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Filetes de paranoia, com arroz da mesma

As bibliotecas e as leituras no verão

Filetes de paranoia, com arroz da mesma

Escreve quem sabe

2022-02-20 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Com que te enchem o gigo, sofrido leitor? A ti e a mim, que levo pela mesma medida, tanto que por terapêutica me imponho bucólica pesca à mosca.
Penso que te azucrinam com o covid e com a malevolência dos russos. O covid que está para passar, e não passa. Os russos que estão para atacar, e não há meio, que estão para retirar, e não há quem apanhe pomba branca em plácido voo. Eu, o que me aborrece, é que não arranjem uma porcaria que derrube gente a deixar-nos a todos sem voz, sem alma, e sem planeta, entretanto volvido inabitável. Sim, porque a Terra dá as últimas, entre secas e dilúvios, erodida por ventos e marés, plastificada até ao tutano, até ao fundo dos fundos da Fossa das Marianas.
Interroga-te comigo, bondoso leitor: o que são as sete pragas do Egipto, se comparadas com os terrores que nos assolam?

No lavar dos cestos, pouco se dirá do covid que não se tenha dito desde o início. Sempre se sublinhou o carácter oportunista da infecção. Sempre se acentuou a comorbilidade. Sempre se vincou a letalidade nos escalões etários superiores. Sempre se soube, enfim, o que na prática acabou desclassificado, quando se estabeleceram medidas universais e restrições estapafúrdias.
Fantasiou-se o covid como uma peste das antigas, das que ceifavam quartas partes da população. No nosso temor da morte, na ânsia justificada de vivermos mais um dia, cancelamos todas as instâncias de análise crítica e passamos a reprovar acidamente quem se cruzasse connosco sem um tapulho nas ventas, quem por mero descuido se acercasse de nós.
Retenho uma conclusão a três tempos: o vírus não era aquilo que pintavam, quem hiperbolizou a perigosidade sabia bem o que fazia, e fê-lo sem pejo nem remorsos. E, haja próxima, que saem os mesmos de cantilena pronta.
Os russos. Ou o Putin, que vale por eles, sendo entidade individual e colectiva em simultâneo.

Assentemos que há um russo bom – o incensado Navalny.
Pode uma sociedade inteira martirizar um homem bom, ao mesmo tempo que bajula, enaltece e se põe ao serviço de um homem mau? Pode!
Pode uma sociedade pautar-se por regras que outras reprovarão?
Sim, eu sei que o que está em causa não é o que os russos-mais-o-Putin façam dentro de portas, porque só o melhor destino dos ucranianos nos interesse, tão altruístas nós somos.
Que urticárias nos fazem realmente os russos? Reprovámos-lhes nós a ocupação totalitária do leste europeu, a ocupação que hoje não existe? Pois! Mas que tememos que volte à primeira forma. Demonizamos nós Putin, porque seja um Estaline em potência, Estaline que a bem dizer foi um Hitler, como os gulagues siberianos foram Auschevitzes?

Persiste um horror deslocado nas nossas récitas. Com juros lombardos descontamos de Vassyas e Marussyas de hoje as desconfianças que nós não permitimos que se extingam. Queremo-los cópias de nós, demonstrando que desconheçamos que haja vinho bebível de outras cepas. Para mim, somos nós que ficamos mal na fotografia. Para o que corre, são eles que andam ao torto e que renegam a luz vital de farol salvador.
Sugiro o que já aludi – ouça-se a alocução de Putin no encontro de 2007 de Munique. Está lá o que nós deliberadamente não quisemos ouvir. Do passado recuperaram os germânicos de forma suave, e ei-los a primeira potência europeia. Com similar espontaneidade guetizamos os russos, como se eles só pudessem ficar no exterior, longe de nós, teimando em singularidades de mundividência, longe do seu património, se dissolvidos nos nossos modos.
Arrastamo-nos de tolhimento em tolhimento. Eu hoje jejuo, passo a cidreira e a Prokofiev – vou ouvir «Pedro e o Lobo».

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