acordo…

Com efeito, as políticas impostas aos portugueses pela equipa de Passos Coelho, e que o próprio apregoa orgulhosamente como mais troikistas do que a própria troika, têm vindo a merecer o repúdio generalizado dos partidos da oposição e do mundo do trabalho, o que engloba organizações sindicais e patronais. Os sinais de revolta são por demais evidentes para poderem ser ignorados. Até para tentar evitar males maiores, de cujas consequências todos nos tenhamos que arrepender, impõe-se ler os sinais e compreender de uma vez por todas que o país real está revoltado.

Ninguém suporta mais sacrifícios, mas a verdade é que os números agora anunciados pelo ministro das Finanças fazem antever tempos ainda mais difíceis. E, como disse este fim-de-semana o economista Daniel Bessa, o problema é que apenas “estamos todos a tentar evitar o momento final do anúncio ao mundo da bancarrota e do incumprimento”. Até porque, conforme também sublinhou, “infelizmente estamos hoje mais perto do que estávamos há dois meses, estamos mais perto do que estávamos há dois anos”.

Claro que ao constatarem os constantes erros das previsões económicas, que são sucessivamente alvo de revisões negativas, os portugueses temem o futuro, receiam que os seus enormes sacrifícios de nada sirvam.
E de facto o cenário apresenta-se cada vez mais negro: as mais recentes previsões dão conta de um desemprego que deve fixar-se nos 18,2% em 2013, devendo atingir um pico de 19% algures durante o ano, e uma economia que vai contrair 2,3%, quando o Orçamento de Estado para 2013 previa apenas 1%. Nestas condições, como cortar os tais (pelo menos) quatro mil milhões de euros na despesa do Estado?

Não surpreende, por isso, que se comecem a ouvir com mais intensidade as vozes discordantes do interior da própria coligação de direita que suporta o governo de Passos Coelho.
Uma delas, noticiou o Expresso, surgiu depois da conferência de imprensa do ministro das Finanças com um dirigente do CDS a questionar as razões do “brutal aumento de impostos” e de “tanto sacrifício” para “esta porcaria de resultado”. “Num mês, o défice de 2012 passou de 4,9% para 6,6%. E a receita da ANA não explica este desvio colossal”, disse o centrista próximo de Portas, acrescentando que “quem deve estar preocupado com Vítor Gaspar não é o CDS [mas o primeiro-ministro] Pedro Passos Coelho”.

Razão terá Daniel Bessa quando, na mesma sessão deste fim-de-semana, se mostrou convicto de que o Verão será decisivo para o futuro do actual Governo que, segundo o economista e antigo ministro, deverá cair não pela rua, mas pelo realismo dos números. “A meio do ano já será muito difícil lidar com uma execução orçamental muito negativa. Portanto, não acho que este Governo vá cair na rua. Vai cair pelo reconhecimento interno, a que não poderá deixar de chegar, da necessidade de ajuda e de que essa ajuda exige outra solução governativa”.

Os próximos tempos serão decisivos, tanto mais que é aguar-dada com enorme expectativa a decisão do Tribunal Constitucional sobre alguns dos artigos do Orçamento de Estado. A partir daí restará saber o que tem a dizer o presidente da República.

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