Correio do Minho

Braga, terça-feira

Eu e as minhas circunstâncias!

Sem Confiança perde-se a credibilidade

Voz às Escolas

2013-11-11 às 06h00

Maria da Graça Moura

Entrei e decidi tomar um café ao balcão, pois estava com alguma pressa. Quando me preparava para pagar, a funcionária do café informou-me de que já estava pago. Foi aquele senhor que está sentado, ali ao fundo! Olhei e não o reconheci. Era um jovem forte, com algumas entradas no cabelo, que sorria para mim e, de imediato, se levantou. Dirigi-me a ele para lhe agradecer e, já um diante do outro, reconheci o seu sorriso e o seu olhar.

-Francisco! Desculpa não te ter reconhecido! Já não te via há muitos anos!
-Professora, ainda se lembra do meu nome! Claro, fiz tantas asneiras na escola, que marquei bem a minha passagem, não professora?
- Se calhar já não me lembro bem das asneiras. Prefiro guardar a recordação do teu sorriso maroto e do teu jeito de “Chico esperto”, disse-lhe eu, para aliviar um pouco as imagens que me estavam a preencher a memória do ano difícil em que o tive, como aluno.

- Pois é, professora, mas eu sei bem os problemas e as dores de cabeça que causei a todos os meus educadores: não trazia o material escolar, não fazia os trabalhos de casa, não estudava para os testes e só tirava negativas. Acumulava recados na caderneta que diziam sempre o mesmo: “não faz os trabalhos de casa”, “está sempre distraído” “deve esforçar-se mais”. Eu sei que era um “tapado” porque não percebia nada de matemática nem de inglês!
Para suavizar um pouco o rol de frustrações, perguntei-lhe com ar sereno: -mas Francisco, os professores foram muito pacientes contigo, não achas?

- Talvez, só que nunca quiseram saber porque é que eu era mau aluno, porque é que eu não estudava, ou não tinha bases. Eu era um rapaz muito revoltado, porque nunca tinha tempo para brincar, nem jogar à bola. A minha mãe trabalhava na Grundig e entrava às seis da manhã. Eu, com dez anos, tinha de acordar o meu irmão pequenino, arranjá-lo, dar-lhe o pequeno-almoço e levá-lo à creche. Às vezes, quando chovia muito, deixava a mochila da escola em casa, para não ir tão carregado com o menino ao colo. Quando ele ficava doente, eu tinha de tomar conta dele para a minha mãe não faltar ao trabalho. Muitas vezes ia para a escola sem almoçar e faltava a Educação Física porque tinha vergonha de usar as sapatilhas todas rotas.

Olhei-o com mais ternura, como que a pedir desculpa por não ter tido capacidade de transformar em amor as angústias que este rapaz expressou.
Quase a querer despedir-me, ainda lhe perguntei: - E agora, Francisco, como está a tua vida?
- Estou bem, professora! Tenho uma empresa de gestão de condomínios, casei, tenho dois filhos, tento ser um pai presente, já que o meu foi sempre ausente. Quero que os meus filhos sejam crianças mais felizes do que o pai!
Dei-lhe um abraço forte e despedi-me com alguma comoção na voz!

Cheguei à escola na hora do intervalo e, olhando para todas as crianças que os meus olhos enxergavam, perguntei a mim mesma quantos ‘Franciscos’ estariam ali. Quantos alunos estarão, em sala de aula, a pedir que se ouçam os apelos silenciosos que ecoam na sua alma!
Dizia José Ortega y Gasset “ Eu sou eu mais as minhas circunstâncias”!

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