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Eu vi... o grande Leste

Vamos mesmo continuar a cometer os mesmos erros?

Conta o Leitor

2020-07-23 às 06h00

Escritor Escritor

Texto Félix Dias Soares

OLeste de Angola foi o cenário onde se desenrolaram as maiores e mais decisivas ações militares, a partir de 1968 até inícios de 1975. Aqui as forças Portuguesas, contando com o indireto apoio sul-africano, defrontaram-se com os três movimentos de libertação e estes lutaram entre si, por vezes com grande intensidade. Tratava-se afinal, de estabelecer uma hierarquia para o futuro, de marcar o território e de ganhar uma legitimidade interna e externa, que os colocasse na melhor posição possível, para aquilo que era certo e garantido. A independência de Angola.

Foi neste imenso Leste que conheci os heróis da minha geração, aqueles que sob o peso da mochila e do armamento, caminhavam para a frente inclinados, na misteriosa mata serrada e nas enlameadas chanas do leste. Eu vi… os que no corpo sentiram as feridas da guerra, os que com olhar baço pediam, para à família dar recado, com o rosto em lágrimas afogado. Eu vi… a fragilidade da vida e a coragem desses homens valorosos.

Falo daquilo que vivi, ex-combatente da companhia C.C.S. do Bat. 4212, instalado na saliência do Cazombo, a que chamava-mos o quadrado da morte, como condutor de Berliet percorri parte do Leste, destacamentos e companhias eram para mim uma rotina diária, as saídas eram por volta das quatro horas da manhã com o regresso ao fim da tarde. As enjoativas conservas das rações de combate, eram o nosso alimento quase diário, por vezes recebia-mos ração para quatro dias e durante esse tempo não tinhamos direito a comer no quartel. Deixo aqui um agradecimento ao António Sá do Cavumgo, ao Francisco padeiro da Caianda, ao cozinheiro Chaves do Cazombo, sempre que passava por lá tinham sempre o prato do dia guardado, ou um casqueiro com chouriço, também nos fuzileiros no Chilombo, na picada da Lumbala, aí trocávamos uma ração de combate por uma refeição, sem estes amigos, não teria trazido os meus ossos de volta. São por factos como estes, que a guerra será sempre recordada, por aqueles que comeram o mesmo pó, nas picadas do grande Leste.

Havia sinais que conhecíamos, quando saiamos dos quarteis ou destacamentos na madrugada e tínhamos muitos Civis à espera de boleia, era bom sinal, estávamos certos que não havia minas nem emboscadas, mas quando não aparecia ninguém para transportar, era muito preocupante, por vezes tínhamos de fazer uso da Força Aérea para iniciar a Coluna Militar, com um Plutão de Sapadores a pé a bater a picada. Era neste equilíbrio de informações, que as nossas vidas estavam suspensas, era necessário ser prudente e ter um bom destino. Com a integração de efetivos locais nas nossas forças armadas ou de segurança, facilitava o comprometimento dessa população com a política Colonial, provocando fraturas entre membros de famílias e grupos, que optavam pelos partidos independentistas, criando-se fontes de informação e contra – informação. Era neste contexto de informação, que os civis sabiam o destino das colunas militares, mesmo antes de nós, soldados.

As operações no mato foram a causa de muitas baixas e doenças, pelas longas exposições na mata e caminhada de muitos quilómetros. Lembro os militares que deixei em certos locais e quatro ou cinco dias depois, tínhamos de os recolher a cinquenta ou mais quilómetros. Era comovente ver o estado de alguns, chegavam em macas improvisadas feitas com o poncho (impermeável), por vezes evacuados por meios aéreos no local de chegada. Soldados que foram tantas vezes ao limite das suas forças, em nome de uma bandeira que juraram defender, de uma Pátria da qual pouco resta.
Em vinte e sete de Abril de 1974, tivemos a notícia dos acontecimentos na Metrópole, era assim chamado este cantinho, estávamos na picada entre a Caianda e o Jimbe perto da Zâmbia há quatro dias, com duas Viaturas avariadas. A notícia chegou por meio aéreo, junto às peças pedidas para a reparação, vinha uma nota com a informação do golpe de estado, era boa a notícia, estava assim ditado o nosso regresso mais cedo, o que só aconteceu em Fevereiro do ano seguinte.

Os civis brancos já tinham partido para lugares mais seguros e nós, deixava-mos uma população abandonada à sua sorte. As populações juntaram – se a nós na hora da despedia, pedindo que ficasse-mos, acenando lenços brancos. Todos sabíamos que estava iminente um grande desastre. Deixamos as instalações, apenas transportamos o material de guerra e as viaturas capazes de fazer a viagem até Luanda, mais de dois mil quilómetros. Era o abandono total, a grande desilusão para as populações e para nós.

Em Portugal, famílias inteiras sofrem as consequências da guerra, em contexto de grande violência, que para muitos nunca acabará. Os ex-combatentes desde sempre foram ignorados pela nova vaga de políticos que assolaram o nosso País, que tem o vinte e cinco de Abril, como propriedade sua. Não podemos ser eternamente esquecidos, nem rotulados com o regime do Estado Novo. O País que prestigia as suas Forças Armadas no estrangeiro, com palestras e condecorações é o mesmo que abandonou os militares mortos ao seu serviço em Africa, e em Portugal!... Esquece os vivos que ainda restam.

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