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Braga, quinta-feira

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Finalmente a cultura?

A saia comprida

Finalmente a cultura?

Ideias

2020-03-10 às 06h00

Jorge Cruz Jorge Cruz

Este plano para os próximos 10 anos (2020-2030) nasceu da intenção de candidatura de Braga a Capital Europeia da Cultura 2027. Mas esta é, sobretudo, uma oportunidade excepcional para reflectirmos sobre o caminho a percorrer para que a cidade esteja à altura desse desígnio e qual o seu lugar e papel numa Cultura Europeia.”
Com esta formulação o Executivo Municipal pretende justificar aos bracarenses a “Estratégia Cultural de Braga 2020- 2030”, extenso documento apresentado há dias na antiga escola básica de São Pedro de Oliveira, edifício que fará parte de uma rede de equipamentos culturais prevista para as zonas periféricas do concelho.
Em termos genéricos, o plano estratégico parte de um levantamento mais ou menos exaustivo (demorou dois anos a elaborar) da realidade bracarense para propor, depois, o visionamento dos “sonhos” e “ambições” da Câmara Municipal para o próximo decénio. É, por assim dizer, um plano de (boas) intenções, embora repleto de generalidades e lugares-comuns, mas é óbvio que os desígnios inscritos no documento granjearão vasta consonância da população.

Creio que a maior crítica que pode ser feita a este plano estratégico para a cultura terá porventura mais a ver com o tempo demasiado tardio da sua apresentação para discussão pública, seis anos após o actual edil ter assumido o cargo, portanto a meio do seu segundo mandato, e menos com o seu conteúdo. O que não significa, obviamente, que este esteja isento de censura.
Saúda-se, obviamente, “o reconhecimento pelo Executivo Municipal do papel incontornável da cultura no passado, presente e futuro da cidade”, bem assim como “da intrínseca relação entre a cultura e o desenvolvimento local sustentável, e do potencial do sector cultural e criativo bracarense.” Só não se compreende que tal reconhecimento tenha surgido tão tardiamente, tanto mais que o executivo municipal considera Braga “uma cidade vibrante e de inovação”, em muitos aspec- tos, mas que do ponto de vista cultural e criativo se encontra, “de um modo geral, subdesenvolvido e fragmentado”. Ou seja, Ricardo Rio demorou seis anos a acordar para a cultura…

Claro que podemos – é uma obrigação – “valorizar a nossa cultura ancestral, o nosso património material e imaterial e associá-lo à inovação tecnológica e social”, conforme sublinhou na apresentação a vereadora do sector. Mas Lídia Dias sabe muito bem que a promoção do património natural, construído e imaterial, não tem sido uma das preocupações do executivo a que pertence.
O entendimento da vereadora também é certeiro quando afirma que, não obstante a “geografia muito desigual em termos de distâncias e de equipamentos culturais”, a paisagem cultural de Braga pode ir além do “centro histórico”, até porque “não nos queremos fechar no espaço público e nos espaços culturais do centro da cidade”.

Com essa perspectiva, o plano estratégico propõe maior presença cultural na periferia da cidade, com mais programação e criação, particularmente na área teatral, e daí a criação da tal rede de equipamentos culturais nas zonas periféricas. O problema é que a prática dos últimos anos desmente completamente as palavras da responsável municipal, pois a realidade presente não tem qualquer similitude com esses “sonhos” ou “ambições”, bem pelo contrário.
Aliás, Ricardo Rio disse, na altura, que está previsto um investimento de 15 milhões de euros na valorização cultural e patrimonial da cidade. Referia-se, concretamente, à recuperação e transformação da antiga escola Francisco Sanches, ao antigo cinema São Geraldo (alugado por 12.500 euros mensais à Igreja, proprietária do imóvel) e ao parque eco-monumental das Sete Fontes, ou seja, com o centralismo a continuar a dominar os investimentos na área da cultura.

E nestes como em tantos outros casos, nem sequer será adequado invocar míngua de verbas. Ainda recentemente os dados divulgados pela Pordata demonstram a enorme disparidade dos investimentos da Câmara de Braga entre, por exemplo, o desporto e a cultura, sendo certo que esta última área é claramente o parente pobre da gestão de Ricardo Rio.
Segundo os números oficiais, nos últimos cinco anos, as verbas afectas ao desporto ultrapassaram os 34 milhões de euros, ou seja, uma média de 6,8M/ano. Se não incluirmos os 12M relativos ao ano (2018) em que Braga foi Cidade Europeia do Desporto, a média nos restantes baixa para 5,5M/ano. No entanto, no mesmo período, os investimentos na cultura ficaram nos 14,79 milhões, ou seja, uma média de 2,8M/ano.

E enquanto isto sucede, a própria Câmara reconhece, à laia de autocrítica, a existência de “uma perceção muito expressiva sobre a necessidade de melhorar alguns espaços públicos da cidade para o acolhimento de atividades culturais”, bem assim como “uma preocupação generalizada com uma maior regulação dos elementos presentes no espaço público no centro da cidade, como suportes de comunicação e publicidade, esplanadas, toldos, barracas, palcos e outras estruturas de apoio a eventos”.

Seria bom que este aparente despertar do autarca para a cultura provocasse um novo olhar do executivo para uma área que, conforme sublinhou o próprio Ricardo Rio, “é motor de muitas dinâmicas económicas”. Temos que esperar para ver. Mas se depois de constatar a “subvalorização de equipamentos culturais fora do centro da cidade” e a “grande assimetria centro/periferia no domínio da oferta e participação cultural” nada for feito para corrigir a situação, é a evidência de que, afinal, as afirmações do autarca de que “este é um documento norteador que fazia falta aos agentes culturais de Braga”, um documento “que sirva de bússola para o futuro”, se insere apenas numa qualquer campanha – da candidatura a Capital Europeia da Cultura ou da sua própria reeleição no próximo ano.

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