Correio do Minho

Braga,

Esbulho eleitoral

Escrever e falar bem Português

Ideias Políticas

2015-11-10 às 06h00

Hugo Soares

Escrevo-vos minutos antes de se iniciar a discussão do programa de governo apresentado pelo XX Governo Constitucional. Um governo escolhido livremente pelos Portugueses e que resulta de uma consequência factual: a Coligação Portugal à Frente venceu as eleições legislativas, obtendo mais mandatos e mais votos que qualquer outra força política apresentada a sufrágio. É assim. Foi assim.

Infelizmente, a ânsia (tantas vezes transformada em ganância) de poder do Dr. António Costa e do Partido Socialista quer transformar uma clara derrota eleitoral (e nem sequer foi por “poucochinho”) numa vitória de derrotados unidos. Uma espécie de novo slogan se levanta: derrotados unidos já mais serão vencidos. É verdade que no quadro jurídico - constitucional nada obsta a que os governos possam resultar de composições diversas de apoio parlamentar. Agora, quem perdeu as eleições ter o topete de se achar na legitimidade política de juntar forças parlamentares derrotadas para constituir uma maioria negativa e assim sobreviver politicamente é algo que além de inusitado é rocambolesco.

Disputei muitas eleições. Já ganhei e já perdi. Teria vergonha tomar o poder quando as perco.
O País sabe hoje que o Governo que escolheu não terá condições de governar porque a esquerda decidiu - resquícios de um totalitarismo que o 25 de Novembro impediu e derrubou - que governos de maioria relativa só podem acontecer à esquerda; ao centro e à Direita apenas as maiorias absolutas podem formar Governo. Na lógica da aliança mais estranha de que há memória, o povo quando vota neles vota para não deixar os outros governarem.

Com franqueza, esta visão tacanha e mesquinha do eleitorado e da forma como se interpretam resultados eleitorais fica com os protagonistas. Que o PCP e BE sempre a tiveram, eu e o leitor sabíamos. Mas que o PS desistisse de ir a eleições para ganhar, que as disputasse apenas para impedir outros de governarem, reduz a pó um partido que foi estruturante na construção da nossa democracia e no processo de integração europeia.

PCP, BE e PS só têm um denominador comum. Não são os salários, não são as pensões. Muito menos a sua visão da economia, do projeto europeu ou do papel do Estado. O denominador comum que os une é a estratégia. E também a estratégia é diferente para cada um deles. Ao PCP interessa não deixar ser o BE o parceiro futuro de alianças com o PS. Ao BE interessa recuperar ao PS a esquerda assim que o PS pisar - como terá que pisar - o risco da responsabilidade. Ao PS interessa o poder.

Como dizia no início, escrevo-vos a minutos de se iniciar a discussão do programa de governo. Quando ao leitor forem dadas à estampa estas linhas já o esbulho se está a consumar. O maior esbulho eleitoral de que há memória. Os portugueses como sempre julgarão.

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