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Esperança

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Esperança

Ideias

2020-03-23 às 06h00

Filipe Fontes Filipe Fontes

Há momentos assim em que tudo parece suspenso e em silêncio, em que tudo se fragiliza para lá da nossa imaginação e da nossa capacidade.
E, porque há momentos assim, há assuntos que parecem não fazer sentido, pelo menos, no momento actual. Não pelo seu valor ou significado (ou pela perda dos mesmos) mas, simplesmente, porque a cadeia de prioridades se reconfigura e há necessidades que se vão sobrepondo e tornando (ainda mais) prementes e emergentes.
Há momentos assim em que a pertinência nem sempre é justa e o interesse é relativizado em nome de um bem maior.
Vivemos um momento excepcional e de excepção que nos transporta, tão directa e assertivamente, para a frase de Ortega Y Gasset que cito livremente “sou eu e a minha circunstância. E se não cuido da minha circunstância, não me salvo a mim mesmo…”.

A circunstância é dura e impactante. E altera o nosso contexto enquanto indivíduos, pessoas e comunidade, colocando questões e desafios inimagináveis há pouco tempo. Mas talvez seja por isso que devemos cuidar e superar a circunstância para, precisamente, resistirmos enquanto indivíduos, pessoas e comunidade. E, no final, sairmos (ainda) mais fortalecidos e robustecidos.
O momento actual expõe o confronto entre a liberdade e a segurança, a confiança e a esperança, a casa e o espaço público, o indivíduo e a comunidade. É talvez momento exigente de interrogação e alguma perplexidade entre o eu e o nós e momento de contradição e negação da essência da própria cidade: ao território que é de todos e para todos, negamos a presença e a frequência, remetendo-nos para nossa casa enquanto espaço próprio, individualizado e inviolável pelo outro. O momento actual reconfigura a noção de casa que o contexto liberal tem vindo a afirmar. A casa-ponte, objecto de transição e passagem entre o trabalho e o lazer, momento de paragem para descanso e encontro obrigatório, vê-se agora suplantada pela casa-abrigo, o espaço físico que nos abriga e protege do mundo exterior, que nos acomoda e aceita, possibilitando-nos estar em segurança e recato, qual cápsula protectora estanque e impenetrável!

E esta reconfiguração transporta-nos para o confronto que vivemos hoje entre a liberdade e a segurança: à liberdade própria do espaço público, à livre circulação e encontro que a praça e a rua motivam e apelam, às manifestações comunitárias de festa e crítica, de exaltação e protesto – que só as entendemos e concretizamos no espaço público – damos uma subalternização relativamente à segurança, (no caso) esse modo de distanciamento e isolamento social, delimitação e encerramento do nosso espaço individual, valorizando a protecção à interacção, a salvaguarda relativamente à partilha.
Tudo isto parece contraditório e, como se diz correntemente, “faz pensar”. Tudo isto é contraditório e não seria (acreditamos) realidade se a vida não fosse assim mesmo: inesperada e surpreendente (na verdade, num momento em que a humanidade nunca foi tão globalizada, partilhou tanto conhecimento e informação, gerou melhoria contínua – embora de forma desequilibrada – da condição de vida, avançou nos domínios científico e tecnológico como não há registo histórico … não deixa de ser, impactantemente, questionável como é que tudo fica “suspenso” e em desordem por algo que não se vê nem ouve…).

Mas, porque tudo isto é assim, um caldo de contradição e contrariedade, de perplexidade e interrogação, de teste à nossa capacidade enquanto comunidade e resistência enquanto indivíduos e pessoas, seguramente, este é momento para praticar a confiança e a esperança: confiança em quem cuida de nós, sejam profissionais de saúde, políticos e especialistas, aqueles que garantem os serviços mínimos e de suporte às nossas necessidades mais generalizadas e inevitáveis; esperança que, enquanto indivíduos e comunidade, saberemos resistir e persistir, perdurando para lá do vírus ainda de forma melhorada: olhando para trás e aprendendo com os erros, avistando o futuro com a certeza de que, juntos, há sempre mais possibilidades de “ir mais além”, devolvendo ao espaço público, hoje silenciado e acantonado em nome do interesse de todos nós, o protagonismo que o mesmo merece e encerra. Em nome do bem que faz a todos nós!

E, porque se fala e escreve sobre esperança, regressa-se à personagem de banda desenhada predilecta do autor destas palavras: Asterix e sua aldeia gaulesa, governada por um rei que, apesar de temerariamente receoso, revela um medo constante e uma certeza inabalável: o medo de que, um dia, o céu caia em cima da sua cabeça; a certeza de que amanhã não será véspera desse dia… e, neste balanço de realismo e fé, ancorado na sua comunidade, vai resistindo e persistindo, acreditando que vale a pena lutar para que o amanhã seja melhor, simplesmente melhor… Haja esperança!

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