Correio do Minho

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Esquerda baixa

Derrota à francesa

Esquerda baixa

Escreve quem sabe

2022-12-26 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Perante escolha, prefiro um documentário a um jogo de futebol. Também opto por um documentário diante de um filme, por uma ópera, bailado ou teatro, haja essas opções. Isto sou eu, e não o digo por birra elitista, antes por inclinação cognitiva, por questão de estética, antes porque da visionação de um desafio de bola eu saia igual, nem mais rico, nem mais pobre, o que não é o caso de quem se pela por boa discussão sobre calinada de treinador, juízo vicioso de árbitro, aselhice de estrela.
Preciso que não serei um nabo pegado no que ao desporto-rei respeita, sendo que o resumo ao meu prisma, e por boas, desafiantes, tenho as temporadas em que toquei a psicologia desportiva, interessando-me então as dinâmicas de vitória e derrota, as relações de cooperação e competição no seio do plantel, as congeminações sobre os estados de forma… Enfim, ele há tanto que falar para além do que faz rotina.
Raramente me pronuncio sobre futebol. Não posso, porém, não espelhar um drama, simultaneamente pessoal e nacional, não posso e não quero deixar em branco a desfortuna do Cristiano, que pátria é, quanto de seus sucessos por junto rejubilamos.

Encaixar a derrota, a despromoção, a perda de valor, é um grande sarilho. É preciso um estofo daqueles, e um estômago de digerir vidro moído. O Cristiano dificilmente dará mais e, incentivá-lo, é iludi-lo. Talvez ele se iluda a si próprio, e contra isso batatas. Foi o que já não é, e o Messi, a quem as coisas correram pelo melhor, já não encadeia dribles sobre dribles e, bem contado, passa a maior parte do tempo a passo, resguardando-se para uma explosão de pequeno calibre mas de grande efeito. Distinto era o perfil de Cristiano, e a fisiologia tem destas coisas, que ele é ver quantos velocistas resistem ao avanço da idade.
Com o inexorável no horizonte presente, por que quadrante de cena sairá Ronaldo: pela esquerda baixa, pelo ponto de diminuto efeito sobre a plateia? Seria uma pena. Está a ser uma pena.

Que miragem terá ele previsto para si? Não que isso me interesse particularmente, tomando o caso em si próprio. Mas outras estrelas surgem. Bom é que outros valores se afirmem, bebendo em Cristiano até a ousadia de tudo aspirar, até a ousadia de o suplantar, verdade sendo que em nós reciclamos quem nos precedeu, prestando homenagem, mas seguindo em frente, desabridamente.
Tem Cristiano a desventura de não ser americano, ou cidadão de país com forte produção cinematográfica, que estampa tem para encher a tela, e isto avento porque não me parece que da filantropia colha aplauso que o contente. Em suma, há sempre um amanhã que urge acautelar, e de forma premente, quanto mais elevado seja o patamar atingido por um desportista de alto gabarito.

Valha a metáfora de adega: há vinhos que afinam, que concentram e condensam espírito, e há vinhos que avinagram. Teve Messi uma época desastrosa no ano passado no PSG, quiçá preparando-se psicologicamente para a grande palco do Mundial. Terá confiado Cristiano em conjugação astral benévola, em sortes de improviso, revelando alma lusitana em todo o seu esplendor. Ele e nós: que tanto nos custa contar com o insucesso de forma criativa, chamando os fantasmas à mesa, testando-lhes o malefício e a consistência! Faça o Cristiano o que entender com a excelente vida que tem por diante, mas componham-lhe uma peça ou uma ópera, algo de empolgante, que perdure em cartaz e se preste à ilustração pública. Ou algo para o pantomineiro, como para teatro de robertos de feira. Já há guião: Ronaldito e os camelos!
PS: Para a candidatura ibérica, dou por mim a pensar que o Messi o faça de borla. Só para chatear.

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