Correio do Minho

Braga, sexta-feira

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Fazer coisas com a Filosofia

Beco sem saída

Ideias

2015-10-09 às 06h00

João Ribeiro Mendes João Ribeiro Mendes

O título deste artigo é adaptado do de uma interessante obra que li durante as férias de verão, How to do things with pornography, de Nancy Bauer, saída no primeiro semestre de 2015, ele mesmo uma intencionada paráfrase ao do conhecidíssimo livro do filósofo da linguagem inglês John Austin, How to do things with words.

Apesar do título, o ensaio da filósofa feminista estadunidense pouco tem que ver com a pornografia, antes constituindo, em larga medida, uma reflexão desassombrada sobre o valor da Filosofia, a sua suposta inutilidade e presumida falta de progresso.

Faz hoje parte da “filosofia popular” - uma contradição nos termos? - escarnecer da irrelevância prática da Filosofia. O escritor nova-iorquino Carlin Romano, no seu America, the philosophical (2013) - um livro onde procura desmontar a crença globalmente disseminada de que os EUA são uma nação anti-intelectual e argumentar que, pelo contrário, constituem o país mais perquisitivo do último par de séculos - colheu três chistes que reproduzo: a filosofia, zombam alguns, é “um caminho com muitas vias, que conduz de parte alguma a lugar algum” ou, ironizam outros, um “saber” que oferece “respostas ininteligíveis a problemas insolúveis” e, a minha favorita, que outros ainda gostam de contar à mesa de banquetes, prende-se com a venenosa pergunta dirigida a um finalista de filosofia: “o que é que vais fazer quando acabares o curso, abrir uma loja de ideias?”.

Felizmente que há duas semanas perto de 200 jovens adultos decidiram pensar e agir de diferente modo. Com efeito, conhecidos os resultados da segunda fase de candidaturas ao ensino superior para o ano académico recém-iniciado não deixa de ser bastante significativo, de impressionar até, que nas cinco universidades nacionais que mantêm em funcionamento um curso de primeiro ciclo em Filosofia, a totalidade das vagas oferecidas tenha sido preenchida: Universidade de Lisboa (44), Universidade Nova de Lisboa (25), Universidade do Porto (56), Universidade de Coimbra (27) e Universidade do Minho (25).

Para um saber que supostamente para nada serve é um número bastante elevado. E se a ele adicionarmos o dos que se encontram a fazer os segundo e terceiro anos das licenciaturas e o dos estão a iniciar estudos em Filosofia ao nível de pós-graduações - mestrado e de doutoramento, assim como o de bolseiros de pós-doutoramento atraídos pelos nossos centros de investigação - só na Universidade do Minho rondarão uns cinquenta - então afigura-se ainda mais enigmático que a comunidade dos que se dedicam academicamente à Filosofia em Portugal exiba tendência de crescimento.

O que fará tão significativo número de pessoas dedicar-se a este saber? Arrisco dizer que um mesmo anseio as move a todas: fazer coisas com ele. Alguns querem fazer coisas com a lógica e a argumentação: usá-las na discussão e defesa pública de ideias. Outros com a epistemologia: realizar experiências sobre os processos de conhecimento e justificação racional de crenças, recorrendo a métodos das ciências cognitivas, para melhor compreendê-los. Outros ainda dedicar-se-ão à aplicação da ética na resolução de complexos problemas morais que diariamente surgem nas várias esferas da ação humana. E há também os que querem aproveitar a ontologia para finalidades práticas como a criação de sofisticados mundos informáticos.

Enfim, como estes quatro exemplos por certo deixam perceber, o trabalho filosófico é incessantemente suscitado pelo mundo, mas a ele sempre retorna, descrevendo um arco reflexivo que continuamente se renova.

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