Correio do Minho

Braga, sábado

Eterno Amor

O nível de vida português pode ser ultrapassado pelos países do leste europeu

Conta o Leitor

2011-08-30 às 06h00

Escritor

Filipa Magalhães

Não estava a dormir quando abri os olhos e consegui perceber que o dia estava a nascer. Estava somente a tentar descansar.
Durante a noite, tinha-me voltado para o lado oposto a ti. Precisavas de descansar e de sentir que não me deixavas desamparada quando partisses. Tentei esconder, mas passei toda a noite a abafar lágrimas que teimavam em não cessar, que me escorriam pelos olhos e humedeciam a pequena beira bordada dos lençóis. Chorei, mas sempre em silêncio.

Quando me levantei, abri a pequena janela da sala e consegui escutar o canto alegre dos pintassilgos. A manhã tinha nascido linda, clara e quente como era natural naqueles primeiros dias de Verão.

Apanhei o cabelo para um lado e deixei os caracóis caírem-me delicadamente pelo ombro, como tu tanto gostavas. Coloquei um singelo vestido branco e foi no exacto momento em que enlacei o atilho junto ao peito que senti a tua mão suave tocar-me o pescoço. Estremeci, mas consegui colocar um sorriso, embora nervoso, e avisei-te que estava na hora de te preparares.

Estava já a arrumar o que restava da tua roupa quando te vi, através da cozinha, encostado à porta junto ao corredor. Olhavas-me com os olhos semi-cerrados, direccionados ao meu rosto, como que tentando deslindar o meu estado de espírito. A verdade é que parecia quase apática, não suportava a ideia do perigo que poderias vir a correr naquelas terras do Ultramar.

Cheguei-me lentamente até junto de ti, sentia o coração bater aceleradamente. A farda de soldado que tinhas colocado no corpo invadia-me a mente da maior tristeza e do maior medo que alguma vez senti. Abraçaste-me e colocaste o meu rosto no teu ombro. Fazias-me leves mimos no cabelo quando alguém lá fora chamou o teu nome.

Descemos as escadas do parapeito e foi nessa altura que soube que teria de te deixar partir, mas não conseguia largar-te a mão, não conseguia sabendo que o maior amor da minha vida se dirigia para um dos maiores perigos do momento, sem que tivesse feito qualquer coisa que fosse para tal ter acontecido.

Olhámo-nos mutuamente, puseste, delicadamente, a mão sobre a minha barriga já saliente e disseste-me para cuidar bem da nossa menina até ao teu regresso. Nesse momento, não consegui evitar, uma lágrima teimosa escorregou pelo meu rosto e ao vê-la, beijaste-me suavemente e sussurraste-me ao ouvido que tudo iria ficar bem.

O carro em que seguias desapareceu, tal como a poeira que levantou. Enlacei os braços sobre o nosso bebé e rezei para que este me desse força. Os meses que se seguiram, pareceram-me abismos constantes, tempos infinitos, sem um fim declarado.

Hoje, recordo-me de tudo isto e daquele outro dia marcado pelo regresso das tropas. Estávamos em pleno Janeiro, o vento atravessava-se pelo meu cabelo, despenteando-o, enquanto eu segurava a pequenina nos meus braços, que mantinha os olhos bem abertos, atenta a todo o alarido provocado pelos reencontros, pelas desilusões, pelos gritos de alegria ou de desespero, pelos rostos desconhecidos mas unidos por um mesmo objectivo, o tão esperado reencontro com os seus.

Eu olhava para toda a parte, numa busca incessante pelos teus lindos olhos verdes, mas não conseguia encontrar-te. As minhas esperanças estavam praticamente goradas quando oiço, uma voz ansiosa e, ao mesmo tempo, trémula, gritar pelo meu nome. Lembro-me de me voltar e de sentir quase de imediato o teu abraço já junto a mim, lembro-me de sorrir e de tocar a tua face com as mãos ainda a vacilar, dos teus olhos lacrimejantes a observar a nossa pequena filha, o nosso maior tesouro.

Haviam-se passado meses sem nenhuma notícia, porém, estavas comigo, connosco, estávamos juntos e prontos para reconstruir o que tinha ficado em suspenso desde a tua partida.
Hoje, quando acordei vi, mais uma vez, como em tantos outros anos passados, os teus olhos verde - lima a olhar os meus, por entre as rugas de uma vida de trabalho mas também de muito amor e posso dizer, com toda a certeza, que te continuo a reconhecer como no primeiro dia.
Amar-te-ei eternamente.

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