Correio do Minho

Braga, quinta-feira

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Fábulas Desencantadas

Migrações e Estado-Providência

Fábulas Desencantadas

Ideias

2018-11-30 às 06h00

Joana Páris Rito Joana Páris Rito

Chamava-me Ranchero. A minha mãe pariu-me numa ganadaria. Lá medrei até alcançar o corpanzil de 582 quilos. Lá pastei até me levarem ao Campo Pequeno, a catedral da tauromaquia em Portugal. Num corredor estreito, entre tábuas, os paus espancaram-me o lombo, o focinho, a cornadura serrada. Na arena, estanquei de espanto. As gentes e o Campo Pequeno engalanados, torres e camarotes adornados, música aos brados. Lá estava o cavalo, de cavaleiro montado, homem encasacado a ouro bordado, botas de cano, chapéu emplumado. Distraído, mostrei mansidão. O público não gostou, assobiou, queria diversão. O cavalo, enfeitado, rondou-me. O cavaleiro, de bandarilha em riste, açulou-me, é toiro, é toiro, hei, hei, ó, ó, oi, oi, olhó, olhó, é toiro, é toiro. Não entendi o cacófato cantarolado mas vi-lhe o olhar esbugalhado, excitado. Amedrontei-me. Senti-me ameaçado, no círculo encurralado. Cavalgou ao meu encontro. Espetou-me um ferro enfeitado, embandeirado. Chagou-me o cachaço, apelidado de zona da cruz. Era essa a minha cruz. A dor invadiu-me. A bandarilha, dependurada, massacrava a carne sangrada. O público aclamava, a banda tocava, o cavaleiro exultava. A “sorte” dele era o meu azar. A dor espicaçou-me. Corri contra o cavalo. Senti outro ferro cravado, mais outro, mais outro. O sofrimento embotou-me. Homens a pegarem-me, a puxarem-me a cauda, plateias de bocas cheias de vivas e olés, a soltarem palmas, a regozijarem, a humilharem um pobre touro ensanguentado, indefeso, violentado, condenado. A festividade a que chamam Arte antecedeu-me a morte ultrajada.
Chamava-me Bolívar. Sobrevivia num circo. Um elefante enjaulado, acabrunhado, atrofiado entre as grades prisioneiras. Fazia os outros felizes sem o ser. Coisa difícil, a bem dizer. A isso fui obrigado, após capturado. Em terras de África nasci e por lá não cresci. Da minha mãe me apartaram. A ela também a levaram. Vive isolada, esfriada, num jardim zoológico, cárcere de animais, ao qual a gente acha piada. A minha pele era dura, de cicatrizes tatuada. Foi o adestrador que as ferrou, ao impor-me acrobacias circenses impróprias do porte elefantino, indiferente ao meu sofrer. Tinha fome. Deixei de a ter. A doença engoliu-me, tragou a pouca vontade de viver. Quis morrer. Antes a morte que o moroso padecer.
Chamava-me Pipoca. Era uma cadelinha dourada, engraçada, perdida de amores pelo rafeiro do lado, que me embarrigou, todo empertigado. O meu dono, enfermeiro, notou o meu roliçar. Mostrou-se desagradado. Esventrou-me, devagar, sem nenhuma anestesia me dar. Arrancou-me as crias. Afogou-as. Olvidou-se de duas, acanhadas dentro de mim. Coseu-me a pele. Não cerziu o útero. A crueldade envenenou-me. O sangue inundou-me. A minha morte foi lenta, muito lenta. A minha morte foi sofrida, muito sofrida.
Chamava-me Bianca, talvez pelo pêlo branco, escorrido, ambicionado pelos homens, uma lã a que chamam mohair. Os homens agarravam-nos, batiam-nos, tosquiavam-nos, magoavam-nos, surdos aos balidos de aflição. A pressa das lâminas rasgava-nos as carnes. Os homens não se importavam. Abandonaram-me no pasto, careca, sangrenta. Os ferimentos infectaram. Não me sustinha nas pernas. Tinha sede, muita sede. O corpo era dor. O homem aninhou-se. Ergueu-me a cabeça. Degolou-me. O rio de sangue escorria, tingia a terra, banhava o medo, esvaía a vida. O homem torceu-me o pescoço. Ouvi, craque, os ossos quebraram-se. Foi o derradeiro som que escutei.
Chamava-me Olívia. Gostava de correr. As avestruzes são aves gigantes, não voam, mas correm velozes. Quando chegam aos quarenta anos, abrandam. Os homens dizem que somos estúpidas. Não é verdade. Somos boas mães. Os machos ajudam-nos a chocar os ovos. Os homens matam-nos sem compaixão nem respeito. Às vezes, ainda temos vida quando nos arrancam as penas usadas em espanadores, em vestes carnavalescas. Tiram-nos a pele para as marcas de luxo produzirem carteiras, cintos e sapatos. Eu estava viva.
A Humanidade dizimou sessenta por cento dos animais e das plantas desde o início da denominada Civilização. Mesmo que a destruição termine agora, serão necessários sete milhões de anos para o Mundo Natural recuperar. Nunca é tarde para mudar.

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