Correio do Minho

Braga,

Espólios encerram história

Amigos não são amiguinhos

Ideias

2013-04-30 às 06h00

Jorge Cruz

Prestigiado empresário bracarense que muito prezo, pela sua forma de estar na vida, nos planos pessoal e profissional, alertou-me há dias para uma das consequências porventura irreparável da actual situação de crise.
Referia-se, em concreto, ao destino incerto dos espólios das inúmeras insolvências com que diariamente nos deparamos, lembrando que muitos desses despojos encerram histórias que podem ajudar a perceber a evo-lução das respectivas áreas industriais.

Creio tratar-se de uma reflexão pertinente que deve preocupar aqueles que detêm responsabilidades políticas e são sensíveis à preservação do espólio industrial, em particular ao que constitui referência nos respectivos sectores de actividade.

O problema é, obviamente, de âmbito nacional mas acredito que só poderá ter alguma evolução positiva através de intervenções locais, não apenas pela insensibilidade que as instituições estatais costumam demonstrar nestas questões de preservação do património mas, principalmente, por razões de proximidade, geográfica e afectiva.

Existem, aliás, excelentes mo-delos de intervenção municipal nestas áreas, de que destaco, a título meramente exemplificativo, apenas três: o Museu de Portimão, que “inclui património industrial, naval, arqueológico, etnográfico e subaquático” e que “presta homenagem a um povo e a um concelho que durante anos viveu quase exclusivamente virado para o mar”; o Museu da Chapelaria de S. João da Madeira, “uma homenagem aos homens e mulheres que fizeram da indústria chapeleira uma das actividades de maior importância na história do concelho”; e o Museu do Vidro da Marinha Grande, que testemunha “a actividade industrial, artesanal e artística vidreira portuguesa, desde meados do século XVII/XVIII até à actualidade”.

Em Braga, o município concebeu o Museu da Imagem, que alberga o espólio de uma das mais antigas casas de fotografia da cidade, a “Foto Aliança”, e, através dele, uma reportagem fotográfica da antiga cidade, propondo-se agora criar um novo núcleo museológico, este de cariz industrial, no edifício da antiga fábrica Confiança.

De facto, a Câmara Municipal justificou a aquisição do imóvel com o propósito de “promover a preservação do património e da memória industrial de Braga, alavancar o esforço de regeneração urbana e dinamização económica da zona em que o edifício se encontra implantado e disponibilizar valências que possam ser fruídas pela população”. A ser assim, a confirmar-se esta intenção, parece-me que poderá ter perfeito cabimento a inclusão de espólios, entre outros, das indústrias de mobiliário, da talha, da chapelaria e da metalo-mecânica até porque alguns deles são historicamente demasiado valiosos para se perderem.

Rentabilizar as instalações da antiga unidade fabril de saboaria e perfumaria adicionando novas valências culturais ao projecto inicial parece-me um desafio interessante que, certamente, não deixará de merecer apoio dos bracarenses, tanto mais que dessa forma também se irá preservar a memória de sectores industriais que marcaram Braga.

E o repto assume outra relevância quanto é consensualmente aceite que o próximo ciclo, que se iniciará com as autárquicas deste ano, deverá privilegiar novos e mais actuais paradigmas de gestão. Ultrapassada a fase das grandes infra-estruturas, superada a difícil e onerosa etapa dos vultuosos investimentos, é chegada a hora de apostar em políticas que favoreçam não apenas as novas indústrias criativas, que aliás o “GNRation” albergará, mas também, e de um modo geral, os sectores que não estiveram na primeira linha das preocupações da gestão municipal.

Óbvia e indiscutivelmente, a cultura terá que assumir, no novo ciclo, o papel fulcral que o vasto conjunto de agentes culturais reclama, para gáudio das populações, tanto mais que essa opção contribuirá, em simultâneo, para alavancar definitivamente o património histórico-cultural de Braga à posição cimeira a que tem direito. Além do mais, a própria actividade turística - um sector que também deve ser fortemente acarinhado, conhecido que é o seu potencial de gerador de receitas - beneficiará sobremaneira de um modelo de desenvolvimento que reforce e reafirme a aposta na salvaguarda e promoção do seu património histórico.

Neste capítulo assume particular relevância, e é inclusive uma tarefa premente, conjugar esforços no sentido de obter a elevação do Bom Jesus a património mundial da humanidade. Como um dos ex-libris da cidade, a estância do Bom Jesus e o seu valiosíssimo património histórico já é responsável por uma boa parte dos fluxos turísticos mas pode e deve reforçar a sua importância das rotas do património europeu.

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