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Braga, quarta-feira

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Eu luto

O símbolo internacional (quase universal) do amor

Eu luto

Escreve quem sabe

2023-11-01 às 06h00

Fabíola Lopes Fabíola Lopes

Termo muito propício para uma fase dolorosa de perda. É uma luta desigual, injusta, fétida. Cheira a morte. É a podridão da perda que nos corrói, como um verme que nos come a carne da existência do outro em nós, pedaço a pedaço, pele, carne, nervos até chegar ao osso. Até chegar à voz.
Eu luto. Seria o termo melhor para a luta da física irreversível contra a mente que quer ali, a todo o momento, o instantâneo da outra pessoa. Rosto e corpo, cheiro, riso, jeitos e trejeitos. Um sussurro que fosse e que às vezes nos chega como um sopro de vida ainda, a que nos resta, e à qual nos agarramos como se ainda, como se ali, como se ela.
Aos poucos a memória vai-nos atraiçoando. Já não é uma dor aguda a todo o momento, as vivências renovam-se, acumulam-se, sobrepõem-se. As rotinas instalam-se, às vezes novas formas de fazer sem, de viver sem, de estar sem. Ocupamos os dias que é como quem diz preenchemos o vazio que o corpo sente a latejar numa sinfonia pesarosa e dolorosa, até se tornar melodia que nos abraça levemente. Por vezes há endeusamentos, perdões tardios, culpas a carpir. O tempo não permite retrocessos nem perdões. Apenas compreensões.
Eu luto é a dinâmica mais permanente do luto. Eu luto todos os dias contra esta perda, agarrada ao cheiro na roupa, à voz que ralha, que diz, que ri.
O poder da gargalhada repetida no vazio da nossa mente, num repente, o cheiro familiar que nos envolve, ou ainda um sabor que nos faz viajar até àquela cozinha tão de todos. Até que a memória já não nos assalta, já não nos fere, já não rasga. Já não dilacera.
Antes nos abraça numa bênção por termos sido, por termos tido, por termos vivido aquela graça de realidade com aquela pessoa tão especial, tão incrível, tão encantadora, tão nossa.
Perpetuamente nossa, por aquilo que semeou em nós. Perpetuamente nossa, por aquilo que alimentamos nas memórias que regressam, uma e outra vez, num abraço quente recheado de consolo e de presença, aqui, mesmo aqui, a andar pelos mesmo caminhos, a conviver pelos recantos dos mesmos espaços, a respirar o mesmo ar, ainda.
Eu luto. Até que a luta se manifeste apenas contra a perda de memória que nos atraiçoa e que revisitamos sempre que possível, numa exaustão da repetição dos momentos que nos ficaram. Como um tesouro que abraçamos e que nos salva nas noites frias.
Eu luto, por ti, aqui, dentro de mim.

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