Correio do Minho

Braga, terça-feira

'Festa na Aldeia', por Ramiro Costa

O conceito de Natal

Conta o Leitor

2012-07-14 às 06h00

Escritor

Era uma vez uma aldeia. Uma aldeia transmontana. Daquelas aldeias, onde ainda há pessoas que deixam as chaves na porta. Ou, se não deixam a chave na porta, deixam-na na buraca, onde qualquer transmontano da aldeia a consegue descobrir. Mas, onde as pessoas da cidade nem suspeitam que ali possa estar.

E, como verdadeira aldeia transmontana que era, tinha no verão a sua festa. Sempre no mês de agosto. E as pessoas perguntavam aos filhos da terra quando iam à aldeia: “ E agora, quando voltas? Vens à festa, no verão?” Claro que só não ia à festa, no verão, quem realmente não podia. Porque o dia da festa era um momento solene, onde se reencontravam as famílias, onde se reencontravam os amigos que já não se viam há muito tempo. E no café da aldeia, único local de encontro e confraternização das pessoas, lá estava o cartaz a anunciar o programa. E no adro da igreja, outro cartaz anunciava também a festa. E, em lugares estratégicos onde as pessoas passavam mais vezes, ou onde se encontravam com frequência, lá estava o cartaz.

- Este ano é que vem cá um cantor! Diz que fica não sei por quantos mil euros! - comentava a tia Joaquina, que estava ligada à organização porque o filho era mordomo.
- É dinheiro mal gasto. - respondeu o compadre Manuel que este ano não era mordomo. - Vêm cá uma noite e levam esse dinheiro todo! Mais valia um conjunto mais barato e o dinheiro que sobrava da festa, entregava-se à santa que bem precisa.
- É festa, é festa! - respondeu a tia Joaquina. - Então andam os mordomos a trabalhar tanto para depois entregar o dinheiro à santa? Era o que mais faltava!

Compadre Manuel calou-se. Não queria alimentar aquela discussão que era eterna e, todos os anos, quando sobrava dinheiro, vinha à baila. Havia os que defendiam que a festa era feita em nome da santa e, por isso, o dinheiro que sobrava devia ser-lhe entregue e havia os que defendiam que não devia ser assim. Todos os anos, a mesma discussão.

E o dia da festa chegou. Era domingo e, bem cedo, um grupo de músicos da banda filarmónica, lá estava à porta do juiz da festa. Os cumprimentos habituais e os músicos, o juiz e alguns mordomos iniciaram o peditório pelas casas da aldeia. Ao som da música, lá ia a banda com canções bem conhecidas do povo. Um dos mordomos apontava num caderno improvisado os donativos das pessoas e outro guardava o dinheiro. O juiz era o primeiro a aparecer, batendo à porta e cumprimentando o dono ou a dona da casa. Por volta das dez horas e, já com mais de meia aldeia percorrida, o mordomo que apontava os donativos, virou-se para o juiz e disse:

- Ó Francisco, isto está mau! Por este andar, o dinheiro não vai chegar para as despesas.
- Não te preocupes. - respondeu o Francisco. - Tudo se há de resolver. Ainda a missa vai a meio.

E a banda, o juiz e os mordomos continuaram a pedir a esmola para a festa. Era chegada a hora da missa. E o Francisco, juiz da festa, não podia faltar. Bem como os mordomos. Cansados da volta à aldeia e do calor dessa manhã de agosto, só tiveram tempo de descansar um pouco no adro da igreja, enquanto conversavam com o povo da aldeia. Tocou o sino e há que entrar para a missa. Missa muito bonita, com o padre a apelar à união das pessoas que andavam divididas por causa da política. E, no fim da missa, a procissão habitual com os andores do costume, com os santos e as santas bem adornados. Ali se via a devoção que o povo tinha pelos seus santos, em especial pela santa, em honra de quem se realizava a festa.

Era quase uma hora, o calor apertava, mas não havia nada nem ninguém, que não desse força àquela gente para acompanhar a procissão. E, ao som da música, a procissão lá ia dando também a volta à aldeia. Era uma volta mais pequena que a primeira para pedir a esmola. Mas também custava bastante porque estava muito calor. Por volta das duas horas, a procissão recolhia e era hora de pensar no almoço. Almoço grande, com muita fartura.

