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Eu tenho vergonha de Deputados assim

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 Eu tenho vergonha de Deputados assim

Ideias

2021-03-01 às 06h00

Carlos Pires Carlos Pires

Numa altura em que as  HYPERLINK ‘https://zap.aeiou.pt/marcelino-da-mata-reabriu-feridas-deve-discutir-guerra-diz-ramalho-eanes-381922’ feridas da guerra colonial foram reabertas, após a morte do militar Marcelino da Mata, o Deputado Ascenso Simões, num  HYPERLINK ‘https://www.publico.pt/2021/02/19/opiniao/opiniao/salazarismo-nao-morreu-1951297’ \t ‘_blank’ artigo de opinião escrito no jornal ‘Público’, do dia 19 de fevereiro último, intitulado “O Salazarismo não morreu”, escreve que “o 25 de Abril de 1974 não foi uma revolução, foi uma festa”. “Devia ter havido sangue, devia ter havido mortos, devíamos ter determinado bem as fronteiras para se fazer um novo país”, refere ainda. Aproveita ainda para falar do “mamarracho do Padrão dos Descobrimentos” e considera que, “num país respeitável, devia ter sido destruído enquanto monumento do regime ditatorial”.

Atenta a polémica que tão bombásticas declarações suscitaram, o deputado socialista viria a precisar que “não se trata de mortos físicos nem de sangue derramado nas ruas, mas de cortes epistemológicos (…) para limpar da nossa memória elementos que são danosos da construção de uma democracia plena”. Enfim, adianto: “desculpas de mau pagador”, recorrendo assim a uma expressão popular utilizada relativamente a alguém que não encontra razão válida para justificar e assumir os seus erros, recorrendo a esfarrapadas desculpas de modo a “cobrir o sol com peneira”. Há declarações disparatadas que são graves. E mais graves são quando o autor das mesmas é um deputado da Assembleia da República. Senão, vejamos: desde logo a forma como, mesmo que indiretamente, incentiva ao ódio e à violência, penalizando a História por a Revolução dos Cravos não ter ceifado vidas, certamente desgostoso por o período pós revolução não se ter caracterizado por uma guerra civil, destruidora da sociedade. Lamentável.

Acresce o facto de apelar à destruição de um monumento icónico da identidade portuguesa: o Padrão dos Descobrimentos. O facto do monumento em questão ter sido edificado durante o período salazarista não lhe retira o que de mais importante possui: a evocação da expansão ultramarina portuguesa, sintetiza um passado glorioso e simboliza a grandeza da obra do Infante D. Henrique, o impulsionador das descobertas. Isolado e destacado no paredão à beira do Tejo - local de onde partiram as embarcações para explorar mares e terras desconhecidas -, assenta num desenho de Corttinelli Telmo e representa uma caravela estilizada a fazer-se ao mar, levando à proa o Infante D. Henrique e alguns dos protagonistas da gesta ultramarina e da cultura da época, nomeadamente navegadores, cartógrafos, guerreiros, colonizadores, evangelizadores, cronistas e artistas.
Não, Senhor Deputado, este monumento, este símbolo, faz parte do nosso orgulho coletivo e exalta a nossa identidade e um período da História de afirmação de Portugal no mundo. Estou certo que o meu país jamais permitirá que qualquer cidadão descarregue inconfessáveis frustrações no ato de destruir um monumento.

Por outro lado, que exemplo é dado, sobretudo aos jovens, com tais rancorosas palavras e apelos de destruição? É assim que pretendemos controlar tantos movimentos extremistas, incluindo partidários, e que colocam em causa os nossos ideais democráticos? Julgo que não. Aliás, tenho a certeza que não. Veja-se a este propósito o lamentável incidente ocorrido também recentemente em debate organizado na plataforma ‘zoom’, pela Associação de Estudantes do Liceu Camões, em Lisboa, sobre a escravatura e o racismo. A certa altura o ecrã foi invadido por suásticas, ameaças racistas, saudações nazis e imagens violentas.
Este ato cobarde e racista, provavelmente perpetrado por jovens adolescentes, é grave porque revela aquilo que já suspeitáramos: existem camadas da sociedade portuguesa que defendem ideias contrárias ao enraizado princípio da igualdade, nomeadamente em função da raça. E essas camadas, essas franjas, utilizam as redes sociais e a internet para veicularem o seu pensamento xenófobo.

Ora, como poderemos nós apelar a ideais de consenso, de abolição de extremismos, quando temos um deputado - que representa os portugueses, e que por isso fala em nosso nome, não interessando pois de que partido se trata – que utiliza termos e expressões tão eivados de radicalismo?!
Este tipo de deputados, que apelam aos extremismos, e que parecem ter vergonha da nossa História, não deveriam ser autorizados a sentar-se naquela que é a Casa do Povo. Eu tenho vergonha de Deputados assim.

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