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Estamos de volta

O espantalho

Voz às Escolas

2014-09-25 às 06h00

Luisa Rodrigues Luisa Rodrigues

Não é que a paragem tenha sido longa o suficiente para que a afirmação tenha impacto, mas o certo é que durante alguns dias abandonámos o espaço físico da escola para tentar recuperar energias.

Mal sabíamos que às atribulações do final do ano acresceriam outras tantas, algumas das quais nos fariam sentir uma necessidade imensa de parar, como se não o tivéssemos feito, mesmo que apenas por alguns dias.

Para aqueles que teimam em não abandonar o barco e continuar no leme, parar tem um peso relativo, porque a paragem apenas corresponde à ausência física, já que na bagagem continuam os assuntos pendentes e sempre urgentes. Bendita evolução tecnológica que aliviou o peso da bagagem mas que, em contrapartida, eliminou as distâncias.

No entanto, com tanta evolução, não sei como é que ainda não consegui entender a razão pela qual sinto que não só estagnámos, como ainda conseguimos regredir no que ao sistema educativo diz respeito.

Estagnámos porque apenas substituímos a informação em papel pela mesma informação em suporte digital, com a agravante de que esta nova forma de prestação de contas é extraordinariamente redundante, o que nos leva a ter dúvidas quanto à nossa sanidade mental.
Estamos a viver a era das plataformas…pena não serem petrolíferas e acabar-se-iam os problemas do país.

Estas e outras questões ganham redobrado impacto quando nos lembramos que assinámos com o MEC um Contrato de Autonomia, e que esse estado de graça não passa de um documento em papel, devidamente assinado por ambas as partes, como manda o figurino. As práticas, essas, não passam de possibilidades sujeitas a tantas limitações que acabamos, finalmente, por constatar, que salvo o dito documento e o estatuto adquirido, tudo ficou na mesma.

Bem, na mesma não, porque conseguimos arranjar forma de conquistar o direito a elaborar mais um relatório de prestação de contas, relatório esse que também levanta polémica quanto à forma e aos pressupostos que lhe estão subjacentes.

Quem sabe se o ensino público tivesse, realmente, evoluído no sentido das escolas gozarem de alguma autonomia, não pudessem ser evitados alguns dissabores, daqueles que mexem com as pessoas, que condicionam a qualidade do serviço que prestamos e a qualidade de quem os presta.

Se não, vejamos:
Terminado o ano letivo prepara-se o próximo, começando pela constituição de turmas, constituição essa que carece de aprovação, aprovação que chega já no decurso do mês de agosto, e que, ano após ano, exige um exercício de paciência redobrado para que quem decide entenda que, apesar do país ser tão pequenino, tem assimetrias vincadas que têm que ser equacionadas antes de serem tomadas algumas decisões.

A regra da soma e da divisão por 25, 26 ou 30, conforme o nível de educação ou de ensino, não serve para todas as situações, sob pena de transformarmos a escola pública num armazém de pessoas, de quem se espera o tão famigerado sucesso.

Aprovadas as turmas, há que rever a distribuição de serviço, até porque, nos entretantos, fomos comtemplados com algumas colocações por condições específicas, e o que valia em finais de julho pode já não fazer sentido.

Entretanto o MEC questiona-nos sobre as renovações de contratos e aguardamos que seja dado provimento à validação feita, com base nos dados reais de que dispúnhamos. E se entretanto tivermos validado com base numa Rede que, apesar de o desconhecermos, tinha sido alterada? Acontecerá que iniciaremos o ano letivo à espera de recursos imprescindíveis, sem entender por que tardam. Resolve-se reforçar os contactos formais, sem resposta, com contactos telefónicos, o que nos fará dar um tombo doloroso.

A Rede da Educação Especial tinha sido alterada, vejam só! Como é que não nos ocorreu que essa fosse a causa de tanta dor de cabeça?!
Quanto à escola a tempo inteiro, surge uma nota informativa do MEC que abre a possibilidade dos agrupamentos de escolas contratualizarem com outras instituições, o que seria uma mais valia. Contactadas as estruturas regionais do MEC fomos informados que se tratava de um lapso e que a nota seria corrigida. Face ao silêncio, formalizámos o pedido de esclarecimento e aguardámos. Só que continuamos a guardar.

Do mesmo modo que aguardamos que alguém se lembre que é urgente que se explique a razão pela qual, apesar de regulamentado que não poderiam ser alterados, os manuais escolares tenham o mesmo ISBN mas, no interior, tenham sido completamente alterados, o que coloca as escolas com graves problemas de funcionamento.

Claro que podemos fazer tábua rasa da bolsa existente e adquirir manuais novos para todos os alunos abrangidos pelas medidas da ASE, mas, se assim for, a verba a que cada aluno tem direito não chegará sequer para contemplar com todos os manuais os mais carenciados. E os outros? E aqueles que não usufruindo desta benesse, e tendo dificuldades económicas, adquiriram os manuais através da OLX ou de outras bolsas de mais fácil acesso?

Será que vamos ser obrigados a trabalhar com dois manuais em simultâneo para não penalizar quem mais precisa? Se assim for, quem acarretará com o ónus do aumento garantido da taxa de insucesso? E isto para não falar do respeito que os profissionais de educação merecem.
Haja paciência!

Alguém segure o leme antes que o barco afunde e só restem destroços!
Se o tal contrato que assinámos, em nome das escolas que representamos, valesse alguma coisa, o meu estado de alma seria bem diferente e teria o imenso prazer de dar as boas vindas ao novo ano escolar num outro tom, que não este, o de quem recomeça já cansada, tanta a confusão e, sobretudo, a falta de respeito por quem ainda vive em função de uma escola que, provavelmente, já nem existe.
Estamos de volta…mas cansados.

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