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Filhos do Poder

Os amigos de Mariana (1ª parte)

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Filhos do Poder

Voz aos Escritores

2021-11-19 às 06h00

Joana Páris Rito Joana Páris Rito

Francisco Franco, o Generalíssimo, foi o ditador europeu que mais tempo ocupou o trono do poder tirânico. Usurpou-se do comando da Espanha em 1939, após uma guerra civil sangrenta e fratricida, e manteve-se ao leme da ditadura até a morte o tombar no polémico Vale dos Caídos, em 1975.
Católico fervoroso de estatura minorca, voz aflautada e ademanes peculiares, seria difícil acreditar que, de um homem com tais predicados emanasse um machismo despótico cujos mandos assassinaram um número incontável de espanhóis.
Antes da Guerra Civil Espanhola, Francisco Franco casou com uma aristocrata espanhola, Doña Carmen Polo. Dessas núpcias resultou, alegadamente, uma única filha, Carmencita, nascida a 14 de Setembro de 1926. Escrevo estes factos de laivos coscuvilheiros não com o intuito de vasculhar e florear a vida privada do ditador espanhol ao jeito das revistas cor-de-rosa, magazines populares entre os seguidores das vidas alheias. Como uma panóplia considerável de portugueses, muitos dos nuestros hermanos pelam-se pela revista Hola! e outras congéneres, anestesiando as infelicidades e o rame- rame corriqueiro nas opulentas festas da socialite e no diz-que-disse sobre os bafejados pela fama, ou como tal se mostram, famosos sem sabermos porquê. Adiante, que o assunto desta crónica é demasiado doloroso para minudências. Escrevia eu que, aquando da morte do ditador e do fim da censura imposta pelo franquismo, as bocas foram-se abrindo sem mais receios de serem tapadas pelas torturas ou para sempre silenciadas pelos tiros mortíferos do regime. Os rumores sobre a filiação da Carmencita corriam livres pela Espanha, afirmava-se que o Caudilho Franco era manco das pendurezas, sequela duma bélica peleja atiçada em terras marroquinas, dizia-se que o Paquito Franco era pouco dado a afagos de fêmea, quiçá preferido das meiguices do outro género, asseverava-se que Doña Carmen Polo Franco era seca do ventre e de feitio, logo, incapaz de conceber, aventava-se que a Carmencita era filha de um irmão do Franco, a quem o ditador limpou o cebolório, e de uma prostituta galega de nome poético que se finara a pari-la, retorquia-se que não, nada disso, a niña era uma das milhares de crianças espanholas que ao longo de décadas foram roubadas aos pais biológicos e vendidas as casais compradores. Carmencita terá sido o prelúdio do aterrador desaparecimento de meninos e meninas que ensombra a Espanha desde então.
Durante a Guerra Civil, os esbirros de Franco eram useiros e vezeiros em tirar os filhos às presas políticas, as “rojas”, as comunistas vermelhas encarceradas que davam à luz nos aljubes franquistas. Arrancar-lhes os filhos era mais uma das punições, a pior das torturas sofrida pelas Mães, filhos que, com a conivência da Igreja, eram entregues a casais do regime, a instituições do Estado ou a centros religiosos.
As crianças de Espanha tinham de ser educadas “como Diós manda”. Para castigar os hereges “rojos”, indignos de procriarem, eram-lhes raptados os filhos. As crianças que alguns pais republicanos conseguiram enviar para o estrangeiro, foram mais tarde repatriadas por Franco e vendidas a casais espanhóis devotos da fé de Cristo, estes sim, pais idóneos e merecedores da progenitura.
Após a guerra, o tráfego de crianças prosseguiu. O rasto da mortandade bélica alastrado pelo país descambou na premência do aumento populacional. Franco queria elevar Espanha dos escombros, retomar a glória do passado dos Descobrimentos e do Império Colonial Espanhol. Com a graça de Deus e da Virgem Santíssima, Espanha renasceria das cinzas, das valas comuns onde se enterraram milhares de assassinados, das famílias destroçadas pelas barbaridades de uma guerra de Caim, das mulheres violadas, da fome que devastava os mais débeis, na mesa de Franco e do seu séquito jamais faltaram iguarias, paellas e mariscos frescos, e à Doña Carmen sobejavam-lhe as jóias que ela açambarcava aos ourives por toda a Espanha, os joalheiros que, caso se atrevessem a enviar-lhe as contas dos tesouros por ela levados, eram fiscalizados e ameaçados de traidores, alguns presos por lesarem os interesses do Estado soberano. Franco propagandeou na sua bendita Espanha a palavra de Cristo, Crescei e multipliquei-vos, deu-se o baby-boom do pós-guerra, um crescimento de natalidade que não trazia somente a preciosa mão-de-obra e a felicidade. Quem não tinha filhos, muitos filhos, como a sua Carmencita que ao Mundo deitou sete crias, era malvisto pela sociedade. Floresceu o comércio de crianças, um negócio ultralucrativo que forrava de pesetas os bolsos de médicos, parteiras, freiras, padres, enfermeiras e intermediadores. Inúmeras parturientes foram ludibriadas nos hospitais. Após dar à luz, o pessoal obstétrico comunicava à Mãe que o recém-nascido necessitava de ser examinado por um especialista. Volvidas algumas horas, participavam-lhe o óbito da criança. Certos hospitais davam-se ao tétrico requinte de terem cadáveres de bebés congelados, provas concretas dos falecimentos, que mostravam aos pais como sendo o bebé deles, pais destroçados cuja perda lhes enublava a percepção.
As crianças roubadas eram registadas como filhos legítimos e biológicos dos casais compradores. Esta realidade durou até os anos noventa. Hoje, em Espanha, decorrem milhares de processos, filhos que procuram os pais, avós que procuram os netos, irmãos que procuram irmãos, pais que procuram os filhos, os filhos outrora desaparecidos nas sendas da ganância e da perversidade, os filhos do poder.

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