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Fenomeno(tecno)logia turística

Beco sem saída

Ideias

2015-03-06 às 06h00

João Ribeiro Mendes João Ribeiro Mendes

Visitei a chamada 'cidade eterna' pela primeira vez o ano passado. Como habitualmente faço nestes casos, à semelhança, presumo, de muitas outras pessoas, procurei obter, antes da viagem, informação mínima sobre o lugar, socorrendo-me de um guia turístico.

Dessa vez, contudo, decidi ir mais além e usar o Google Street View (uma ferramenta tecnológica incorporada nos populares Google Maps e Google Earth, disponibilizada desde 2007, que faculta vistas panorâmicas de 360º na horizontal e 290º na vertical de regiões do mundo ao nível do solo) para percorrer, de modo virtual, o tão procurado destino turístico ainda antes de lá ter ido.

Porém, quando pus os pés no chão da capital italiana e comecei a calcorrear as suas ruas, não pude deixar de ter a sensação de déjà vu, de grande familiaridade com o que observava, apesar de saber nunca ali ter estado.

É verdade que essa espantosa fábrica do imaginário coletivo que é o cinema já me tinha levado, como a tanta gente, a fruir uma noite de Estio na companhia de Anita Ekberg e Marcello Mastroianni junto à Fontana di Trevi em La Dolce Vita de Federico Fellini ou a contemplar, lado a lado com Audrey Hepburn e Gregory Peck, o milenar elíptico Anfiteatro Flaviano, mais conhecido por Coliseu, em Roman Holiday de William Wyler. Mas o impacto das impressões causadas ao imergir naquele lugar fez-me pensar sobre a relação entre a experiência turística e a tecnologia e, mais particularmente, sobre se a última pode contribuir de modo relevante para melhorar ou piorar a primeira.

Poderão tecnologias como o Google Street View dispensar-nos de sair das nossas casas e deslocar-nos a lugares afastados, interroguei-me? E que perdemos se acedermos a tais lugares em diferido pelos ecrãs dos nossos computadores? Em que medida o contacto direto com os sítios é único e insubstituível? Nestas questões inquire-se também o futuro da indústria do turismo.

O comentador latino da Eneida de Virgílio, Sérvio, sustentou no século IV que “nenhum lugar se encontra desprovido de Génio” (nullus locus sine Genio) ou lhe falta um espírito próprio, o que modernamente poderíamos descrever como um conjunto de particularidades de várias ordens (sociais, culturais, arquitetónicas, etc.) que lhe conferem um “carácter” singular.

Ora, se assim for, então a experiência turística que o Google Street View e tecnologias afins nos proporcionam é manifestamente muito pobre, porquanto ao permitir-nos mobilizar somente um dos nossos sentidos - a visão - priva-nos do acesso ao Genius loci, à riqueza de sensações e de conhecimentos que nele se disponibilizam apenas e só na e pela presença, e com todos os cinco sentidos ativos.

Admita-se, portanto, que o contacto direto com os lugares possui primazia em relação ao contacto diferido com os mesmos. Mas e no que respeita ao uso de extensões tecnológicas para complementá-lo? Usar ou não usar ferramentas como o Google Street View para potenciar a experiência turística? E se sim, antes ou depois desta?

Como tive ocasião de me aperceber em Roma, boa parte do que estava a experienciar encontrava-se de algum modo antecipado em imagens que levava na minha cabeça dos trajetos, dos edifícios que tinha visualizado nos referidos filmes e Google Street View. Isso incapacitou-me, em grande medida, de ter a sensação de novidade e surpresa. Em compensação habilitou-me para uma atenção maior aos detalhes do que ia vendo, ouvindo, tocando, saboreando e cheirando. Este dilema - prioridade à cognição ou à sensibilidade -, todavia, só pode ser resolvido no plano das inclinações pessoais.

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