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Está à vista o fim das Humanidades?

Beco sem saída

Ideias

2014-12-26 às 06h00

João Ribeiro Mendes João Ribeiro Mendes

As Humanidades representam um domínio multidisciplinar heterogéneo (literatura, filosofia, linguística, etc.) que estuda o que significa ser humano - distinto do das Ciências, que investiga a estrutura e o funcionamento do mundo, e do das Engenharias, que projeta, constrói e mantém em funcionamento artefactos tecnológicos.

Apesar de ligado a uma milenar tradição de reflexão sobre a natureza e a condição humanas, o domínio das Humanidades só principiou a formar-se na viragem do século 19 para o século 20, no contexto da profissionalização das ciências (que não abraçou e lhe custou a secessão dos saberes que hoje fazem parte das chamadas Ciências Sociais: sociologia, economia, ciência política, etc.).

Assim, se a pergunta em título aponta para o eclipse das Humanidades a resposta é: não! Parece óbvio que sempre existirão pessoas interessadas na poesia, na discussão filosófica ou em aprender línguas. Se, todavia, essa interrogação sugere o encerramento de instituições de ensino e pesquisa que tradicionalmente veiculam o seu conhecimento, como as faculdades de letras, os departamentos de filologia, os institutos de línguas ou os centros de estudos clássicos, então a resposta é: sim, muito provavelmente!

Deveríamos, pois, preparar-nos para isso. No relatório “Mapeando o Futuro”, de 2013, a Universidade de Harvard elenca os cinco argumentos que mais têm contribuído para o declínio das Humanidades e que aqueles que pugnam pela sua subsistência terão que empenhar-se em rebater.

O argumento económico: necessitando as novas gerações ficar habilitadas para atuar num ambiente de competição global onde imperam exigências sobretudo práticas e não podendo as Humanidades contribuir eficazmente para tal propósito educativo, deverá o sistema universitário ficar alinhado com esse interesse estratégico e desinvestir economicamente nelas.

O argumento social: constituindo as Humanidades saber fundamentalmente destinado à edificação e fruição dos indivíduos na sua esfera privada, e habitualmente expresso numa linguagem demasiado sofisticada para ser acessível à maioria das pessoas, encontrando-se desprovido, por isso, de uma função pública relevante, não devendo ser socialmente promovido.

O argumento científico: sendo o conhecimento gerado pelas Humanidades essencialmente interpretativo e dissentido, ao contrário daquele produzido pelas Ciências Naturais e Ciências Sociais, razoavelmente objetivo e consensual, revela-se impotente para a compreensão e domínio do mundo (natural e social) na sua enorme complexidade, incertezas e riscos, e por isso o esforço da sua busca deve ser minimizado.

O argumento vocacional: não conseguindo as escolas de Humanidades assegurar a empregabilidade dos seus graduados, nem muito menos ajudá-los a enriquecer no mercado, deverão ser reduzidas ou até encerradas para que os índices de frustração profissional baixem para valores socialmente aceitáveis.

O argumento tecnológico: uma vez que o saber das Humanidades é tipicamente organizado em grandes narrativas e transmitido e difundido por intermédio da palavra escrita em suportes tradicionais como o livro ou o jornal, encontra-se em forte dissonância com os interesses intelectuais (informações sintéticas e rápidas) e modos de acesso ao conhecimento (uso de redes telemáticas) das gerações mais novas, mas não só, e, por conseguinte, afigura-se obsoleto na era tecnocientífica em que vivemos.

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