Correio do Minho

Braga, sábado

Escada, Escadinhas e Escadórios

O nível de vida português pode ser ultrapassado pelos países do leste europeu

Conta o Leitor

2016-07-12 às 06h00

Escritor

Rosa Pires

A primeira coisa que decidira fazer, mal chegasse à casa na cidade, mal pousasse as malas e repousasse um pouco da viagem, seria subir em consciência os escadórios do Bom Jesus. Não pararia em todos os patamares, subiria os lances das escadas de uma vez sustendo a respiração, acaso fosse preciso, mesmo que nas veias das têmperas o sangue pulsasse e fosse das poucas coisas que o seu corpo frágil alguma vez se capacitasse de tal façanha, já que em jovem levara uma manhã para fazer o percurso a pé desde o sopé da cidade até perto do santuário.
Não que tivesse essa promessa por cumprir, que há vários anos se deixara de promessas: “ - prometo que é desta que marcamos o tal jantar ou um café, ou um lanche!”…
Promessas que ao longo dos anos, sempre que comunicava com as amigas de longa data nas suas visitas à família no natal, nos parcos dias na páscoa e nas semanas seguidas nas férias em agosto, ia fazendo e nunca eram cumpridas.
Acontecia sempre algum contratempo e essas promessas de encontros e convívio para recordar os momentos do passado ou contar as novidades de cada uma, nunca aconteciam…qualquer dia seriam tantos os anos sem os encontros como os que tinham passado juntas!
E os anos iam passando, os filhos cresciam e quando dessem conta já netos teriam nascido.
A beleza não se põe à mesa. Um ditado muito antigo e se havia feios e os bonitos, já não sabia em quem confiar. Não que tivesse deixado as portas abertas e escancaradas para trás naqueles dias seguidos nos feriados e a convidar a entrar fosse quem fosse como se do compasso se tratasse em dias de visita do cristo a casa dos pais. Pois os únicos que convidou e teve de obrigar a entrar na sua casa, foram mesmo os agentes da PSP para tomarem conta da ocorrência, fazerem a vistoria à casa, tirarem as impressões digitais.
Afinal, seria mais um assunto de conversa para ter com as colegas quando o tão desejado encontro se concretizasse um dia!
Os que não convidou para conhecerem a sua casa que nem um ano sequer tinha decorrido que habitava, e se teriam esgueirado e entrado por uma janela sobre a bancada na cozinha, dava indícios mais prováveis de ter sido por esse sítio, já que o recipiente do detergente tinha aparecido no parapeito do lado de fora desta…que no primeiro relance pelo lado de fora da varanda tinha reparado e até se perguntara o motivo e que por obra de espirito santo este fora lá parar?! Até tinha duvidado se fora ela que lá o colocara…isto há coisas do arco-da-velha. Até chegara a pensar que, como fora a última a dar uma vista pela casa, antes de trancar a porta, as coisas mais insólitas que se deu depois conta em sítios que não se lembrava onde estavam se as teria ela feito ou colocado onde apareceram, já que fora também a primeira a entrar. Nos primeiros instantes e já que tinha mais presente a recordação das coisas na anterior casa que habitara lá nos sul, nem à PSP sabia dizer onde tinha as coisas que hipoteticamente afirmava que teriam levado.
Os gatunos que lhe levaram os fios de ouro, as pulseiras e os anéis guardados ainda nas caixinhas dos ourives de cada um dos filhos, até nem lhe estragaram a pintura recente ou o soalho novo, mas tanto tempo que os teve na casa em Braga e que só esporadicamente a família ia lá abrir as janelas para entrar o ar e renovar o brilho aos móveis, e nunca o cheiro doirado os atraiu e num pequeno espaço ausentes da casa no sul, a fragância reluzente deve ter-se encadeado em algum raio de sol e fez-se logo chamariz…
Será que aparentariam que deveriam ter alguma coisa de valor já que eram caras novas ali pelas redondezas? A corda do estendal fora cortada por uma das facas que a anterior proprietária não quis levar e até estranhara já que eram umas cinco a seis facas de bom corte e lavando-as bem lavadas decidira ficar com elas, que até um dos agentes comentara que eram das melhores facas e de uma boa marca brasileira que já alguma vez vira! E que mais tarde, em conversa com os vizinhos que não quisera incomodar logo nos inícios que para lá fora viver e ia conhecendo ao cruzarem-se nos elevadores, mas depois se vira na obrigação de lhes comunicar para se precaverem estes por sua vez antes de verem as suas casas vandalizadas, lhe disseram das tentativas de assaltos e alguns consumados ali no prédio e inclusive, a família anterior de brasileiros que lá vivera, se tinham queixado de terem sido assaltados. Descoberto o mistério porque a anterior proprietária não quisera levar as facas: já estavam na casa quando para lá fora também nos dois anos que lá habitou!
Por onde tinham acedido à sua casa no segundo andar, não sabia, mas dava a ideia de terem subido pelos degraus que o gradeamento fazia em escadinhas da vizinha do 1ºandar e tinham assim saltado para uma das varandas da sua cozinha a tal onde tinha o estendal e agarrados na parede e visualizando a frincha da janela da bancada entreaberta, facilmente se esgueiravam para dentro da casa já que até um miúdo acederia facilmente por ali.

Na primeira semana após a ocorrência, chegava a casa e abria todas as janelas e todas as varandas, dando-se assim a conhecer-se a todos os vizinhos dos prédios circundantes. Não tinha medo, que fossem agora lá, se tivessem coragem com ela dentro de casa, pois a raiva que sentia assolava-a como a um toiro enraivecido e pelos cantos da boca a transbordar com a espuma da saliva chispava e descortinava as rotinas de todos ali ao redor de si. De noite e de dia, estivesse ela em casa até as estrelas deixariam de cintilar com receio de a enfrentar. A raiva dela deixava o aviso: que não se metessem com ela, porque a própria mãe lhe incutira desde miúda que pela verdade e boa-fé daria tudo o que tinha mas que não a quisessem ver danadinha e não precisava da escada, oferenda em sentido figurado, por um tipo qualquer no seu passado, porque tinha altura e garra suficiente para chegar à cara do universo lá do alto dos escadórios do Bom Jesus e pregar umas boas bofetadas a quem lhe tentasse agora assaltar a casa que defenderia com unhas e dentes.

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