Correio do Minho

Braga, sábado

Estudar por medo?

O nível de vida português pode ser ultrapassado pelos países do leste europeu

Voz às Escolas

2016-01-28 às 06h00

José Augusto

Arecente discussão sobre a extinção dos exames do 4.º ano fez aflorar conceções atávicas mas muito enquistadas entre nós. Entre os argumentos a favor da manutenção das insólitas provas de exame do 1.º ciclo, emergiu, em muitas vozes, a valorização do exame como ameaça útil. É o argumento da motivação pelo medo: os alunos só estudam se tiverem exames; as famílias só se preocupam se os infantes correrem o risco de reprovar; os professores só ensinam se os seus alunos forem sujeitos a avaliações externas; as escolas só se preocupam com as aprendizagens se houver “rankings”. Nessa linha de pensamento, sem exames os alunos não aprendem e os professores não são profissionais confiáveis. Após meses de trabalho, não basta o professor atestar que os alunos aprenderam, isso verifica-se melhor numa prova de duas ou três horas. Ainda assim, se os exames confirmarem que todos os alunos aprenderam o essencial, não ficam, uns e outros, livres da suspeita de que o exame foi fácil.
Esta forma de pensar tende a revelar uma conceção das crianças, dos jovens e dos seres humanos em geral como preguiçosos por defeito e indigentes por feitio. Assumindo que só se estuda por medo de chumbar no exame, exclui-se qualquer outra possibilidade e desiste-se de educar para a autonomia e para a responsabilidade individual. Aliás, nem adianta evidenciar que os exames do 1.º ciclo quase não reprovavam ninguém e que os alunos estudam, e os professores ensinam, por muitas outras e mais importantes razões.
Na verdade, por exemplo, em 2015, após 185.374 provas, de Português e de Matemática, de alunos internos do 4.º ano que foram admitidos a exame com avaliação positiva, apenas resultaram 0,6% de negativas na nota final. Por outro lado, realizaram-se 9.811 provas de alunos internos que foram admitidos a exame com avaliação negativa (ainda assim representando apenas 0,5%) e delas apenas resultaram 88 (0,9%) de notas finais positivas. Se a avaliação externa servia para corrigir menos de um por cento das avaliações internas, certamente que os recursos humanos e financeiros envolvidos naqueles exames podem produzir melhores efeitos aplicados em apoios aos alunos e às escolas para atividades de combate ao insucesso escolar.
Por outro lado, prefere-se ignorar o aumento de reprovações nos anos intermédios dos do ensino básico, ou seja, na lógica da sua argumentação, o crescente número de alunos que nem com medo do exame estudavam! Essa não é uma questão menor. Se só estudarem pelo medo de reprovar, o mais provável é que, reprovando, percam rapidamente esse medo e, aí chegados, o mais certo é que voltem a reprovar.
Somos os recordistas europeus das reprovações precoces. Sucedem-se os estudos que demonstram a ausência de qualquer efeito virtuoso das reprovações. Os alunos que reprovam nos primeiros anos de escolaridade têm uma elevada probabilidade de voltar a reprovar. Porém, ainda está muito disseminada a ideia de que as reprovações e a repetição do ano escolar ajudam a aprender. Está demonstrado que usar os exames, as reprovações e as repetições de ano como ameaça para quem não quer aprender ou para quem tem dificuldades de aprender é quase inútil e muito pouco eficaz na melhoria das aprendizagens.
Educar as crianças e os jovens nessa lógica é optar pelo mais fácil. Infelizmente, ao longo da vida, essa facilidade paga-se caro. Como podemos esperar que crianças que só estudam para exames, estudem as matérias que não são sujeitas a exame? Como esperar que crianças e jovens que só estudam por medo de reprovar estudem mais para serem ainda melhores quando têm a passagem de ano assegurada? Como esperar que depois de terminados os seus percursos académicos (e acabados os exames), as pessoas mantenham a vontade de estudar e de aprender ao longo da vida?
O desenvolvimento da autonomia e da responsabilidade individual carece da maturação demorada de processos de (auto)motivação para o cumprimento dos deveres pessoais. Para isso, exige-se o estímulo precoce das atitudes, competências e capacidades necessárias. O gosto pela aprendizagem, pela superação das dificuldades, pelo alcance do conhecimento são garantias de longo prazo para a instalação permanente da vontade de aprender. São também a garantia do alcance de aprendizagens que resultam em conhecimento consolidado. As aprendizagens para os exames, mesmo entre os alunos com melhor desempenho, são predominantemente aprendizagens efémeras. Pouco depois de qualquer exame, nenhum aluno será capaz de obter o mesmo desempenho, sem nova preparação.
Queremos alunos que estudem porque querem aprender ou que só estudam se forem obrigados? Queremos trabalhadores que trabalhem por serem profissionais responsáveis e autónomos ou que só trabalham quando são controlados? Queremos cidadãos cumpridores dos seus deveres sociais por obrigação ética e moral ou pessoas que só respeitam as regras quando se sentem vigiados? Então é preciso mudar as mentalidades.
Claro que é mais exigente! Claro que é mais difícil! Claro que alguns nunca acreditarão que os outros sejam capazes disso! Porém, esses… estão apenas a ver-se ao espelho.

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