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Voz aos Escritores

2021-01-15 às 06h00

Fabíola Lopes Fabíola Lopes

-Mãe, as escolas vão fechar. O pesadelo, novamente. Os alunos à distância, a aula enquanto magma vivo suspenso. Apesar de todos os esforços e tentativas de compensação, não é nem nunca será a mesma coisa. Os alunos com mais dificuldades e os mais tímidos, às vezes as duas características juntas na mesma criança, precisam da presença do professor, precisam que o professor passe por eles, veja o que está a fazer, ajude ali, em intimidade e quase em surdina. Olhos nos olhos, mesmo com a máscara, é melhor do que a face toda por um ecrã. E nada substitui a passagem da mão pelas costas, tu consegues, tu és capaz, anda lá.
- Mãe, afinal as escolas não vão fechar.
Um alívio interior percorre o corpo com serenidade. Vá lá… Percebo a preocupação dos professores que pertencem a grupos de risco, mas esses podem sempre recorrer à baixa. Os alunos, na sua maioria, não são grupo de risco e os que são podem assistir e acompanhar à distância. Os restantes alunos, a sua aprendizagem e percurso, não devem ser sacrificados. O contexto escolar, e já o pude verificar por experiência própria ao longo destes meses, não é local de infeção, desde que as pessoas cumpram as normas aconselhadas: máscara e constante lavagem ou desinfeção das mãos.
Ouvi o Primeiro-Ministro com muita atenção. E fiquei com muitas perguntas a ecoar. As coimas serão a duplicar? Acho muito bem. E que coimas apanharam aqueles jovens, mais de 200, apanhados numa festa no Porto? Como é que os comícios políticos continuam a ser uma exceção? Onde está o exemplo? Os teatros e a cultura fechada. E isto é dito em nome de uma dívida, o que “devemos a todos os que já morreram.”
De acordo com o jornal Público de dia 9 de janeiro, por cada 100 mortos por Covid-19 há mais 46 que morreram com outros problemas de saúde e que não tiveram o devido acompanhamento médico. Sabemos que os profissionais de saúde estão esgotados, que não conseguem dar resposta a tudo. Mas também sabemos que muita ajuda médica está há muito inacessível. Há meses que não se consegue entrar em contacto com vários centros de saúde, onde as pessoas deveriam ser orientadas para os mais diversos tratamentos.
Ontem a Ministra da Saúde, Marta Temido, decretou o adiamento de cirurgias prioritárias, assegurando a vida do paciente, incluindo as que estavam agendadas para doentes oncológicos, exceto as do IPO. Certamente que sabe que o privado anunciou a disponibilidade de 800 camas. Certamente que sabe estas estatísticas e outras que nem chegam a público. Certamente que tem consciência que teve pelo menos 6 meses para reforçar e preparar o SNS, com as limitações que todos percebemos, para negociar com os hospitais privados a 2ª fase da pandemia que estamos a viver e que todos sabiam que viria.
Então eu pergunto: é por uma questão ideológica que não recorre aos privados? É por uma questão ideológica que 46 pessoas por cada 100 de Covid-19 morrem por não terem a devida assistência médica? Não me venham dizer que é por dinheiro, porque então o ultraje e a infâmia são maiores ainda, quando há milhões de euros que passaram para a mão de privados nos bancos e quanto mais estará ainda previsto, não se iludam. O que devemos às pessoas que já morreram, especialmente desnecessariamente? O que devemos às que ainda irão morrer por esta cegueira ideológica, birra de criança com consequências dramáticas? Devemos tudo o que estiver ao nosso alcance, senhor Primeiro-Ministro. Devemos o alívio de medidas restritivas no Natal, para que o senhor fique bem no figurino, isto é, nas sondagens.
Este governo tem as mãos sujas de sangue, das pessoas que já morreram e das que vão morrer, seja pela inércia, seja pela teimosia de uma cegueira ideologia que não cabe num contexto pandémico e com a qual o vírus não se compadece.
- Filha, ainda não é agora que vivemos um tempo limpo, um tempo justo, como sonhou Sophia.

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