Correio do Minho

Braga, sábado

Festas de Santo António em Braga: uma tradição secular

Menina

Ideias

2019-06-12 às 06h00

Hilário de Sousa

Um misto de alguma surpresa e ignorância (confessa) foi o sentimento que me invadiu há alguns dias com uma notícia sobre a longa tradição das comemorações das festas em honra de Santo António, em Braga. Enquanto a cidade se vai engalanando para festejar o S. João, sem dúvida a festa popular mais conhecida e reconhecida ano após ano, podemos não nos aperceber de que há uma associação que persiste de forma notável em salvaguardar esta bela tradição de recriar as Festas Antoninas, havendo registos da sua celebração há pelo menos 165 anos, segundo o investigador bracarense Evandro Lopes.
A instituição a que me refiro é a Associação Cultural e Recreativa "Os Bravos da Boa Luz", que recupera e dá continuidade às tradições dos moradores do Campo das Hortas, Largo da Boa Luz, Rua da Cruz de Pedra, Rua Visconde Pindela e área envolvente das freguesias da Sé e de Maximinos. O seu principal mérito, se me é permitido dizê-lo, talvez seja essa capacidade de agregar a comunidade em que se insere, funcionando como uma espécie de elemento aglutinador na preservação genuína da memória, sendo disso exemplo a realização anual das Marchas de Santo António.
Ao olharmos para os jornais “Commercio do Minho” e “Contribuinte”, orientados por Evandro Lopes, datados entre 1854 e 1891, constatamos que as festas em honra do santo casamenteiro já se festejavam em Braga em meados do século XIX, incluindo a tradição dos saltos das fogueiras. A imagem de Santo António era venerada num nicho, numa das paredes da Casa dos Coimbras, tendo sido posteriormente removida. A antiga Capela da Praça Municipal, também designada Capela de Santo António da Praça, localizada ao lado da Biblioteca Pública, era igualmente um dos locais de culto, tendo sido demolida em 1949 para se proceder à abertura da atual rua Eça de Queirós. Nos dias de hoje, os fiéis veneram o Santo Popular na Igreja do Pópulo.
As festividades em honra de Santo António começaram entretanto a ser recuperadas, mais precisamente em 1973, com a realização das Marchas Populares, que desfilavam desde o Campo das Hortas, passavam pela Avenida Central e terminavam no Rossio da Sé. Todavia, com o decorrer dos anos, as Marchas foram desaparecendo, tendo sido retomadas há 15 anos, graças à bravura da Associação Cultural e Recreativa “Os Bravos da Boa Luz”. E assim continuam no ano de 2019, na noite de 12 de junho, desta vez na Avenida São Miguel-O-Anjo, onde se situa a sua sede, indo o destaque das festividades de novo para as Marchas de Santo António, as únicas que se realizam na cidade. O início está previsto para as 21.30 horas, contando com quatro exibições – Rossio da Sé, Arcada, Praça do Município e Campo das Hortas.
Atualmente, as Marchas de Santo António de Braga são uma referência na cidade, integrando também diversas comunidades escolares da sua área de intervenção, uma garantia de continuidade desta festa popular tão portuguesa, ao incluir um desfile de crianças pelas ruas do centro histórico, na manhã do dia 13 de junho (EB1 da Sé, Rua Jerónimo Pimentel, Carvalheiras, Rua D. Paio Mendes, Rossio da Sé, Rua do Cabido, Rua D. Diogo de Sousa, Rua do Souto, Avenida Central, Rua dos Capelistas, Jardim de Sta. Bárbara, Largo do Paço, Rua D. Diogo de Sousa, Arco da Porta Nova, Carvalheiras e EB1 da Sé).
A defesa da memória que a atividade desta associação demonstra, particularmente com esta iniciativa, lembra-nos a riqueza da diversidade etnográfica e cultural dos bracarenses, convivendo em paralelo com as multisseculares festividades em honra de S. João a genuinidade de uma comunidade citadina, tão bairrista quanto ciosa das suas tradições. Um bem-haja por isso à Associação Cultural e Recreativa “Os Bravos da Boa Luz” e através do seu exemplo a dezenas de instituições que de forma mais ou menos mediática desenvolvem um trabalho distinto na nobre tarefa de salvaguarda da nossa identidade.
Braga é conhecida como a ‘Roma Portuguesa’ e um dos principais centros religiosos do país, com as suas mais de três dezenas de igrejas. Além deste património, é o ex-libris do Barroco em Portugal, possui um dos Sacro-Montes mais antigos da Europa, o Bom Jesus, a catedral mais antiga do país, a Sé Catedral, e a Casa-Mãe dos beneditinos, o Mosteiro de Tibães. Mas não é tão conhecida por estas idiossincrasias tão peculiares, como as Marchas de Santo António, sendo certo que é também por isso,… de uma forma geral pela sua beleza, cultura, tradições e gastronomia, que o jornal britânico ‘The Guardian’ elegeu Braga em 2014 como a “cidade mais encantadora de Portugal”.

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