Correio do Minho

Braga, terça-feira

Esta noite já não te sonhei

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Conta o Leitor

2014-08-27 às 06h00

Escritor

António Ribeiro

Estranhei a tua ausência nestes dias em que te planeava mais presente que nunca. Confesso não alcançar esse inesperado desaparecimento. Como pudeste apartar-te agora que mais precisava de ti? O que te forçou a renunciar ao quanto já vivemos? Por que apagaste o que tanto nos custou a gravar naqueles dias de comunhão? Tantas viagens fizemos juntos, tantas confidências deixámos a bom recato no mais fundo das nossas memórias. Tantos projetos esboçámos, crendo nos dias de paz que julgávamos ganhos. Sonhos construídos num tempo em que havia futuro… Ilusão fatal quando a pouco e pouco te fui sentindo cada vez mais vagabundo.

As tuas visitas espaçaram-se nas noites, mas eu apagava as dúvidas na esperança de ser apenas amuo passageiro. Porém, estranhei a tua ausência quando julgava ter próximo o que repetidamente idealizei. E, no entanto, eu devia saber, e sabia…, que já não vale sonhar. Eu não devia esquecer que o amanhã não existe nesta correnteza de dias sem futuro. Neste espaço indeciso onde escolhemos viver. Culpo-me agora pelos embalos em que me deixei arrastar nas certezas dos sonhadores. Surdos às vozes dos dias, deliberadamente presos a um tempo mirificado. Irrepetível.

Construí um não futuro julgando possível manter-me senhor de direitos que venci. E que cheguei a julgar invioláveis, nesta ingenuidade inesperada quando há muito se caminha na idade madura. Certificando as propostas que me garantiam o que me havia sido prometido. Estendendo a mão aos que me fizeram aprisionar. Acreditando quando devia suspeitar.
Vão cinzentos os dias que deviam ser de confronto, renegando caminhos que nos aportam a tempos sem amanhã, mas que nos vão mantendo enleados nesta cobarde submissão dos que se abstêm de dizer NÃO!

Agora, quando se vai finando esta noite em que já não te sonhei, procuro um último regresso até ao que mais quis. Idealizar num último rascunho o que poderia ter sido esse porto de abrigo onde descansaria de uma longa jornada. Onde poderia realizar-me no que sempre ambicionei ser. Livre!

Deixa-me, por uma última vez, encarnar esse papel do qual me sentia inquestionavelmente digno. Permite-me, por uma última vez, que, em pensamento, me afaste sem rumo, levado apenas pela vontade de conhecer outras gentes, sentir o cheiro de outros lugares, caminhar por estradas que me levassem a qualquer lado onde, calmamente, pudesse balancear uma vida. A minha. A nossa.

A viagem. Tu sabes como sempre entendi a vida como uma jornada. Por vezes sem as companhias ambicionadas, mas sempre com as possíveis. Caminhando. Nem mais à frente, nem mais em atrás. Lado a lado. Solidário.

Estou seguro que ainda te recordas desses planos. De como eu dizia, e acreditava, que o presente era apenas um investimento no futuro. Influência de uma forte educação religiosa, integrando no mais fundo do subconsciente a efemeridade deste tempo de passagem em direção à eternidade? Talvez. Contudo, e tu sabes isso melhor que ninguém, recalquei todos os efémeros desejos do presente a esse fim maior da construção de um futuro. Onde me pudesse renascer. Crescer numa vida nova, sem as peias que hoje me encerram neste ser que não sou eu. Onde pudesse melhor compreender o outro, apoiando-me no lastro de uma vida vivida. Da minha e de quem nunca desistiu de me acompanhar. Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença!

Sempre o outro, dir-me-ás… Estaremos em desacordo. Mais uma vez. É no dar que se recebe, lembras-te?
Contudo, nem sempre fui aceite nessa quase obsessão pela chegada ao tempo da sabedoria. Nessa anacrónica saudade pelo porvir. Como eu ambicionava essa idade do futuro… Como eu te invejava quando me antecipava nos teus cabelos brancos; queria-me acreditar que foram alveados pela muita luz que receberam. Como eu te invejava quando me revia nas rugas que marcavam o teu rosto, sulcos que assinalavam uma vida. Plenamente vivida, fazia-me assim acreditar! O que eu não me esforçava por reter essas imagens que povoavam os meus sonhos e que se obscureciam quando a noite se ausentava.

Era nessa miragem que eu vivia o futuro. Quantas vezes me acusaste de querer inventar um outro eu. Como se quisesse reescrever em mim uma inverosímil antítese de Dorian Gray, nessa minha obsessão pelo outono da vida. Como se fosse possível o trespasse do presente…
Esta noite já não te sonhei. E como foi longa… E como serão curtos os dias que virão… E como são indizíveis estes tempos sem amanhã…

Esperei pelo amanhecer, confiando que os sonhos não tivessem voado em troca de coisa alguma mas, inexoravelmente, quando o dia entrou por esta janela, nada se fez melhor. Faltou a luz da esperança que me iluminava o amanhã, agora incapaz de transpor esta venda que não me liberta o futuro. Ficou apenas uma anunciada angústia de não suster o que já não sei disfarçar. Homem expropriado de futuro. De rosto abrigado por mãos que não se abrem, corpo descaído numa vida que se obscurece na mais completa indiferença pelo tempo. 

Mais uma vez fingirei ter a paciência de tudo achar normal. Afivelarei a máscara. Não te vejo, não me vês. Estamos fatalmente desencontrados.
Fico nesta emergência de te reinventar porque esta noite já não te sonhei…

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