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Executivos e Remunerações

Futilidade Aberrativa Pomposa

Ideias

2016-10-28 às 06h00

Margarida Proença Margarida Proença

Aquestão dos pacotes remuneratórios a pagar a executivos, isto é, a diretores de topo em empresas, financeiras ou não, tem merecido a atenção de muitos investigadores. No fundo trata-se de saber qual a melhor maneira de alinhar os interesses dos acionistas com os interesses dos gestores, evitando aquilo que na gíria dos economistas se designa por rent-seeking, digamos a atração por complementar rendimentos por formas mais obscuras…

Note-se que as preferências de uns e os interesses dos outros não são necessariamente coincidentes. Os acionistas preferem obter lucros ou dividendos mais elevados, enquanto os interesses dos gestores se traduzem muitas vezes por quotas de mercado mais significativas, por fusões e aquisições badaladas, pela construção de grupos empresariais, ou por sinais exteriores de reconhecimento e status social, como bons carros, gabinetes de luxo, por aí fora. Ou podem preferir ainda criar condições que sugiram que são imprescindíveis, permitindo que se mantenham nos lugares que ocupam. Para muitos autores, esquemas de incentivos adequados atribuídos aos gestores de topo são a forma correta para levar a que estes atuem de facto de acordo com as preferências reveladas pelos acionistas - sejam privados ou públicos.

Mas dir-se-á: isso não é verdade para todos quantos trabalham na organização? Bem, sim e não. Por um lado, cabe á direção de topo definir estratégias, que deverão depois ser operacionalizadas pelos restantes colaboradores. Ora a definição de estratégias é da máxima importância, podendo fazer toda a diferença nos resultados finais que são obtidos. Por outro lado, em larga medida o que justifica a existência de pacotes remuneratórios muito elevados radica na dificuldade de observar e monitorizar o comportamento dos gestores.

A literatura relevante chama a isto “problemas de agência” : quando o principal - o acionista, até mesmo o contribuinte, tem eventualmente interesses que podem ser divergentes dos “agentes”, aqueles que escolhem verdadeiramente as estratégias a implementar. Os acionistas só acabam por conhecer os resultados obtidos no final do ano, quando os relatórios de contas são aprovados, por vezes mais tarde ainda. Essa monitorização, contudo, é possível de ser feita pelos gestores a todos os seus colaboradores, ao longo da cadeia hierárquica.

Outros autores vão num sentido diferente, e argumentam que os executivos de topo, pelo menos de alguns, provavelmente pelas suas competências técnicas, de gestão ou comportamentais, detêm um poder de facto significativo, que lhes permite impor as compensações que pretendem. Ou seja, mais do que um incentivo para obter um determinado desempenho, no quadro da teoria da agência, estes pacotes remuneratórios sinalizam poder efetivo dos CEOs. A coisa andará provavelmente por uma combinação das duas explicações.

Com certeza que se trata de um tema incómodo, principalmente quando olhamos para os valores que mensalmente estão inscritos na nossa folha salarial, e os comparamos com remunerações anuais na ordem do meio milhão de euros, ou por lá perto; no entanto, aceita-se quase sem qualquer discussão que um futebolista, ou um treinador, ganhe bem acima destes valores , e comparam-se mesmo níveis salariais dos mesmos em contexto internacional, para concluir com orgulho “que os nossos são melhores, poucos ganham tanto como eles em todo o mundo”… Enquanto vão metendo golos, e ganhando jogos, os clubes geram receitas e os adeptos estão contentes.

Na verdade, alguns estudos mostram que a discussão pública deste tipo de questões, nomeadamente nos jornais, acaba por influenciar negativamente as remunerações, ainda que apenas nos dois anos seguintes. No entanto, não é nada claro que o saldo seja positivo; é curioso é que nestes casos, o resultado final pode ser bem pior, por causa da possibilidade do recurso a “camuflagem”, diminuindo por essa via a transparência, introduzindo ainda mais enviesamentos e ineficiência.

No caso das empresas públicas, a discussão sobre as remunerações dos CEOs ganha especial destaque. Como por exemplo, Kaplan refere num artigo que escreveu em 2012, a perceção de que os gestores de topo recebem remunerações demasiado elevadas, que vão sempre aumentando, que não estão associadas aos resultados obtidos, sem qualquer monitorização, é quase genérica, seja nos Estados Unidos , em Portugal, ou em qualquer outro país. Tal como afirmava Murphy, em 2012, trata-se na verdade de um assunto “complicado”: os pacotes remuneratórios dos CEOs são afetados por múltiplas interações no mercado, onde o talento, o poder efetivo de que dispõem, e a política são elementos centrais. Tal como acontece com os futebolistas, o mercado de talento coloca pressão nos níveis remuneratórios, bem como noutros elementos complementares das compensações recebidas como forma de atrair e reter os melhores. A questão é como introduzir algum tipo de regulação que contribua para que haja os desvios entre a remuneração média e a remuneração de topo sejam razoáveis, assegurando ainda a monitorização e a responsabilização face aos resultados obtidos.

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