Não faltavam as entradas com presunto e chouriço caseiros. A seguir, a canja de galinha e depois o assado. Era especialmente o assado no forno, podia ser leitão. Ou então, carne assada na brasa, ao lume. Muita gente à mesa, velhos e novos, muita conversa, muita alegria e boa disposição. Num ou noutro lar, um músico da banda filarmónica partilhava o almoço com a gente da casa. Os músicos da banda filarmónica, nesse dia, almoçavam na casa dos mordomos. Findo o almoço, era chegado o momento de ir até ao único café da aldeia com os filhos, as esposas, os netos.

Os avós mostravam vaidosos os seus netos traquinas. Os pais, os filhos ou filhas que trabalhavam longe, mas não faltavam à festa. Era um momento extraordinário este encontro no café da aldeia. Neste dia, não havia ricos nem pobres, nem doutores, nem iletrados. Todos se cumprimentavam com alegria e satisfação por se reencontrarem por mais um ano e estarem presentes na festa da aldeia.

A meio da tarde, aproximava-se um momento quase sempre difícil: a entrega da festa. O padre, na missa, já tinha anunciado quem eram os mordomos para o próximo ano. Mas, entretanto, não tinha aparecido nenhum voluntário para ser o juiz da festa. Os elementos da banda filarmónica só esperavam esse momento para entregar a festa ao novo juiz, com pompa e circunstância, e darem por cumprida a sua missão para regressarem a casa. Neste dia, nenhum dos mordomos se ofereceu para ser o próximo juiz. Mais tarde, ter-se-iam de reunir e, em conjunto com o pároco, encontrar uma solução. A festa da aldeia é que não podia acabar.

Próximo da hora do jantar, já se ouviam os primeiros sons do conjunto a afinar os instrumentos para o baile. Outro momento alto da festa! E, desta vez, com o cantor que tinha custado não sei quantos milhares de euros, a noite prometia. Uma hora depois do que estava anunciado no cartaz, o conjunto lá começou a tocar e o cantor apareceu e deliciou as gentes da aldeia e as que vinham das aldeias vizinhas para o apreciar. Velhos e novos dançavam no largo. Os velhos dançavam com elegância as músicas mais populares, o tango, a valsa, etc.

Os novos apreciavam mais do que dançavam. Os rapazes, saboreando uma bebida, conversavam uns com os outros, fazendo um esforço para se ouvirem devido ao som da música que era, por norma, muito alto. As raparigas, mais ariscas, dançavam mais e faziam comentários atrevidos que só elas sabiam, que só elas entendiam. Os mais pequenos ensaiavam os primeiros passos, ao sabor da música, conduzidos pelas mães ou familiares.

A meio da noite, o conjunto fazia uma pausa e o juiz aproveitava para fazer o sorteio das rifas que tinham sido vendidas para angariar dinheiro para a festa. Chamou uma criança que meteu a mão num saco, onde estavam os canhotos das rifas. E, com voz calma e pausada, anunciou o número e o nome do feliz contemplado. Desta vez a vitela tinha saído numa aldeia vizinha.

- Deve valer prá aí uns quinhentos euros. - comentava a tia Joaquina. - Só é pena que não me tenha saído a mim!

Seguiu-se uma pequena sessão de fogo de artifício e o baile continuou.

Já eram quase três horas da manhã e o conjunto ainda tocava. Só havia no largo alguns jovens resistentes que faziam companhia ao cantor e ao conjunto. E no bar, explorado pela comissão de festas, o juiz e três mordomos começavam a arrumar as coisas e a fazer contas. Visivelmente cansados, mas com ar de quem se sente recompensado por ver que tudo tinha corrido bem e as contas deviam estar em ordem para pagar as despesas, os quatro sentaram-se à volta de uma mesa e beberam descontraidamente uma cerveja, acompanhada com tremoços. Tinha chegado ao fim a festa.

O bar tinha rendido bem. O dinheiro, pelos vistos, ia chegar. O povo estava contente com o baile e com o cantor. O juiz da festa para o próximo ano havia de aparecer. A aldeia é que não podia ficar sem festa. Nem a santa que bem merecia.

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