Correio do Minho

Braga, terça-feira

Este S. Mamede: memória da ruralidade

Desprezar a Identidade, Comprometer o Futuro

Conta o Leitor

2014-07-14 às 06h00

Escritor

António Fernandes


Abri a porta para percorrer os cerca de doze metros de distância que tem o piso superior do lagar de azeite que remonta à década de cinquenta, contornando as enormes mós, os potes, os capachos, avançando os carris dos carros de ferro para o transporte e prensagem das azeitonas, esgueirando-me por entre as duas bombas de pressão que elevam os pistões das duas majestáticas prensas hidráulicas, e a caldeira a vapor em pose de observação a este meu deambular.

Passei o fosso da turbina que antigamente era movida a água do Rio Este e à entrada da casa do motor, um anexo construído sobre uma ribeira abaixo do nível do Rio, parei para contemplar esta peça do inicio da moagem da azeitona para a confecção do azeite por processo industriaizadol. Um motor com um pistão e uma caixa de velocidades com duas posições: ponto morto e engrenagem de uma única velocidade, e cujo alvará remonta ao ao de 1961.

Ao fundo, numa das esquinas angulares do citado anexo, sobre um funil pendurado num prego e que ali se encontra desde que a memória recorda, um casal de pequenas aves (espécime de ave de cor escura com as penas do rabo alaranjadas ) renovou o seu ninho que neste local se encontra desde pelo menos há quarenta anos (!). No ninho estão três crias. Três bicos amarelos, bem abertos e erguidos, pedindo comida.

Lá fora, através de uma janela que propositadamente não tem vidros para que estes habitantes sazonais por força da sua condição de aves migratórias possam entrar e dar continuidade reprodutiva à sua espécie, consigo avistar, pousado num ramo do amieiro fronteiro, um dos “inquilinos”, que batendo as asas e abanando o rabo, de “bicada” dependurada no bico, aguarda a minha saída para saciar a fome das suas crias. Agacho-me, recuo e saio. Saio pelo lado do “inferno”.

Um conjunto de dois tanques desnivelados para onde 'cai' a água com que se lavam os capachos e em cuja superfície flutua o azeite perdido que num sistema de dois tanques desnivelados transborda para o tanque mais baixo de onde é retirado. Este azeite sobrante tem serventia na casa para a confecção de refeições do pessoal que trabalha à jorna na quinta e no lagar.

São três os degraus que desço e que me conduzem à porta de saída para a regueira por onde corriam as águas “russas” em direção ao caudal do rio que nesta altura do ano é considerável.
Cá fora confidencio aos tomateiros, pimenteiros, cabaceiras, feijoeiros, e outros hortícolas, assim como aos choupos e demais arvoredo, às silvas já com amoras e onde melros construíram ninhos: A vida é levada da breca, mas é bela!

Confidência feita, sigo caminho pelo prado dos moinhos. Um carreiro estreito em terra batida pela passagem regular de pescadores e vizinhos entre o Rio e o milheiral ladeado por velhos choupos a que se agarram e trepam videiras com cachos de uvas com os bagos já a pintar e que darão vinho verde, em direção ao moinho velho onde em tempos idos se moía a farinha para o pão que era cozido nas redondezas.

Hoje não vou poder ir visitar o velho moinho porque não consigo atravessar a cachoeira. O lodo acumulado nas pedras é muito e por isso fica para outro dia.

Um pouco adiante, alguém, vergado, de sachola em punho, cava desenfreadamente. Tusso para me anunciar... não vá o diabo tecê-las! E entabulo conversa:

- Então Se Manel! Anda a sachar o milho a esta hora? Está um calor do caraças!

- Oh Toninho! Tem de ser. Não bê que a erba está grande e a auga bai pequena. Não tarda muito e fica seco.
- Eu ajudava-o, mas, tenho pressa. E descanse que o rio nunca secou.
- Num brinque Toninho! Era o que faltaba!
- vou andando. Assim também não lhe estorvo o trabalho.
- Espere aí Toninho! Tenho ali uma caneca e bai beber uma maurga!
- Obrigado Se Manel. Fica para outra vez. Agora não.
- O Toninho é que sabe. Bá com Deus...
Sabe sempre bem encontrar alguém neste deambular solitário.
Findo o campo de milho, subo um pequeno valado em direcção a uma bouça onde um centenário carvalho proporciona um sombra fantástica. Frondosa. Aí me deito, sobre o manto de erva fina, e adormeço.

Entretanto, com o por-do-Sol, o tempo arrefece e acordo:
Levanto-me. Sacudo a roupa e toca a andar que já é muito tarde. Tropeçando aqui e ali, ao sabor do acidentado do terreno e sempre de olho no carreiro porque o leito do rio é próximo e corre bem lá no fundo, sigo caminho.
No cimo do valado, por entre a ramagem de uma centenária oliveira um mocho pia.
Aquele piar lúgubre, que dizem, anunciar a morte de alguém nas proximidades do local aonde pia.

Com o anoitecer, as relas, os ralos e os grilos já cantam.
A lua e as estrelas que no céu brilham transmitem luz suficiente para conseguir ver o caminho.
Uma vaca muge numa quinta vizinha onde a luz de uma lamparina acesa sobressai na escuridão da noite.

Um cão ladra avisando presença inoportuna.
E, o fino recorte dos montes que circundam este pequeno Vale do Este perfilam-se na linha limite do horizonte como que separando a vida rural da vida da cidade.

Deixa o teu comentário

Últimas Conta o Leitor

31 Agosto 2018

Ingratidão

30 Agosto 2018

Humanum Amare Est

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.