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Estávamos todos enganados

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Ideias

2018-06-25 às 06h00

Pedro Morgado Pedro Morgado

Em 2008 estávamos muito longe de imaginar que seria possível o regresso de ideologias xenófobas à liderança de algum dos governos dos principais países do mundo ocidental. Há que reconhecer que estávamos todos profundamente enganados.

O ano de 2018 ainda vai a meio e as notícias que nos chegam da Europa, Canadá, Estados Unidos da América e Vaticano têm confirmado a ascensão dos movimentos e ideias nacionalistas de natureza racista, xenófoba e homofóbica.

Na Europa, enquanto gerimos a maior crise de imigração oriunda do depauperado continente africano, a Hungria prossegue as suas políticas antidemocráticas de abuso dos direitos das minorias e de desrespeito pelos mais elementares Direitos Humanos, estando agora a criminalizar o apoio humanitário aos refugiados e requerentes de asilo que chegarem aquele país.

Quando este movimento nacionalista, populista e xenófobo parecia circunscrito aquele país da antiga URSS, eis que a Itália cai nas mãos de uma coligação populista entre a extrema-direita e a extrema-esquerda. Esta coligação tem a particularidade de só conseguir encontrar consensos no pior que os dois polos extremistas têm em comum. Em poucos dias de governo já assistimos ao encerramento dos portos italianos aos navios de socorro humanitário que transportam os refugiados que sobrevivem aos sucessivos naufrágios e afogamentos no mar Mediterrâneo e à ameaça de criação de um registo de ciganos semelhante às listas que existiam nos tempos cinzentos do nazismo e do fascismo europeus. Nas suas decalrações inflamadas contra os ciganos, Salvini foi mais longe e lamentou o facto de estar obrigado pela Constituição do seu país a tratar os ciganos italianos como cidadãos.

Dos Estados Unidos da América as notícias não são melhores: sabemos agora da detenção de crianças separadas dos seus pais, uma ação absolutamente desrespeitosa da dignidade humana e dos mais elementares princípios dos Direitos Humanos. No meio da crise em que Trump, como habitualmente, se comporta como um elefante numa loja de porcelana, a primeira dama visita um dos centros de detenção de crianças ostentando um casaco de uma popular marca de roupa espanhola que tinha inscrito nas costas a frase provocante “Eu não quero saber”. Não seria possível imaginar tamanha falta de sensibilidade e de respeito por aquelas crianças que ali jazem detidas, afastadas da sua família e condenadas a sofrer por toda a vida as consequências deste trauma imenso.

Como se esta tragédia política não fosse miséria bastante, soubemos pela voz do Papa Francisco que os ventos da intolerância continuam a dominar o Vaticano. “Não são uma família”, assim se refere o Papa aos casais constituídos por pessoas do mesmo sexo. Sabendo da perseguição, humilhação, discriminação e violência que os homossexuais ainda sofrem em todo o mundo, incluindo Europa e Estados Unidos da América, esperava-se da Igreja Católica uma posição que contribuísse para reduzir a discriminação em função da orientação sexual e não a manutenção de uma reiterada atitude de estigmatização e segregação.

Todos estas histórias que compõem o nosso quotidiano têm em comum os mesmos ingredientes: medo, preconceito, ódio, intolerância e desconhecimento. Parece que estamos condenados a dividir o nosso tempo com mais pessoas intolerantes do que desejávamos. Para o contrariar, o único caminho é resistir na defesa intransigente dos Direitos Humanos, persistir na demonstração de que uma sociedade diversa dá mais garantias do que uma sociedade homogeneamente formatada e aceitar que a democracia, sendo o melhor de todos os regimes, pode gerar períodos de ascensão destes movimentos repugnantes de natureza populista. Está nas nossas mãos gerar consensos e criar condições de vida que os tornem outra vez irrelevantes.

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