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Férias grandes

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Férias grandes

Escreve quem sabe

2021-09-17 às 06h00

Ricardo Moura Ricardo Moura

A primeira chuva de setembro salpicava a poeira calcada por semanas onde o céu tinha um azul permanente. Com ela, o erguer dos odores. Abafados ou límpidos. Sem neblina. Cheiros que percorriam as narinas de ponta a ponta. Era o Verão a desenhar os últimos rabiscos, a perder o fulgor e a carimbar a palavra saudade. As gotículas pousavam na pele escura que carregava. É por este tempo que resgatava o refresco dos fins de tarde. Um arrepio que fazia baliza à inclemência do calor da montanha.
Essa chuva chamava pelo Outono. Pincelava a tez. Acariciava-a. Havia nela um bálsamo que contrastava com o desassossego dos dias seguintes. A mente ainda tentava driblar, mas a hora era de preparo para regressar à sala de aula. Para trás, três meses com pouco freio. Semanas largas. Dias sem fim. Dava para tudo. Desde o acordar cedo, antes do mosquito picar, até ao recolher depois dos serões de trilho. As ruas borbulhavam cabeças. Os olhares dançavam. A noite tinha conversa sem luz pública e slows. No dia da santa, havia mesa farta, comida diferente e roupa que espantava o guarda-fato.

À medida que os dias mingavam, mais medrava a loja. Sem grande licença, eram despejados nabos, beterrabas e couves. Nas caixas, farelo, milho e centeio. Em ladrais, chegavam as batatas. Primeiro com a música dos carros das vacas. Mais tarde, à custa do fumo dos tratores. Pelo meio, o burro. O animal mais poético da minha infância. Recordo o “checo” dos meus avós. Andarilho com pouco pasto e menos trabalho. Um senador de tardes. Impaciente para a pequenada que lhe pousava no lombo.
Mal soava o apito para as férias, o correr iniciava com o virar do feno. O termómetro feria. O zumbido dos moscardos atiçava o enfado. Ao longe, abrigada num carvalhal, estava a vezeira. Não havia cães à mostra. Apenas cabras, no alto das paredes, mostravam bravura para enfrentar a canícula. Ainda estávamos longe dos fardos do feno. Tudo passava pela mão. O enfardar veio depois à medida que os velhos tombaram e os mais novos, com a algibeira abonada pela emigração, começaram a comprar maquinaria.

Os jardins do Barroso estavam cultivados com esmero. Outrora, rara a leira e o lameiro sem a galocha ou o soco do barrosão. Feno, palha e batatas. O tridente galáctico que fintava a míngua. Uma ode para enfrentar os nove meses de Inverno. A aconchegar, o presunto e o lareiro nutrido de chouriças, sangueiras e chouriços de abóbora. Mais tarde, as alheiras para os de bico fino.
Porém, a badola do arranque das batatas era o lamiré ao regresso dos livros. Esquecidos, retornavam em funções de destaque. A mais prosaica, serem raquete para intermináveis jogos de ping-pong. Outra, não menos cediça, servirem os lendários cachaços disparados na fila da cantina. Um mimo que passava gerações e que honrava hierarquias. Na minha aldeia, o Ribeiro era o Al Capone de um bando astuto que deixou memórias. Uma delas, talvez a mais notável, lembra-me o inenarrável jogo da pedrada que terminou quando um jogador não ficou cego por milagre. Este nervo provocava estatuto, proporcional à imbecilidade.

O memorável dos meus anos 80 era avançar sem cobardia. Ter rasgo e acreditar que a felicidade era conseguida em grupo. Bebíamos pela mesma garrafa. O braço era o guardanapo. As bilhós das castanhas andavam nos bolsos. A torna do lameiro desafiava o engano. O Natal não tinha ralhos. A televisão estava coberta por um pano.
Foi neste ramalhete que teci o que ficou. Um tempo desalmado, prenho de memórias. Vi o que já não vejo. Toquei no que já não há. Fica-me a certeza de ter conseguido suster a insustentável leveza dos dias. Abrigo-me, longe da roleta viciada em que se tornou grande parte do respirar. Adquiri o gosto pelo ler e querer saber mais. Fui errante e pecante. Hoje viajo pela palavra. A que pede chuva e voo. Tem um nome. Outono.

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