Correio do Minho

Braga, quinta-feira

Férias no campo

A União Europeia e os Millennials: um filme pronto a acontecer

Conta o Leitor

2012-08-01 às 06h00

Escritor

Por Graça Santos

A crise instalou-se nas nossas vidas, imprimindo, a custo, mudanças nos comportamentos, pensamentos, conceitos, preconceitos, que fomos aglomerando ao longo das últimas gerações. Devido a este novo saber estar, Paulo e Teresa, um jovem casal com raízes no Portugal rural (ainda que afoitos defensores da vida urbana, onde se sedearam desde o secundário), viram- -se obrigados a recambiar os dois filhos para a ‘aldeia’ de origem, durante o período de férias escolares e enquanto eles próprios não entravam em período de repouso, já que 'folgas' para zelar pelos fi-lhos, no tempo de trabalho, não são tole-radas actualmente pela entidade patronal. Colocar os rebentos num programa de férias também não servia como hipótese viável, por não haver cabimento orçamental nas despesas familiares.
A muito custo lá deram a volta ao preconceito de que a aldeia é local inadequado para se viver com a prole, longe das ‘normais’ acessibilidades como Internet banda larga alta definição, TV multiplicidade de canais (ainda mais que agora, com a moderna TV Digital e sem TV por cabo, a captação da emissão dos quatro principais canais ficou seriamente comprometida devido às constantes falhas na qualidade do sinal), sem transportes públicos, água da rede ou rede de esgotos,... Embora com muitas moscas, muitos mosquitos e outros bichos, … Muitas grainhas e diversos pólenes causadores das famosas alergias dos meninos citadinos, criados longe imunidade natural..., o cheiro a fumo do fogão a lenha, a imundice da bosta nos caminhos, a coscuvilhice alheia dos meios pequenos,… e mais um rol infinito de pequenos senãos, tornavam a aldeia apenas tolerável em visitas breves à família. Por isso, o pedido de acolhimento dos netos, no período de férias, feito aos avós, na sua ruralidade, caiu como uma mistura explosiva de espanto e alegria!
Entregues no fim-de-semana, o João e a Ana acordaram preguiçosos no seu primeiro dia de vida no campo, despertos pela luz insidiosa que se esgueirou, cedo, pelas frestas da janela. Depois de ‘almoçados’, dispuseram-se, de imediato, a gozar o lazer que se lhes oferecia sem regras ou barreiras. Desceram ao quintal onde a avó compunha a horta no tempo livre das lides domésticas, logo ali encontrava-se o barraco onde o avô improvisava uma oficina de arranja-tudo e mais além os 'castelos' de madeira empilhada em quadriláteros, resíduos da antiga acti-vidade de madeireiro desenvolvida pelo avô. João e Ana correram para lá e co-meçaram, espontaneamente, a brincar às cidades. Os castelos de madeira eram os prédios, que eles subiam sem elevador, o carrinho de mão simulava o automóvel, a alameda da vinha era a grande avenida. Também iam ao supermercado ‘comprar’ a fruta, isto é colhê-la directamente da árvore (que podiam comer sem lavar ou descascar, facto que lhes causou estra-nheza e cujo conceito não assimilaram). Apanharam os legumes, as flores, as ervi-nhas que aproveitaram para fazer pratos vegetarianos como tinham visto na televisão. A manhã correu célere. Só deram conta do tempo passar quando a avó chamou para o almoço. Miraram-se um ao outro sujos de terra e riscados de verde da fricção com a vegetação, mas, apesar do apetite devorador, ficaram estáticos, sem saber se deviam ir para a cozinha ou para a banheira. O olhar compreensivo da avó e a sua voz serena ordenando, tranquilizou-os:
- Lavar as mãos e correr para a mesa!
A cozinha da avó cheirava a comida acabada de cozinhar, aromática, sabo-rosa, feita com amor e dedicação à medida do gosto dos netos que devoraram o manjar. O avô sorria de soslaio, com sa-tisfação.
- De manhã estive a afinar as bicicletas, se quiserdes, logo, podemos dar um passeio com elas pela quinta. - Sugeriu-lhes.
