Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Esquerda e Direita: um debate cada vez mais actual

O mito do roubo de trabalho

Ideias Políticas

2016-03-01 às 06h00

Pedro Sousa

Ao longo dos últimos anos, assisti, em diferentes locais, modos e circunstâncias, a um tendência intelectual, acarinhada por muitos dos principais opinadores do regime, defensora da ideia, peregrina, que o debate ideológico, a clivagem e o posicionamento ideológicos, marcados, desde há muitos anos, pelo simbologia da esquerda e da direita, não faz, hoje em dia, qualquer sentido; foram muitos os artigos de opinião, os programas de debate político e as conferências em que este tema foi abordado sempre no mesmo sentido, denunciando-lhe o desuso e a, suposta, perda de sentido político.

Discordei, sempre, desta visão das coisas, à qual contrapus, invariavelmente e com energia, uma posição que entende que a distinção política, a definição, clara, daquilo que distingue e tem, obrigatoriamente, de continuar a distinguir a esquerda da direita era e continua a ser, em função das circunstâncias políticas actuais e, sobretudo, da forma como a direita vem desde há muitos anos impondo a sua agenda liberal, monetarista e austeritária (com os desastrosos resultados que daí advieram), à União Europeia, não apenas uma necessidade, assumindo, mesmo um carácter imperativo.

Aqui chegado, não podia destacar algumas notas sobre a recente aprovação, na generalidade, da proposta de Orçamento de Estado para 2016, votado por toda a esquerda parlamentar, sinal de um tempo novo (e sadio) em que todos esses Partidos foram capazes de valorizar mais o que os une, do que aquilo que os separa (e separará, provavelmente, até a fim dos dias).
Este momento, histórico, derrubou uma barreira de entendimentos à esquerda que perdurou mais de quarenta anos e, não desconsiderando as dificuldades do caminho, muitas e de várias espécies, não pode deixar de ser enaltecido.

Destaque maior, na medida em que a proposta do Governo para o OE de 2016, comportando muitos riscos e incertezas (algo natural e perfeitamente entendível para um País que foi, nos últimos anos, objecto de um resgate financeiro e não conseguiu, ainda, sair do Procedimento por Défice Excessivo) é o primeiro orçamento a assumir com coragem o caminho da redução de impostos e, mais importante, o caminho da devolução de rendimentos.

Conhecendo e reconhecendo as agruras do caminho, é obrigatório reconhecer que com este orçamento, o Governo e Portugal, apesar de algumas críticas e sugestões de Bruxelas, criaram, ao terem a coragem de romper com a famosa TINA (a teoria do ‘There is No Alternative’), uma janela de oportunidade para se pensar e construir a Europa de forma totalmente diferente da das últimas duas décadas.

Regresso, por isso, ao início desta minha reflexão, colocando o tónico na necessidade de distinguir bem esquerda e direita e de, sem tibiezas, afirmarmos como de esquerda as nossas ideias e as nossas convicções procurando, também, derrotar a direita no plano das ideias mas, também e principalmente, conseguindo através das nossas ideias e propostas sermos capazes de melhorar, no plano do concreto, a vida das pessoas.

Como disse e muito bem, há poucos dias, o reputado Embaixador Português, Francisco Seixas da Costa, um ‘muy’ esclarecido e brilhante pensador do espaço político da esquerda moderada e social democrata:
“A esquerda, para conservar o poder e justificar democraticamente a razão por que pode exercê-lo, deve conseguir compatibilizar uma forma de vida que seja confortável para largas faixas da população, que se sentem à vontade e gostam de usufruir do modelo da sociedade de mercado que é hoje o ‘template’ comum da Europa, e que marca inexoravelmente o seu quotidiano e os seus legítimos hábitos de consumo e lazer, com uma gestão eficaz da economia, da qual seja possível extrair recursos fiscais que permitam suportar políticas públicas que reforcem a ‘safety net’ social e promovam opor- tunidades para todos”.

“A esquerda só será vitoriosa se conseguir tornar as pessoas felizes, o que passa por conseguir mostrar que as suas políticas são as mais capazes de democratizar o bem-estar, para recriar um ambiente de solidariedade intergeracional assumido como valor ético, para tornar a luta contra a desigualdades um imperativo da consciência coletiva, para gerar uma sociedade onde o quadro social de nascença não seja uma determinante imutável para o resto da vida. A esquerda, se quer derrotar a direita, no campo democrático que é o deste país e da Europa em que estamos, deve conseguir afirmara-se, simultaneamente, como a mais eficaz promotora e criadora de riqueza coletiva e como a força paladina da igualdade de oportunidades, o que tem como contraponto saber conviver com o mérito e o sucesso individual, sem alimentar um discurso de inveja e tensão interclassista. Se o não conseguir fazer, a direita regressará rapidamente ao poder”.

Concordo e subscrevo, em absoluto, esta linha de pensamento e de acção políticas e será neste horizonte dentro do qual me continuarei a posicionar e a bater.

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