Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Escrever e falar bem Português

O Estado da União

Escreve quem sabe

2018-05-20 às 06h00

Cristina Fontes

Hoje, todo o artigo diz respeito à acentuação. Não é raro encontrar nomes terminados no sufixo zinho acentuados graficamente com acento agudo (sózinho, cafézinho, avózinha). Convenhamos que é um erro que não se espera encontrar em certos órgãos de comunicação social, vistos como referência.
Atentemos nos exemplos: «Costa acusa PSD/CDS de se apresentarem como a "avózinha do capuchinho vermelho" mas são o "lobo mau"», título de uma reportagem da Antena 1, publicada na página da RTP, em https://www. rtp.pt/noticias/eleicoes-legislativas-2015, acedido em 5 de maio de 2018; «Vai um cafézinho e uma quadra? - Poetas populares não são esquecidos no dia mundial da poesia.», na página da TVI, em http://www.tvi24.iol.pt/sociedade/dia-mundial-da-poesia, acedido em 5 de maio de 2018. Ora, ao associarmos o sufixo a palavras agudas (só, café, avó), o acento tónico passa a recair na primeira sílaba do sufixo (sozinho, cafezinho, avozinha), passando a ser uma palavra grave não acentuada graficamente, apesar de a vogal anterior continuar aberta.

Estas palavras eram, antes de 1973, acentuadas graficamente, mas com acento grave e não agudo (sòzinho, cafèzinho, avòzinha), exatamente para demonstrar que a vogal anterior à sílaba tónica permanecia aberta.
Todavia, nesse ano, o decreto n.º 32/73 de 6 de fevereiro, (adenda ao texto do acordo ortográfico de 1945) determinou a eliminação dos acentos graves com que se assinalavam as sílabas subtónicas dos vocábulos derivados dos sufixos iniciados por z.

Aproveito a ocasião para chamar a vossa atenção para o texto deste decreto, assinado pelo Presidente da República, Américo Thomaz, no qual se manifesta, claramente, uma decisão política, obviamente suportada por linguistas, tal como foi aconteceu com o atual Acordo Ortográfico, em vigor desde 2009, e que tanta polémica tem causado. Nele lê-se: «2. Em compensação, e enquanto não for seguida em Portugal a norma que determina a abolição do acento gráfico (), surgiu - desnecessàriamente - uma nova divergência entre palavras, como «praticamente» e «pràticamente» ou «sozinho» e «sòzinho», grafadas de maneira diversa em Portugal e no Brasil. 3. Trata-se de um pormenor de importância secundária, sem correspondência na linguagem falada, e acerca do qual já se pronunciou a Secção de Ciências Filológicas da Academia, propondo por unanimidade que se elimine, naqueles casos, o acento grave ou o acento circunflexo. () Deste modo se aproximarão ainda mais as ortografias seguidas nos dois países. E não será de mais louvar a vantagem das modificações agora introduzidas, já que - também segundo as amostragens realizadas -, graças a elas, as divergências de ortografia baixarão sensìvelmente de percentagem.»

Fechado o parênteses sobre o decreto n.º 32/73 de 6 de fevereiro, convém, ainda, alertar para o facto de o til não ser um acento, mas um sinal gráfico que assinala a nasalação das vogais a e o. Pode surgir em sílaba tónica (amanhã,) ou em sílaba átona (órfão). Assim, o til mantém-se nos diminutivos com sufixo zinho (ex.: mãozinha, pãozinho, cãozinho).
O decreto supracitado determinou, ainda, a abolição do acento gráfico nas subtónicas dos vocábulos derivados com o sufixo mente. Também estes eram acentuados com acento grave, para marcar a abertura da vogal após a junção do sufixo mente (lamentável lamentàvelmente).
No entanto, este acento grave, em vez de desaparecer, transformou-se num acento agudo (erradamente e inexplicavelmente). Uma procura rápida na internet permite-nos detetar vários exemplos: «e tal entendimento impôr-se-ia aos vendedores, que razoávelmente não podiam contar com qualquer outro.», no texto de um acórdão do Supremo Tribunal de Justiça, publicado em http://www.dgsi.pt/jstj.nsf/ 954f0ce6ad9dd8b98-0256b5f003fa814/663e44343dab0614802568fc003a2535?OpenDocument, acedido em 5 de maio de 2018. Este texto apresenta outro erro ortográfico, na forma verbal impôr-se-ia. Esta deveria ser grafada sem o acento circunflexo.
Também não se esperaria encontrar erro similar na versão digital de uma revista de grande tiragem, acedida em 27 de junho de 2017, na qual lemos « são provávelmente os seus maiores sucessos.», em https://www.ti-meo-ut.pt/lis- boa/pt/musica/jorge-palma e muito menos na apresentação de uma lista para um sindicato de jornalistas «Isto, lamentávelmente com a cumplicidade do governo regional», publicado em http://www.jor-nalistas.eu/ficheiros/7768_567_557_dr_madeira_programa_lista_a[1].pdf e acedido em 5 de maio de 2018.
A acentuação continua a ser o parente pobre da ortografia. Às vezes está a mais, outras a menos. Prometo voltar a este assunto.

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