- Está bem, avô, vamos! - Responderam entusiasticamente.
Enquanto a avó arrumava a cozinha, o avô guiou o passeio ciclista pela quinta. Ao passar pelas fruteiras, aproveitou para lhes mostrar os diversos frutos, identificar o canto dos pássaros que gorjeavam por cima das suas cabeças, mimar as uvas da vinha em quem punha todo o seu enlevo. Depois regressou à oficina. Os peque-nos continuaram a circular e, curiosos, esgueiraram-se pelo portão do fundo da quinta, desejosos de novas experiências. Não tardou nada detiveram-se, admirados: o caminho desaparecia dando lugar a um bosque sombrio e frondoso. A Ana tomou o comando da investida e disse ao irmão:
- Deixamos aqui as bicicletas e vamos a pé ver a floresta, anda!
Ele hesitou um pouco, mas não teve outro remédio senão segui-la. Embre-nharam-se os dois pelos carreiros abertos no mato. Picaram-se, arranharam-se, assustaram-se com os ruídos de folhas e ramos secos que estalavam à sua passagem. Porém a Ana, mais afoita que irmão, teimava em continuar. Sentia-se, magicamente, transportada para os contos fantasiosos de duendes e fadas que lia nos livros da biblioteca escolar. Che-garam, finalmente, a um ponto alto de clareira aberta pelos majestosos granitos que impediam a proliferação da vegetação. Daí avistaram o pequeno ribeiro que circulava no sopé do monte para onde decidiram dirigir-se. Ao descerem a encosta avistaram um rebanho de ove-lhas, desnudadas pelo corte estival da lã. O cão serra-da-estrela que as guardava era enorme e assustador. Rosnou ao pressentir presença estranha no ambiente. Aqui o João agarrou a irmã puxando-a para longe desta rota, a fim de evitar cruzar-se com tão fiel guardador do rebanho. Já no vale, a água do pequeno riacho corria límpida e serena, os gafanhotos saltavam, as rãs coaxavam. No prado das suas margens pastavam vacas, lentas e pesadas guardadas por uma pastora que entabulou conversa com os netos da tia Quina e do senhor Vaz. Foi ela que os ajudou a atravessar o ribeiro e lhes indicou um caminho mais fácil, através dos campos de cultivo, para chegar à aldeia. Aqui perderam-se a observar o labirinto dos milheirais, as espigas esguias do centeio, a erva seca, cortada, pronta a silar-se para o inverno, os campos imensos de flores amarelas de dente-de-leão; a sentir o cheiro forte e agradável da marcela pisada; a ouvir o grugulhar da água que corria nas levadas de rega dos milheirais salpicados de pés de feijoeiros. E os pássaros! E o sol, tão amarelo e brilhante a iluminar o céu azul. Tanta cor! Tanta aventura! Tanta descoberta!
Enfim, chegaram ao caminho que conduz à aldeia e as vozes humanas, o ladrar dos cães, o ruído das lides quotidianas devolveu-lhes a vida real de que se ti-nham evadido. Já em casa perceberam o olhar assustado dos avós por tamanha ausência, sem aviso prévio. Dão explicações. Pedem explicações para compreenderem tanto do que viram. O avô oferece-se para os acompanhar na recuperação das bicicletas abandonadas no percurso.
A noite cai. O telefone toca, muito saudoso do lado de lá, nada do lado de cá, porque até a relação de pertença familiar se havia olvidado.
- Oh, os pais, tinha-me esquecido! - Exclamou a Ana pesarosa, antes de falar aos progenitores.
- … Ah, não, não joguei na minha Consola, respondia o João aos pais. Amanhã trabalho nela, se tiver tempo!...
Após as rotinas higiénicas, o sono surgiu sem necessidade de histórias para adormecer, porque numa só tarde haviam compilado uma colecção inteira de vivências extraordinárias capazes de, por si só, esgotarem uma colecção de livros de aventuras infanto-juvenis, tops de vendas.
A Crise, essa que os obrigou a mudar de vida, parece que não teve sucesso num lugar onde era possível ser feliz, apesar da aparente magreza de recursos.

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