Correio do Minho

Braga,

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Estrelas num céu cinzento

Decisões que marcam

Estrelas num céu cinzento

Ideias

2020-11-03 às 06h00

Jorge Cruz Jorge Cruz

1. A justíssima atribuição do Prémio Camões ao Professor Vítor Aguiar e Silva deverá encher de orgulho os bracarenses e, de um modo geral, todos quantos se interessam pela política da língua portuguesa. Não nos podemos esquecer que estamos a falar de um dos intelectuais mais respeitados e admirados do país.
Usufruir dos ensinamentos de um pensador como o antigo vice-reitor da Universidade do Minho sempre constituiu um enorme privilégio e uma honra para os milhares de alunos que frequentaram as suas aulas. Contudo, para além de insigne pedagogo, figura central da vida académica, Aguiar e Silva também desempenhou um papel de grande relevância na comunidade literária, designadamente através da sua obra ensaística.
Com uma erudição que a sua tradicional modéstia por vezes não permite ter a divulgação tão alargada quanto seria desejável, o galardoado este ano com o Prémio Camões é um daqueles intelectuais de primeira água mas nem por isso deixa de ser aquilo que a voz popular designa como a humildade em pessoa.
Sobre o valor do trabalho de Aguiar e Silva, o júri desta 32.ª edição do Prémio reconhece “a importância transversal da sua obra ensaística e o seu papel activo relativamente às questões da política da língua portuguesa e ao cânone das literaturas de língua portuguesa”.
Sem pretender extrapolar a intenção dos jurados quando reconhecem “o seu papel activo relativamente às questões da política da língua portuguesa”, sempre recordarei que Aguiar e Silva foi um dos principais subscritores da chamada “Petição em Defesa da Língua Portuguesa Contra o Acordo Ortográfico”
Mas vai ainda mais longe ao sublinhar que, “no âmbito da teoria literária, a sua obra reconfigurou a fisionomia dos estudos literários em todos os países de língua portuguesa”. E acrescenta: “Objeto de sucessivas reformulações, a ‘Teoria da Literatura’ constitui-se como exemplo emblemático de um pensamento sistematizador que continuamente se revisita”, relevando igualmente “o importante contributo dos seus estudos sobre Camões”.
O reconhecimento das enormes qualidades intelectuais e académicas de Vítor Aguiar e Silva constitui, pois, um acto de inteira justiça que honra, em primeiro lugar, o júri e, depois, todos quantos com ele têm privado, quer pessoalmente quer através das suas obras. Estamos a falar – não podemos nem devemos esquecer – de uma personalidade reconhecida internacionalmente, em particular nos países de língua portuguesa, nas áreas da teoria da literatura e do estudo camoniano.

2. A consagração de Aguiar e Silva não é, felizmente, a única boa notícia no plano cultural. Variadíssimos exemplos, embora sem a relevância do Prémio Camões e portanto sem qualquer comparação possível, poderiam ser aqui referidos.
Tomando Braga como modelo desse exercício, será incontornável a referência à recém-aprovada Estratégia Cultural 2030, já abordada nesta coluna, bem assim como os 40 anos da Companhia de Teatro de Braga (CTB).
No âmbito das comemorações, a companhia bracarense ofereceu há dias à cidade um belíssimo espectáculo - “Gostava de estar viva para vê-los sofrer”, uma tradução do texto de Max Aub, com encenação do espanhol Ignacio García e superiormente protagonizado por Ana Bustorff.
O encenador espanhol explica, em breves palavras, as razões de pôr em cena, nesta altura, o texto a partir da obra de Max Aub: “para não esquecer aqueles que viveram estas e outras guerras, recordar as vítimas dos totalitarismos aniquilantes e avisar para o perigo de uma sociedade que roça a debilidade.” Também “para reivindicar o valor do teatro testemunho do exílio, como um instrumento vivo e eficaz para interpelar a sociedade.”
O momento não poderia ser mais oportuno. E a oportunidade não advém apenas do facto de a CTB estar a comemorar os 40 anos de existência, 36 dos quais em Braga, no âmbito de um protocolo então firmado com o Município para sedear na capital do Minho um dos maiores projectos de descentralização teatral. A conveniência deste espectáculo decorre também do facto de o texto agora encenado ter o condão de nos despertar para uma realidade da qual, ontem como hoje, ainda há quem se tente alhear ou, como diz Ignacio García, “não queira inteirar-se”. Também pela escolha, a Companhia de Teatro de Braga está de parabéns.

3. Apesar das diversas estrelas que vão surgindo no panorama cultural, a verdade é que são insuficientes para iluminar um firmamento carregadíssimo de nuvens cinzentas.
Na proposta de Orçamento de Estado para 2021, por exemplo, a previsão de despesa para a área da Cultura é a terceira mais baixa, apenas superior à da Representação Externa e do Ministério do Mar. Contudo, se lhe retirarmos as verbas destinadas aos órgãos de comunicação estatais, a despesa consolidada da Cultura passa a ser a segunda mais baixa.
Constata-se, com inquietação, que não obstante o ligeiro reforço orçamental, o ‘peso’ da verba da Cultura no total da despesa total consolidada da Administração Pública tem vindo a encolher. Ora, sendo certo que a cultura contribui decisivamente para a formação do indivíduo enquanto ser social, o mínimo que se poderá dizer é que estamos a desinvestir nas pessoas e a deixar a comunidade à sua sorte.
Será oportuno lembrar, a propósito, os avisos deixados pelo Nobel da Literatura Dario Fo: “Mesmo antes de a Europa se ter unido ao nível económico, ou antes de ter sido concebida ao nível de interesses económicos e comerciais, era a cultura que unia todos os países da Europa. A arte, a literatura, a música são os elos de ligação da Europa”. Touché!

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